En­tre­vis­ta

Tri­go Pe­rei­ra aban­do­na ban­ca­da do PS em rup­tu­ra com Cé­sar

Edição Público Lisboa - - FRONT PAGE - En­tre­vis­ta Ma­ria Lopes ma­[email protected]­bli­co.pt

Fez par­te da equi­pa que pre­pa­rou o programa eco­nó­mi­co com que An­tó­nio Cos­ta se apre­sen­tou às elei­ções de 2015, in­te­grou as lis­tas do PS co­mo in­de­pen­den­te e ago­ra ba­te com a por­ta. Ad­mi­te que as crí­ti­cas ao Go­ver­no te­rão le­va­do Car­los Cé­sar a não o dei­xar fa­lar no Programa de Es­ta­bi­li­da­de, nas Fi­nan­ças Lo­cais e Or­ça­men­to. Cri­ti­ca-o por não es­ti­mu­lar o tra­ba­lho dos de­pu­ta­dos e quer que a sua saí­da se­ja um “avi­so” ao PS. Tem vá­ri­os te­mas-ban­dei­ra que o PS não lhe per­mi­te içar. O que es­te­ve na ba­se da de­ci­são de sair da ban­ca­da do PS? Foi tor­nar mais ajus­ta­da a re­a­li­da­de ao meu es­ta­tu­to for­mal. O que quer di­zer? Já não tinha es­ta­tu­to de de­pu­ta­do do PS? Is­so tem que ser ex­pli­ca­do com o en­qua­dra­men­to da mi­nha ac­ti­vi­da­de par­la­men­tar. Sou mem­bro efec­ti­vo de ape­nas de uma co­mis­são, a do Or­ça­men­to e Fi­nan­ças, e de­pois mem­bro da co­mis­são pa­ra a Trans­pa­rên­cia e su­plen­te dos As­sun­tos Eu­ro­peus. Com a ex­cep­ção do Or­ça­men­to do Es­ta­do e mes­mo aí com mui­tas li­mi­ta­ções, o gru­po dos de­pu­ta­dos COFMA não fun­ci­o­na há bas­tan­te tem­po.

Não fun­ci­o­na porquê?

A AR fun­ci­o­na de for­ma des­cen­tra­li­za­da em co­mis­sões e os par­ti­dos tam­bém. Um bom exem­plo de fun­ci­o­na­men­to no PS é a co­mis­são de Edu­ca­ção, pre­si­di­da pe­lo Ale­xan­dre Quin­ta­ni­lha e o co­or­de­na­dor da área é Por­fí­rio Silva. Fun­ci­o­nam re­al­men­te bem em ban­ca­da, há ali uma co­e­são e uma re­fle­xão que sur­ge de um de­ba­te. Há co­mis­sões que fun­ci­o­nam bem. Acon­te­ce que, lo­go por azar, fui pa­rar a uma co­mis­são em que no iní­cio es­ta­va Eu­ri­co Bri­lhan­te Di­as, João Ga­lam­ba, João Pau­lo Correia, e ain­da fun­ci­o­na­va. Daí pa­ra cá, dei­xou de exis­tir.

É es­se o úni­co pro­ble­ma?

É uma di­men­são do pro­ble­ma. Quem de­ci­de so­bre as in­ter­ven­ções é a di­rec­ção da ban­ca­da. Pa­re­ce-me es­tra­nho que um vi­ce-pre­si­den­te da COFMA no Or­ça­men­to e no Programa de Es­ta­bi­li­da­de não in­ter­ve­nha em ple­ná­rio. Acon­te­ceu em 2018.

Foi pos­to de la­do?

Além de ser vi­ce-pre­si­den­te, aque­la é a mi­nha for­ma­ção — fi­nan­ças pú­bli­cas. A úni­ca ex­pli­ca­ção pu­ra­men­te es­pe­cu­la­ti­va é que sou um de­pu­ta­do de­sa­li­nha­do. Acho que é um si­nal de fra­que­za do gru­po par­la­men­tar. Eu sei mui­to bem o que é im­por­tan­te di­zer do pon­to de vis­ta do apoio ao Go­ver­no, mas tam­bém sei que é in­te­res­san­te e útil ha­ver aqui e aco­lá uma no­ta li­gei­ra­men­te crí­ti­ca pa­ra aju­dar o Go­ver­no a ori­en­tar­se.

Por exem­plo?

