Fin­lân­dia aca­ba com isen­ção de IRS a reformados em Portugal

Acor­do fis­cal as­si­na­do há 48 anos vai mes­mo ser rasgado. Lisboa não res­pon­deu à cha­ma­da de Hel­sín­quia

Edição Público Lisboa - - FRONT PAGE - Im­pos­tos Pe­dro Cri­sós­to­mo

Hel­sín­quia aguar­dou por um si­nal de Lisboa até 1 de De­zem­bro, mas ele não che­gou e o des­fe­cho que se an­te­ci­pa­va tor­nou-se ir­re­ver­sí­vel — a Fin­lân­dia vai mes­mo ras­gar uni­la­te­ral­men­te o acor­do fis­cal que as­si­nou com Portugal há 48 anos, dei­xan­do de apli­car es­sa con­ven­ção já a par­tir de 1 de Ja­nei­ro.

Em­bo­ra os dois paí­ses já te­nham as­si­na­do um no­vo texto em 2016, Portugal con­ti­nua ao fim de dois anos sem ra­ti­fi­car o no­vo do­cu­men­to e, co­mo a Fin­lân­dia de­ci­diu dei­xar cair o acor­do em vi­gor, ha­ve­rá um va­zio nas re­gras cri­a­das en­tre os dois paí­ses pa­ra me­di­ar as si­tu­a­ções em que a tri­bu­ta­ção de ca­da um co­li­de.

São du­as as con­sequên­ci­as ime­di­a­tas. Já a par­tir de Ja­nei­ro, o fisco fin­lan­dês vai co­me­çar a tri­bu­tar, atra­vés das re­ten­ções na fon­te de IRS, os cer­ca de 500 pen­si­o­nis­tas fin­lan­de­ses que vi­vem em Portugal e que, ao abri­go do re­gi­me dos re­si­den­tes nãoha­bi­tu­ais, es­tão ho­je isen­tos de IRS cá e lá. Mas tam­bém em­pre­sas ou contribuintes sin­gu­la­res com ac­ti­vi­da­de nos dois paí­ses cor­rem o ris­co de ser tri­bu­ta­dos du­as vezes.

É uma de­ci­são sem pre­ce­den­tes que o Go­ver­no de António Cos­ta não con­se­guiu (ou não quis) evi­tar, ao man­ter a no­va con­ven­ção na ga­ve­ta. Es­se é um de­ta­lhe di­plo­má­ti­co que con­ti­nua por cla­ri­fi­car, mes­mo de­pois de o pri­mei­ro-mi­nis­tro fin­lan­dês, Juha Si­pilä, ter es­ta­do em Lisboa ao la­do de António Cos­ta em Ou­tu­bro, e mes­mo sa­ben­do-se que o Go­ver­no es­tá a ser pres­si­o­na­do pa­ra me­xer em mais acor­dos fis­cais (com a Sué­cia) e até já ad­mi­tiu re­ver al­gu­mas re­gras do re­gi­me dos re­si­den­tes não-ha­bi­tu­ais.

Um pon­to é cer­to: o fim da con­ven­ção é um pas­so iné­di­to da­do pe­la Fin­lân­dia, por­que o Es­ta­do por­tu­guês é o pri­mei­ro com quem Hel­sín­quia rompe uma con­ven­ção fis­cal, ga­ran­tiu uma fon­te do Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças fin­lan­dês. Em Lisboa, o ga­bi­ne­te do mi­nis­tro dos Ne­gó­ci­os Es­tran­gei­ros, Au­gus­to Santos Silva, não res­pon­deu às perguntas do PÚ­BLI­CO so­bre o des­fe­cho que se avi­zi­nha.

O dos­si­er tem dois anos e a for­ma co­mo ca­da país li­dou com ele é dis­tin­ta.

Um mês dois anos

Foi a Fin­lân­dia, ali­nha­da com a Sué­cia, que pu­xou Portugal pa­ra a me­sa das ne­go­ci­a­ções. Na ori­gem do des­con­ten­ta­men­to do Go­ver­no de co­li­ga­ção de Juha Si­pilä (cen­tro-direita) es­tá o fac­to de os pen­si­o­nis­tas fin­lan­de­ses a vi­ver em Portugal con­se­gui­rem não pa­gar qual­quer IRS nos dois paí­ses (por cau­sa das re­gras dos re­si­den­tes não-ha­bi­tu­ais e da com­pa­ti­bi­li­za­ção des­tas com a con­ven­ção ac­tu­al).

Foi pa­ra pôr co­bro à du­pla isen­ção que os dois paí­ses aca­ba­ram por ce­le­brar um no­vo acor­do fis­cal em Bru­xe­las a 7 de No­vem­bro de 2016, pa­ra subs­ti­tuir a con­ven­ção ce­le­bra­da em 1970 e em vi­gor des­de 1971. Mas se Hel­sín­quia ra­ti­fi­cou o texto lo­go em De­zem­bro de 2016, o exe­cu­ti­vo de António Cos­ta tar­da em fa­zê-lo. O im­pas­se foi vis­to a Nor­te co­mo um atra­so sem ex­pli­ca­ção e, es­te ano, o exe­cu­ti­vo de Si­pilä de­ci­diu fa­zer apro­var no Par­la­men­to o fim da ac­tu­al con­ven­ção (a que es­tá em vi­gor, não a que foi ne­go­ci­a­da em 2016).

