ERA UMA VEZ UMA PREN­DA

Correio da Manha - Domingo (Cofina) - - CRÓNICA - FER­NAN­DO ILHAR­CO PRO­FES­SOR UNI­VER­SI­TÁ­RIO AN­TI­GA ORTOGRAFIA

É uma das prá­ti­cas so­ci­ais mais antigas de sem­pre: dar pren­das, pre­sen­tes ou re­cor­da­ções. Co­mo na épo­ca Na­ta­lí­cia que vi­ve­mos. Um pre­sen­te é uma ama­bi­li­da­de, um cui­da­do, uma aten­ção que se tem. Mas é mais. No mun­do sim­bó­li­co que a vi­da hu­ma­na é, um pre­sen­te for­ta­le­ce uma re­la­ção, dá-lhe ener­gia, sig­ni­fi­ca­do e li­ga as pes­so­as. O que faz uma pren­da? Pa­ra ir di­rec­to ao as­sun­to, pren­de; daí o seu no­me. A ofer­ta de pren­das apro­xi­ma as pes­so­as, li­ga-as, man­tém e cul­ti­va uma re­la­ção. Po­de di­zer-se, e bem, que não é pe­las pren­das que a re­la­ção se man­tém. Não é; mas qu­an­do o vai­vém de pre­sen­tes e de aten­ções bai­xam, tam­bém a pro­xi­mi­da­de en­tre as pes­so­as di­mi­nui. E por­que é uma pren­da, um pre­sen­te? Por­que na pren­da que al­guém re­ce­be, é o ou­tro, que a deu, que fi­ca pre­sen­te. Na pren- da que eu dou, sou eu mes­mo que vou e que fi­co pre­sen­te, jun­to a qu­em a re­ce­be. Por is­so, uma pren­da é um pre­sen­te.

Por is­so, um pre­sen­te é tam­bém uma re­cor­da­ção. Uma re­cor­da­ção de qu­em a deu, de qu­em a ofe­re­ceu, a qu­em a re­ce­beu. As­sim o ou­tro, que deu, fi­ca pre­sen­te, jun­to de qu­em re­ce­beu.

Os pre­sen­tes li­gam as pes­so­as. Aliás, as pa­la­vras dizem tu­do. Re­ce­bo e agra­de­ço: obri­ga­do. Obri­ga­do a quê? To­dos sa­be­mos: a re­tri­buir. Qu­em re­ce­be num dia, vai dar no ou­tro –é a re­gra de ou­ro do re­la­ci­o­na­men­to so­ci­al e da in­fluên­cia. Qu­em re­ce­be vai re­tri­buir um dia. Fi­cou obri­ga­do a dar. Hoje re­ce­bi, ama­nhã da­rei. O fi­car obri­ga­do é fi­car li­ga­do, é dei­xar o ou­tro fi­car pre­sen­te con­nos­co. O in­glês ‘thank you’, aliás, diz o mes­mo. ‘Thank you’ vem de ‘think you’, pen­san­do em ti, re­cor­dan­do-te, uma re­cor­da­ção de al­guém, que fi­ca pre­sen­te.

Po­de pa­re­cer que é as­sim so­bre­tu­do na vi­da so­ci­al, mas na vi­da pro­fis­si­o­nal pas­sa-se o mes­mo. Na ac­ti­vi­da­de ci­en­tí­fi­ca, por exem­plo, exis­te evi­dên­cia de que os in­ves­ti­ga­do­res de mai­or su­ces­so, no­me­a­da­men­te os Pré­mi­os No­bel, não são os mais in­di­vi­du­a­lis­tas, mas os que mais lançaram e aju­da­ram ou­tros in­ves­ti­ga­do­res, os que mais de­ram. E por is­so, pos­si­vel­men­te, tam­bém os que mais re­ce­be­ram.

O dar e re­ce­ber as­sen­ta nu­ma ideia de re­ci­pro­ci­da­de ins­tin­ti­va, gra­va­da no in­cons­ci­en­te co­lec­ti­vo, que re­mon­ta a mi­lhões de anos e es­tá li­ga­da à so­bre­vi­vên­cia, à par­ti­lha da ali­men­ta­ção e à na­tu­re­za so­ci­al do ho­mem.

Po­de ser uma aten­ção, um ges­to, um cui­da­do, uma ex­pli­ca­ção, al­gum tempo; o que hoje re­ce­bi, da ener­gia, da aten­ção e do tempo de ou­tro, ama­nhã vou re­tri­buir. Por is­so, o di­ta­do bí­bli­co: re­ce­bes o que dás.

O dar e re­ce­ber, prá­ti­ca so­ci­al mi­le­nar, apro­xi­ma e li­ga as pes­so­as

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