O país to­do de­via es­tar a dis­cu­tir um te­ma de que nin­guém tem fa­la­do: os ob­jec­ti­vos pa­ra o sal­do or­ça­men­tal no cur­to e mé­dio pra­zo. Al­go que já es­tá a ser dis­cu­ti­do na União Eu­ro­peia. A Co­mis­são Eu­ro­peia de­fi­niu pa­ra Por­tu­gal o ob­jec­ti­vo de ex­ce­den­te que é re­vis­to a ca­da três anos e vai ser re­vis­to no iní­cio de 2019. Es­ta­mos a fa­lar em ter mais ou me­nos 1500 mi­lhões de eu­ros por ano pa­ra po­lí­ti­cas pú­bli­cas. Eu per­ce­bo que Má­rio Cen­te­no não quei­ra pôr is­so em ci­ma da me­sa, mas se­rá que nós, de­pu­ta­dos, não de­ve­mos sus­ci­tar es­ta ques­tão? A mi­nha opi­nião é sim.

Se­ria a sua in­ter­ven­ção so­bre o Programa de Es­ta­bi­li­da­de?

Exac­ta­men­te. Is­to é um exem­plo de co­mo eu po­de­ria ter si­do útil, ao gru­po se o PS qui­ses­se. Mas a di­rec­ção acha que não é re­le­van­te eu in­ter­vir em ple­ná­rio; em se­de de OE re­jei­ta pro­pos­tas mi­nhas sem jus­ti­fi­ca­ção e es­tou in­te­gra­do num gru­po que não fun­ci­o­na. Ser de­pu­ta­do não-ins­cri­to, no fun­do, é, pa­ra­do­xal­men­te, ins­cre­ver a re­a­li­da­de par­ci­al.

Não in­ter­vir no OE foi a go­ta de água?

Há dois me­ses que aguar­da­va pa­ra fa­lar com Car­los Cé­sar Se an­do há 30 anos a en­si­nar de­ter­mi­na­das coi­sas, não pos­so che­gar e vo­tar a fa­vor de uma coi­sa em que sou con­tra

Não é uma ques­tão de in­ter­vir, é a mi­nha in­ter­ven­ção ser ou não considerada re­le­van­te e uma ques­tão de res­pei­to. Hou­ve uma fa­se bas­tan­te complicada an­tes, na dis­cus­são so­bre a des­cen­tra­li­za­ção, em par­ti­cu­lar so­bre a Lei das Fi­nan­ças Lo­cais Fiz qua­se di­rec­ta pa­ra fa­zer o re­la­tó­rio mas não pro­du­ziu efei­tos re­le­van­tes. Es­se foi o pri­mei­ro mo­men­to em que pen­sei: ‘Afi­nal qual é o nos­so pa­pel de de­pu­ta­dos nas gran­des re­for­mas do país?’. A AR de­via ter um pa­pel mui­to mais pre­pon­de­ran­te, mas is­so exi­gia que os GP fun­ci­o­nas­sem bem.

Cé­sar ou­ve os de­pu­ta­dos?

Eu não pos­so fa­lar pe­los ou­tros. Há dois me­ses que aguar­da­va pa­ra fa­lar com Car­los Cé­sar. Ti­ve­mos uma con­ver­sa há dois me­ses so­bre o des­con­ten­ta­men­to e daí pa­ra cá ten­tei fa­lar e só con­se­gui on­tem, pa­ra ex­pli­car a de­ci­são.

Ele com­pre­en­deu as ra­zões?

Não fa­lo so­bre con­ver­sas pri­va­das. Ou­viu aten­ta­men­te e ten­tou con­ven­cer-me a não sair, mas...

Veio tar­de?

Foi tar­de, efec­ti­va­men­te. Não re­ceia que a saí­da pos­sa fra­gi­li­zar o PS em votações? Não. Vou cum­prir es­cru­pu­lo­sa­men­te o compromisso éti­co que as­si­nei qu­an­do me can­di­da­tei: a dis­ci­pli­na de vo­to em ques­tões co­mo o OE, mo­ções de cen­su­ra e con­fi­an­ça, ques­tões pro­gra­má­ti­cas do Go­ver­no. De­se­jo man­ter bom re­la­ci­o­na­men­to com o PS. Te­nho uma óp­ti­ma re­la­ção com to­dos os de­pu­ta­dos, mes­mo com o Car­los Cé­sar. É di­fí­cil fa­lar com ele, mas te­nho re­la­ção mui­to cor­da­ta. Tu­do de­pen­de da for­ma co­mo nos ar­ti­cu­lar­mos.

Porquê ago­ra?

