Ví­tor Ne­to “2020 é o pi­or ano tu­rís­ti­co a ní­vel mun­di­al e na­ci­o­nal des­de 1950”

Diario de Noticias - DN + Dinheiro Vivo - - Entrevista - Tex­to: Ana La­ran­jei­ro

Na se­ma­na em que Por­tu­gal man­te­ve o cor­re­dor aé­reo pa­ra Lon­dres mas fi­cou na lis­ta ne­gra de Es­có­cia e País de Ga­les, o an­ti­go res­pon­sá­vel do Turismo la­men­ta “ges­tão po­lí­ti­ca” do te­ma.

ve­rão apro­xi­ma-se do fim e ao con­trá­rio dos úl­ti­mos anos o nú­me­ro de tu­ris­tas a vi­si­tar Por­tu­gal de­ve­rá cair bru­tal­men­te, com re­fle­xo nas em­pre­sas do se­tor, no em­pre­go e no PIB. O an­ti­go se­cre­tá­rio de Es­ta­do do Turismo, Ví­tor Ne­to, es­tá pre­o­cu­pa­do.

Co­mo é que de­fi­ne 2020 pa­ra o turismo?

É o pi­or ano a ní­vel mun­di­al e na­ci­o­nal des­de 1950, quan­do a Or­ga­ni­za­ção Mun­di­al de Turismo co­me­çou a pu­bli­car es­ta­tís­ti­ca.

Pa­ra o turismo em Por­tu­gal, qual é o prin­ci­pal pro­ble­ma?

Pa­ra pers­pe­ti­var­mos uma es­tra­té­gia de res­pos­ta à atu­al si­tu­a­ção te­mos de ter cons­ci­ên­cia da na­tu­re­za des­ta cri­se. A úl­ti­ma ti­nha uma cau­sa mui­to es­pe­cí­fi­ca, fi­nan­cei­ra, e não foi tão glo­bal. E a que­bra do turismo nes­se pe­río­do foi na or­dem dos 4%. Ago­ra se­rá 10 ve­zes mais; uma que­bra de 40 mi­lhões de tu­ris­tas a ní­vel mun­di­al. Es­ta cri­se tem uma na­tu­re­za di­fe­ren­te e pro­vo­cou uma res­pos­ta mui­to in­cer­ta. Is­to co­me­çou de uma for­ma em que hou­ve a ilu­são de que se po­de­ria pas­sar pa­ra o país do la­do; de­pois ti­ve­mos um pro­ble­ma mais pró­xi­mo: a UE que há pou­cas semanas fez um co­mu­ni­ca­do a acon­se­lhar os paí­ses-mem­bros a pôr-se de acor­do so­bre as me­di­das de qua­ren­te­na, pa­ra uma ques­tão des­tas não con­se­gue, não tem for­ça po­lí­ti­ca pa­ra cri­ar con­sen­so pa­ra me­di­das de res­pos­ta à pan­de­mia. E o Rei­no Uni­do ain­da to­mou uma po­si­ção an­ti-UE, au­tó­no­ma e con­tro­ver­sa.

O que di­fi­cul­ta tu­do.

Tu­do is­to di­fi­cul­ta a res­pos­ta. A cri­se te­ve con­sequên­ci­as em to­dos os se­to­res mas so­bre­tu­do no turismo: são 1500 mi­lhões de tu­ris­tas in­ter­na­ci­o­nais que de re­pen­te se vi­ram im­pe­di­dos de se mo­vi­men­tar. Além da cri­se que pro­vo­cou no trans­por­te aé­reo. Não há res­pos­tas in­di­vi­du­ais. Por­tu­gal tem uma boa po­si­ção no turismo in­ter­na­ci­o­nal, é o 17.o des­ti­no em ter­mos de re­ce­ção de es­tran­gei­ros. Por­tu­gal po­de fa­zer a me­lhor pro­mo­ção, po­de pu­bli­car em to­dos os si­tes que tem pré­mi­os, po­de dar os dados da pan­de­mia, po­de ten­tar di­ver­si­fi­car mer­ca­dos... Po­de­mos fa­zer is­so tu­do mas não con­se­gui­mos so­zi­nhos al­te­rar es­ta di­nâ­mi­ca ne­ga­ti­va. O turismo irá re­cu­pe­rar no seu con­jun­to, Por­tu­gal irá re­cu­pe­rar tam­bém, com uma ve­lo­ci­da­de que não po­de­mos ain­da de­ter­mi­nar por­que não sa­be­mos on­de ter­mi­na es­ta pan­de­mia. Te­mos de es­tar pron­tos pa­ra tu­do.

As em­pre­sas de turismo es­tão pre­pa­ra­das?

Não es­tão. Quan­do se fa­la de turismo fa­la-se mui­to de ho­téis e res­tau­ran­tes. Re­ce­be­mos 22 mi­lhões de tu­ris­tas es­tran­gei­ros, além dos na­ci­o­nais, mas não es­tão fe­cha­dos nos ho­téis. Con­so­mem nos ho­téis, mas tam­bém fo­ra, bens e ser­vi­ços que são for­ne­ci­dos pe­la eco­no­mia por­tu­gue­sa. O que é que acon­te­ceu es­te ano? Se­gun­do o INE, mais de 30% das uni­da­des de alo­ja­men­to não abri­ram, nem vão re­a­brir na épo­ca bai­xa. E par­te das que re­a­bri­ram, mes­mo no Al­gar­ve, não vão dar con­ti­nui­da­de na épo­ca bai­xa.

Vão fe­char de­pois do ve­rão?

