Ale­ma­nha dá o ti­ro de par­ti­da pa­ra um fu­tu­ro sem Mer­kel

CDU ele­ge ho­je o su­ces­sor da chan­ce­ler à fren­te do par­ti­do. Se­rá a vi­ra­gem mui­to à direita ou só um pou­co?

Edição Público Lisboa - - FRONT PAGE - Ale­ma­nha Ma­ria João Guimarães mgui­ma­ra­[email protected]­bli­co.pt

Qu­an­do os de­le­ga­dos do par­ti­do ale­mão União De­mo­cra­ta-Cris­tã (CDU) se reu­ni­rem ho­je pa­ra vo­tar no con­gres­so em Ham­bur­go, a de­ci­são so­bre o no­vo lí­der es­tá en­tre A.K.K., a mu­lher cu­ja as­cen­são ao po­der se­ria qua­se tão ines­pe­ra­da co­mo a da pró­pria An­ge­la Mer­kel, Fri­e­dri­ch Merz, um ho­mem cu­jo regresso é vis­to co­mo a su­pre­ma vin­gan­ça so­bre a mu­lher que o afas­tou (Mer­kel), e Jens Spahn, que foi, e pa­re­ce já não ser, a pro­mes­sa de re­no­va­ção da ala con­ser­va­do­ra do par­ti­do.

A CDU lan­çou-se num pro­ces­so de es­co­lha do su­ces­sor de An­ge­la Mer­kel com uma sé­rie de con­fe­rên­ci­as re­gi­o­nais pa­ra per­mi­tir o con­tac­to com os can­di­da­tos, on­de lhes fos­sem fei­tas perguntas, de for­ma a se­rem vis­tos e ou­vi­dos ao vi­vo.

Vá­ri­os me­dia ale­mães co­men­ta­vam que, se a vi­tó­ria fos­se me­di­da em aplau­sos, o vencedor se­ria Fri­e­dri­ch Merz, de 62 anos. Era lí­der da ban­ca­da par­la­men­tar da CDU, mas em 2002 foi afas­ta­do nu­ma dis­pu­ta pe­lo car­go com Mer­kel, que pas­sou a che­fi­ar o gru­po par­la­men­tar. Merz aca­bou por se afastar e há 16 anos que não tem qual­quer car­go po­lí­ti­co, mas sim uma car­rei­ra de su­ces­so co­mo jurista de or­ga­ni­za­ções de ges­tão fi­nan­cei­ra co­mo a Blackrock.

Merz tam­bém con­ven­ce os que te­mem que ele te­nha ra­zão qu­an­do prevê que os di­as de ou­ro da eco­no­mia ale­mã podem es­tar per­to do fim e que é pre­ci­so sa­ber re­a­gir qu­an­do a eco­no­mia pi­o­rar.

Mas hou­ve der­ra­pa­gens nes­te regresso: uma afir­ma­ção ques­ti­o­nan­do o di­rei­to de asi­lo con­sa­gra­do na Cons­ti­tui­ção ale­mã, foi de­pois tem­pe­ra­da, quei­xan­do-se Merz de ter si­do “mal in­ter­pre­ta­do”. “Te­rá querido pis­car o olho à direita e re­cu­ou pe­ran­te as re­ac­ções ne­ga­ti­vas? Ou se­rá mes­mo a sua opi­nião?”, per­gun­ta­va a re­vis­ta ale­mã Der Spi­e­gel.

Tam­bém uma proposta pa­ra a isen­ção de im­pos­tos de al­guns ca­sos de lu­cros com ac­ções co­mo uma das me­di­das pa­ra com­ba­ter a po­bre­za na ter­cei­ra ida­de foi vis­ta com sus­pei­ção, já que Merz tra­ba­lha pa­ra um fun­do fi­nan­cei­ro na Ale­ma­nha.

Fri­e­dri­ch Merz foi a en­tra­da-surpresa na cor­ri­da à li­de­ran­ça da CDU. A mais-do-que-pro­vá­vel can­di­da­ta, já se sa­bia, era An­ne­gret Kramp-Kar­ren­bau­er (o seu no­me cau­sa di­fi­cul­da­des até aos me­dia ale­mães, que a tra­tam por A.K.K.).