Du­ran­te al­gum tem­po ain­da es­pe­rou que Lisboa avan­ças­se com o pro­ces­so de ra­ti­fi­ca­ção e fez sa­ber ao PÚ­BLI­CO que o fim da con­ven­ção ain­da po­de­ria ser evi­ta­do se Lisboa agis­se até 1 de De­zem­bro des­te ano. Mas na­da te­rá acon­te­ci­do do la­do por­tu­guês e, pe­ran­te a pas­si­vi­da­de, Hel­sín­quia ga­ran­te ago­ra que vai mes­mo se­guir em fren­te e dei­xar de apli­car aque­las re­gras. O no­vo acor­do não es­tá em ris­co, mas até lá não há um do­cu­men­to co­mum.

Pa­ra os pen­si­o­nis­tas fin­lan­de­ses, o re­sul­ta­do prá­ti­co é se­me­lhan­te ao que acon­te­ce­ria com a no­va con­ven­ção — por­que tam­bém aí a Fin­lân­dia ga­nha mar­gem pa­ra apli­car IRS a es­ses cidadãos —, mas o si­nal po­lí­ti­co e di­plo­má­ti­co de dei­xar cair uma con­ven­ção é sin­gu­lar. E du­ran­te o pe­río­do do va­zio, as con­sequên­ci­as ex­tra­va­sam a ques­tão dos pen­si­o­nis­tas, abrin­do a por­ta a ca­sos de du­plas tri­bu­ta­ções, pre­ci­sa­men­te as fric­ções a que as con­ven­ções pre­ten­dem pôr co­bro.

O ga­bi­ne­te de imprensa do Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças da Fin­lân­dia con­fir­mou ao PÚ­BLI­CO na úl­ti­ma ter­ça-fei­ra que o Go­ver­no “não re­ce­beu in­for­ma­ção so­bre a ra­ti­fi­ca­ção do no­vo acor­do as­si­na­do em 2016” e que “não se­rá mais apli­ca­do a par­tir do fi­nal des­te ano”.

Em Ja­nei­ro, o fisco fin­lan­dês vai co­me­çar a tri­bu­tar, via re­ten­ções na fon­te de IRS, cer­ca de 500 pen­si­o­nis­tas

Fin­lân­dia e Angola

Se no fi­nal de Agos­to o Mi­nis­té­rio dos Ne­gó­ci­os Es­tran­gei­ros ga­ran­tia que o pro­ces­so es­ta­va “em cur­so”, não se sa­be — por­que o Go­ver­no não diz — qual é o horizonte em que prevê fe­char o dos­si­er, is­to é, en­vi­ar uma re­so­lu­ção ao Par­la­men­to pa­ra o texto ser apro­va­do e po­der en­trar em vi­gor. A de­ci­são con­tras­ta com a pri­o­ri­da­de da­da a ou­tra con­ven­ção fis­cal há mui­to es­pe­ra­da, a ce­le­bra­da com Angola. Nes­se ca­so, o texto foi as­si­na­do a 18 de Se­tem­bro des­te ano e em ape­nas dois me­ses apro­va­da em Con­se­lho de Mi­nis­tros.

Na­da dis­so acon­te­ceu em re­la­ção à Fin­lân­dia. Em Lisboa, on­de Cos­ta re­ce­beu Juha Si­pilä a 2 de Ou­tu­bro com pro­mes­sas de par­ce­ria eco­nó­mi­ca, não se ou­viu uma pa­la­vra de des­con­ten­ta­men­to. Do la­do fin­lan­dês, o “ir­ri­tan­te” era co­nhe­ci­do. Mas o pró­prio pri­mei­ro-mi­nis­tro fin­lan­dês as­su­miu em en­tre­vis­ta ao PÚ­BLI­CO “não es­tar pre­o­cu­pa­do.”

Uma fon­te do Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças fin­lan­dês ga­ran­te que o pri­mei­ro ob­jec­ti­vo nun­ca foi che­gar a uma si­tu­a­ção de va­zio — is­to é, não es­tar de pé qual­quer ins­tru­men­to, co­mo vai acon­te­cer a 1 de Ja­nei­ro — e con­ti­nua a “en­co­ra­jar” Portugal pa­ra que o no­vo do­cu­men­to seja “apli­ca­do tão rá­pi­do quan­to pos­sí­vel”. pe­dro.cri­sos­to­[email protected]­bli­co.pt

MIGUEL MAN­SO

Pri­mei­ro-mi­nis­tro Juha Si­pilä es­te­ve em Lisboa em Ou­tu­bro

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