Te­mos vá­ri­os ní­veis de em­pre­sas. A pro­ble­má­ti­ca dos gru­pos mais im­por­tan­tes é com­ple­xa por­que ti­nham in­ves­ti­men­tos pre­pa­ra­dos. Ao ní­vel das mé­di­as em­pre­sas, o nú­me­ro é mui­to pe­que­no, mas têm pro­ble­mas co­mo qual­quer em­pre­sa de qual­quer se­tor. E as mi­cro­em­pre­sas tam­bém. É im­por­tan­te que o go­ver­no crie me­ca­nis­mos de apoio ten­do em con­ta es­tes di­fe­ren­tes ní­veis e não me­di­das ge­né­ri­cas pa­ra ser­vir uma mi­cro­em­pre­sa e uma mé­dia.

As li­nhas de cré­di­to do Turismo de Por­tu­gal não ser­vem uma par­te des­sas ne­ces­si­da­des?

Es­sas li­nhas de cré­di­to que fo­ram cri­a­das pa­ra as mi­cro­em­pre­sas fo­ram im­por­tan­tes e têm de ser con­ti­nu­a­das. De­pois, nas mé­di­as em­pre­sas, há pro­ble­má­ti­cas di­fe­ren­tes por­que têm mai­o­res res­pon­sa­bi­li­da­des. Têm vi­a­bi­li­da­de mas têm res­pon­sa­bi­li­da­des fi­nan­cei­ras e aí tem de ha­ver um apoio que lhes per­mi­ta ter con­ti­nui­da­de. De­pois, há um con­jun­to de em­pre­sas, em to­dos os se­to­res, que já es­ta­vam do­en­tes e que têm di­fi­cul­da­de em man­ter-se.

Com o ve­rão no fim o que é que acon­te­ce aos tra­ba­lha­do­res?

Es­te é um se­tor que cres­ceu mui­to nos úl­ti­mos anos e que tem di­fe­ren­tes ní­veis de em­pre­go. Há pre­o­cu­pa­ções de di­fe­ren­tes ní­veis. Quan­do es­ti­ve no go­ver­no, há mui­tos anos, cri­ei um pro­gra­ma que se chaO

Mas um for­te cres­ci­men­to com­pa­ra­do com o quê?

Com o pe­río­do em ca­deia.

Há uma coi­sa que es­que­ce­mos. Há uma ges­tão po­lí­ti­ca por par­te do go­ver­no do Rei­no Uni­do, um dos paí­ses da Eu­ro­pa que tem o saldo ne­ga­ti­vo na sua ba­lan­ça de turismo. Os bri­tâ­ni­cos gas­tam mais no es­tran­gei­ro do que os tu­ris­tas es­tran­gei­ros no Rei­no Uni­do; a di­fe­ren­ça é des­fa­vo­rá­vel às con­tas do Rei­no Uni­do. O va­lor é de 20 mil mi­lhões de eu­ros. O Rei­no Uni­do sa­be que era bom que es­tes 20 mil mi­lhões não exis­tis­sem – e is­so só acon­te­ce se os ci­da­dãos não saí­rem. Mui­ta da ação do go­ver­no bri­tâ­ni­co tem is­to em con­ta. A Ale­ma­nha tam­bém um saldo ne­ga­ti­vo: são 45 mil mi­lhões. Não há aqui ino­cên­cia. Lon­dres, ao obri­gar a qua­ren­te­na [quan­do se che­ga de] al­guns paí­ses, tem de co­lo­car ou­tros pa­ra se mos­trar isen­to.

As re­ser­vas de ale­mães pa­ra o Al­gar­ve cres­ce­ram, gra­ças a uma cam­pa­nha da Re­gião de Turismo. De­ve ser uma apos­ta?

te­mos de es­tar mui­to aten­tos por­que a ten­ta­ção de ir atrás do pre­ço é gran­de mas é pe­ri­go­sís­si­ma.

Não po­de­mos con­cor­rer com base no pre­ço mas na qua­li­da­de.

E na di­fe­ren­ça. Es­pa­nha tem mais de 80 mi­lhões de tu­ris­tas, nós mais de 20 mi­lhões. Co­mo é que se con­cor­re? Te­mos sem­pre de pen­sar na di­men­são.

Mas a Gré­cia tem uma par­te do ter­ri­tó­rio es­pa­lha­do...

A Gré­cia é mais pa­re­ci­da con­nos­co. Até te­mos dados si­mi­la­res em ter­mos de re­cei­tas e nú­me­ro de tu­ris­tas. Mas to­das es­tas di­fe­ren­ças exis­tem e pen­so que o me­lhor é apos­tar­mos na qua­li­da­de da ofer­ta, na di­ver­si­da­de, na atu­a­li­za­ção em re­la­ção à pro­cu­ra e em re­la­ção ao que a pro­cu­ra quer.

Co­mo vê a si­tu­a­ção da TAP?

É ex­tre­ma­men­te com­ple­xa e pre­o­cu­pan­te. O trans­por­te aé­reo é um se­tor ex­tre­ma­men­te com­ple­xo. A cul­tu­ra de trans­por­te aé­reo in­ter­na­ci­o­nal não é fá­cil. As ou­tras gran­des com­pa­nhi­as eu­ro­pei­as es­tão em cri­se, mas a TAP é um pro­ble­ma mui­to de­li­ca­do e es­pe­ro que com bom sen­so e in­te­li­gên­cia se con­si­ga ul­tra­pas­sar es­tas di­fi­cul­da­des. O país pre­ci­sa da TAP.

A TAP vai con­se­guir re­to­mar po­si­ção nos ae­ro­por­tos na­ci­o­nais?

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.