As com­pa­ra­ções de A.K.K.

An­ne­gret Kramp-Kar­ren­bau­er foi proposta por Mer­kel pa­ra se­cre­tá­ri­a­ge­ral do par­ti­do, no que foi vis­to co­mo o pri­mei­ro pas­so pa­ra dis­pu­tar a li­de­ran­ça, e elei­ta com en­tu­si­as­mo.

As du­as par­ti­lham o es­ti­lo só­brio e o prag­ma­tis­mo. Se A.K.K. for elei­ta lí­der da CDU, e de­pois chan­ce­ler, te­rá uma as­cen­são se­me­lhan­te à da ac­tu­al lí­der: Mer­kel era uma mu­lher, da antiga Re­pú­bli­ca De­mo­crá­ti­ca Ale­mã, sub­va­lo­ri­za­da pe­los de­ten­to­res do po­der; A.K.K. é uma mu­lher ca­tó­li­ca, de um es­ta­do mui­to pe­que­no, o Sar­re (o se­gun­do menor dos 16 es­ta­dos fe­de­ra­dos ale­mães), que só há pou­co se mu­dou pa­ra Ber­lim, me­no­ri­za­da pe­los que es­tão nos cen­tros de po­der. A com­pa­ra­ção dos per­cur­sos das du­as mu­lhe­res le­va­ram al­guns a cha­mar-lhe “mi­ni-Mer­kel”.

Em­bo­ra em ter­mos de po­lí­ti­cas eco­nó­mi­cas seja pró­xi­ma do cen­tris­mo de Mer­kel, em ter­mos so­ci­ais é mais con­ser­va­do­ra, pro­me­ten­do que, se for es­co­lhi­da, con­ti­nu­a­rá a opor-se à al­te­ra­ção do ar­ti­go 219a, que proí­be que mé­di­cos fa­çam pu­bli­ci­da­de ao abor­to, que não é li­be­ra­li­za­do.

A.K.K. as­su­me ain­da uma li­nha du­ra na lei e or­dem, al­go ca­ro aos elei­to­res da CDU (com re­fle­xos na po­lí­ti­ca de imi­gra­ção e asi­lo).

Nas su­as in­ter­ven­ções, foi no­ta­da pe­lo à-von­ta­de com po­lí­ti­cas, su­ges­tões, de­ta­lhes, gra­ças à sua experiência go­ver­na­ti­va, cam­po em que gaSe nha aos seus con­cor­ren­tes: Merz foi lí­der da ban­ca­da par­la­men­tar da CDU mas nun­ca par­ti­ci­pou num go­ver­no, Jens Spahn foi “vi­ce” no Mi­nis­té­rio das Fi­nan­ças de Schäuble mas só des­de Mar­ço é mi­nis­tro da Saúde.

o fo­co for em quem possa mais fa­cil­men­te ga­nhar eleições, A.K.K. po­de ter van­ta­gem, já que é a úni­ca com pro­vas da­das em con­di­ções ad­ver­sas. Saiu vi­to­ri­o­sa de uma eleição que to­dos jul­ga­vam per­di­da pa­ra a CDU no Sar­re, no iní­cio de 2017, com o SPD a su­bir na sequên­cia do for­te “efei­to Schulz”, qu­an­do o par­ti­do in­di­cou o ex-pre­si­den­te do Par­la­men­to Eu­ro­peu pa­ra can­di­da­to a chan­ce­ler. A vi­tó­ria de A.K.K. foi vis­ta co­mo im­por­tan­te pa­ra tra­var es­ta su­bi­da de Mar­tin Schulz, que se re­ve­lou de cur­ta du­ra­ção.

A ligação a Mer­kel é vis­ta co­mo uma das prin­ci­pais van­ta­gens de A.K.K. e uma das su­as mai­o­res fra­que­zas. Os elei­to­res da CDU qu­e­rem mu­dan­ça, mas não de­ma­si­a­da. A es­ta­bi­li­da­de é a pa­la­vra na bo­ca de to­dos.

