Diario de Noticias

John Gallo. É português e ganhou prémio de fotografia

A Royal Photograph­ic Society e o jornal The Guardian distinguem o fotógrafo que se cansou de trabalhar para publicidad­e e saiu às ruas para ver como vivem as pessoas

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John Gallo é “nome de g uerra , s e qui se r”. O fotógrafo português de nome “indizível para os ingleses” ( não quis dizer qual) adotou- o quando se mudou para o Reino Unido, que agora lhe atribuiu a Joan Wakelin Bursary 2015. A bolsa criada em homenagem ao fotógrafo que lhe dá nome – que morreu em 2003 – é atribuída pela Royal Photograph­ic Society e pelo jornal The Guardian.

São duas mil libras ( quase três mil euros) destinadas a financiar uma produção fotográfic­a que, “em março ou abril de 2016”, será publicada no jornal britânico. Foi o próprio diretor de fotografia do britânico The Guardian, Roger Tooth, quem ligou a John Gallo, de 43 anos, a dar a notícia. E foi a Tooth que o português apresentou o projeto que será feito em Portugal a partir de setembro e foca “um assunto crítico e de que se tem falado muito”. É tudo o que pode dizer. Falamos, por isso, de tudo o resto.

Aos 12 anos descobriu a câmara do pai, uma Halina Paulette Electric. Nos anos 1990 começa a fotografar de forma quase profission­al. Abre depois um estúdio e começa a trabalhar para publicidad­e de marcas como BMW, Cheyenne ou Epson. Cansou- se da fotografia encenada e, durante “dois ou três anos”, manteve a câmara pousada. Partiu para o Reino Unido para fotografar, “apenas e só olhando por uma vertente sociodocum­ental”. Foi há cinco anos, altura em que John começava a trabalhar nos ensaios fotográfic­os em que se contam The Last of the Tile Makers, quando documentou os últimos tempos da fábrica britânica Key - mer Tiles, produtora de telhas feitas à mão, ou a série para que, durante quase sete dias, caminhou ao lado de 200 peregrinos até Fátima, vizinha da sua terra natal, Leiria, intitulada Pilgrims – Chapter One: Walking to Fatima.

Mais eficaz do que espreitá- lo por detrás da lente será, talvez, atentar à série West London Tales. Ali, no coração da capital inglesa, retrata o contraste entre o território que é centro de negócio e entretenim­ento e, simultanea­mente, casa de mendigos ou palco de artistas de rua. “Com todo o meu respeito pelos meus colegas que fazem fotografia de guerra e de cenários de catástrofe, eu não quero fazer isso.” Antes, quer olhar para a forma co - mo, “nos últimos anos, a vida nos países ocidentais se deteriorou de forma excessiva. Temos problemas que não tínhamos há 10 ou 15 anos e às vezes as outras coisas distraem- nos um bocadinho”. Fala da Europa, os seus “países muito ricos e muito pobres” e as suas “assimetria­s sociais, gente muito pobre e gente extremamen­te rica”. Vive, por isso, no cenário que quer fotografar. “A câmara leva- se sempre, uma pelo menos, em qualquer saída, nem que seja por cinco minutos, para ir ao supermerca­do. Nunca a usei numa circunstân­cia dessas, mas vai sempre”, conta John, agora em Portugal.

Trabalha atualmente num ensaio fotográfic­o a que chama Black Forest. Incêndios: diz estar a “tentar olhar para eles de uma forma um pouco diferente do que é a reportagem”. Por isso, fotografa o dia seguinte, quando o fogo está já extinto e a paisagem se cobre de negro. “50% dos incêndios na Europa acontecem em Portugal [ dados relativos ao ano de 2013]. São matas e florestas que não são conservada­s, limpas, terrenos rurais completame­nte abandonado­s que se tornaram autênticos fósforos.”

Fotografa impreteriv­elmente a preto e branco, em contraste com as muitas cores da fotografia comercial, relembra. “O preto e branco permite focar muito mais o assunto, ser muito mais objetivo. Ainda que omita uma série de coisas que na minha interpreta­ção são supérfluas, não precisam de lá estar.” O que precisa de lá estar é a gente no seu modo de viver e no que lhes acontece. E isso John Gallo não encena, espera que elas próprias, e naturalmen­te, o façam. Nessa altura: “Disparo até não poder mais.”

POR Mariana Pereira

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Uma das fotografia­s do ensaio Pilgrims – Chapter One: Walking to Fatima, que acompanha 200 peregrinos a caminho do Santuário de Fátima
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John Gallo é um fotógrafo que vive entre Portugal, onde nasceu, e o Reino Unido

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