Correio da Manha

DO JORNALISMO TELEVISIVO COMO ELE DEVE SER FEITO

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Fomos presentead­os com um trabalho da jornalista Sara Pinto numa vaga de reportagen­s especiais que todas as televisões, e naturalmen­te que a TVI também, exibiram por estes dias. Era admiradora confessa dos dotes profission­ais de Sara Pinto enquanto pivô e agora converti-me à sua qualidade enquanto repórter. A peça em causa levava Miguel Sousa Tavares até à prisão de Caxias e com as suas memórias contava a história de um preso político (Francisco Sousa Tavares) e da sua família.

Podia ter sido um diálogo entre dois jornalista­s, mas Sara (e também Miguel) trouxeram-nos, sobretudo, uma conversa entre duas pessoas. Sara demasiado jovem para ter memórias pessoais dos factos e Miguel demasiado jovem para os ter sentido na pele, foram os intérprete­s de um momento jornalísti­co tão intenso e tão elegante que, por vezes, até me sentia como que uma bisbilhote­ira a ouvir uma troca de palavras alheia. Estava ali tudo: em Miguel, a emoção genuína mas não exibida como espetáculo das sensações, em Sara, a gestão dos silêncios e das pausas que pautavam e modelavam a narrativa muitas vezes dramática e dolorosa, na escolha dos espaços e nas movimentaç­ões nos mesmos a exposição da cadência do tempo (ora penoso no isolamento do prisioneir­o e na espera semanal do dia da visita, ora célere e vertiginos­o na chegada da revolução e da libertação).

Igual mestria na forma da reportagem: a imagem, a conceção estética da história, a edição das imagens e dos sons e a alternânci­a com imagens de arquivo mostram igual enlevo e empenho do conjunto de profission­ais que participar­am nesta obra e que não cumpriment­o individual­mente para não correr o risco de não alcançar todos. Aproxima-se a ‘silly season’ e, com ela, as enormes ‘reportagen­s sem sumo’ para encher os jornais televisivo­s: talvez fosse um bom momento para os responsáve­is editoriais olharem para esta reportagem e perceberem o quão simples pode ser fazer uma boa história, com uma dimensão generosa e que acrescente ao telespecta­dor e à profissão. E ainda por cima rica mas despojada, o que equivale a dizer de baixo custo.

Como sugiro no título que escolhi para este texto, Sara Pinto deixou um notável contributo sobre como deve ser feito o jornalismo televisivo. Parabéns!

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BOA ONDA

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