Se A.K.K. tem o apoio tá­ci­to da chan­ce­ler (tal­vez por se­rem co­nhe­ci­dos os efei­tos ad­ver­sos de lí­de­res ten­ta­rem im­por su­ces­so­res), Merz tem o apoio da fi­gu­ra que foi dis­pu­tan­do com Mer­kel o lu­gar de po­lí­ti­co mais po­pu­lar do país: Wolf­gang Schäuble.

Os elei­to­res da CDU qu­e­rem mu­dan­ça, mas não de­ma­si­a­da. A es­ta­bi­li­da­de é a pa­la­vra na bo­ca de to­dos

O regresso de Merz

A Der Spi­e­gel de­ta­lhou co­mo am­bos fo­ram dis­cu­tin­do o regresso de Merz, e co­mo em par­te das con­ver­sas es­ta­va a pos­si­bi­li­da­de de Schäuble ocu­par o lu­gar de Mer­kel, ca­so es­ta dei­xas­se a chan­ce­la­ria e hou­ves­se um no­vo go­ver­no sem eleições an­te­ci­pa­das. Schäuble, que co­mo del­fim de Hel­mut Kohl ti­nha as­pi­ra­ções a ser chan­ce­ler, foi um dos ho­mens que Mer­kel fez cair pa­ra che­gar ao po­der, na sequên­cia de um es­cân­da­lo de fi­nan­ci­a­men­to do par­ti­do.

No en­tan­to, vá­ri­os ana­lis­tas afas­tam es­te ce­ná­rio de um no­vo go­ver­no sem eleições. Um dos po­lí­ti­cos en­vol­vi­dos na po­ten­ci­al no­va co­li­ga­ção, Ch­ris­ti­an Lin­der, do Par­ti­do Li­be­ral De­mo­cra­ta, já dis­se que não en­tra em dis­cus­sões sem uma no­va vo­ta­ção (mes­mo ar­ris­can­do-se a per­der o lu­gar pri­vi­le­gi­a­do: com o ac­tu­al Par­la­men­to ape­nas ha­ve­ria uma co­li­ga­ção “Ja­mai­ca”, jun­tan­do a CDU, os Ver­des e os Li­be­rais, ain­da que a re­cen­te su­bi­da dos Ver­des possa ser su­fi­ci­en­te pa­ra con­se­gui­rem for­mar go­ver­no so­zi­nhos com a CDU em eleições an­te­ci­pa­das).

Merz dis­pa­rou con­tra o cen­tris­mo: “Não te­mos de ul­tra­pas­sar o SPD em to­dos os pon­tos.” Merz é o an­tiMer­kel e não só pe­la sua de­fe­sa de po­lí­ti­cas mais à direita: o fac­to de ser mi­li­o­ná­rio e ter dois aviões mar­ca o con­tras­te com uma chan­ce­ler cu­ja fru­ga­li­da­de é uma ima­gem de mar­ca — rou­pa re­pe­ti­da e na­da lu­xu­o­sa, fé­ri­as mo­des­tas em prai­as ita­li­a­nas ou ca­mi­nha­das nas mon­ta­nhas, um car­ro que é um an­ti­go VW.

Já Jens Spahn pa­re­ce ter pas­sa­do da gran­de es­pe­ran­ça de mui­tos mem­bros mais con­ser­va­do­res da CDU pa­ra o lu­gar do me­nos fa­vo­ri­to.

Spahn, ho­mos­se­xu­al ca­sa­do, ga­nhou no­to­ri­e­da­de por não fu­gir de pro­vo­ca­ções eéac ara­de uma mu­dan­ça de ge­ra­ção que mui­tos qu­e­rem. No en­tan­to, apo­si­ção for­tes obre apo­lí­tic ade Mer­kel quan­to aos re­fu­gi­a­dos obrigou-o a re­pe­tir mui­tas vezes que não era ra­cis­ta, e viu o seu cam­po re­du­zi­do à direita com Merz a en­trar tam­bém nes­te cam­po.

FABIAN BIMMER/REUTERS

An­ne­gret Kramp-Kar­ren­bau­er la­de­a­da por Fri­e­dri­ch Merz (à es­quer­da) e Jens Spahn

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