Ape­sar do des­con­for­to que ma­ni­fes­tei, eu sou um cla­ro apoi­an­te des­te Go­ver­no. Sa­bia que es­te se­ria um OE di­fí­cil, pon­de­rei a saí­da an­tes, mas ape­sar de não ter fa­la­do, tra­ba­lhei mais pa­ra es­te OE do que pa­ra ou­tro. De­ci­di que o iria apro­var no GP do PS. Ago­ra não há con­di­ções pa­ra con­ti­nu­ar. Não era mais fá­cil sair da AR, tem uma car­rei­ra aca­dé­mi­ca... Vi­o­la­ria o meu compromisso éti­co, que diz que nós cum­pri­mos o man­da­to até ao fim — eu pre­zo mui­to a éti­ca. Ade­rir ao GP foi fei­to na pri­mei­ra reu­nião por mim e pe­la He­le­na Ro­se­ta, foi uma op­ção, por­que so­mos in­de­pen­den­tes. O que es­tou a fa­zer é re­ver­ter es­sa de­ci­são e di­zer ‘meus ami­gos, gos­to mui­to de vo­cês, mas te­nho um ano pe­la fren­te, é mui­to tem­po e os con­tri­buin­tes an­dam a pa­gar o meu sa­lá­rio pa­ra eu tra­ba­lhar’.

Se fos­se uma re­la­ção amo­ro­sa

O ní­vel das ba­ses fun­ci­o­na bem no PS, a su­pe­res­tru­tu­ra é que fun­ci­o­na mui­to mal O PS an­da um pou­co em­ba­la­do pe­las son­da­gens. E não se ga­nham elei­ções com son­da­gens

a jus­ti­fi­ca­ção se­ria mais ‘não és tu, sou eu’ ou ‘não sou eu, és tu’? Qu­an­do uma re­la­ção aca­ba, há sem­pre coi­sas dos dois la­dos. Ou se­ja, é eu e tu. Eu por­que não ab­di­quei da­qui­lo que acho que de­ve ser um Par­la­men­to for­te, di­nâ­mi­co. Eu acei­to que tam­bém pos­so não ser uma pes­soa mui­to fá­cil, com­pre­en­do que os par­ti­dos não es­tão ha­bi­tu­a­dos a li­dar com pes­so­as in­de­pen­den­tes. Is­so le­va-nos às 147 ve­zes em que vo­tou de for­ma di­fe­ren­te da sua ban­ca­da. Is­so te­ve con­sequên­ci­as ne­ga­ti­vas na sua re­la­ção com a di­rec­ção do GP? Sim, acho que sim. Qu­an­do di­vir­jo, mui­tas ve­zes apre­sen­to de­cla­ra­ções de vo­to. Não di­vir­jo por di­ver­gir. Se an­do há 30 anos a en­si­nar de­ter­mi­na­das coi­sas, não pos­so che­gar e vo­tar a fa­vor de uma coi­sa em que sou con­tra. As di­ver­gên­ci­as são fun­da­men­ta­das. Com­pre­en­do que a di­rec­ção da ban­ca­da sin­ta al­gum des­con­for­to e che­gou a um pon­to que achei ri­dí­cu­lo e ine­fi­caz: no­me­ar-me pa­ra o gru­po de tra­ba­lho da Lei das Fi­nan­ças Lo­cais e de­pois des­no­me­ar-me. Foi ine­fi­caz, por­que qual­quer de­pu­ta­do po­de ir a qual­quer co­mis­são e fui sem­pre e in­ter­vim. O Go­ver­no é pa­ter­na­lis­ta em re­la­ção ao GP do PS? Sim, e o exem­plo é a Lei das Fi­nan­ças Lo­cais. Mas o pro­ble­ma cen­tral pa­ra mim é o fun­ci­o­na­men­to do GP que de­via pu­xar pe­los de­pu­ta­dos, es­ti­mu­lá­los a da­rem o me­lhor que têm. Um GP é uma or­ga­ni­za­ção co­mo qual­quer ou­tra: tem um lí­der, uma li­de­ran­ça in­ter­mé­dia e de­pois tem os de­pu­ta­dos e co­mo qual­quer or­ga­ni­za­ção é pre­ci­so mo­ti­var os tra­ba­lha­do­res. E mo­ti­vá-los é en­vol­vê-los. Mui­tos de­pu­ta­dos — e não sou só eu — sen­tem-se um pou­co de­sin­cen­ti­va­dos. Car­los Cé­sar não es­ti­mu­la a par­ti­ci­pa­ção dos de­pu­ta­dos? (lon­go si­lên­cio) Is­to é uma or­ga­ni­za­ção pi­ra­mi­dal. Não é só Car­los Cé­sar, são os vi­ce­pre­si­den­tes e os co­or­de­na­do­res. Es­ta saí­da aju­da o PS co­mo? Eu acho que es­tou a aju­dar mui­to o PS se con­se­gui­rem per­ce­ber es­te si­nal. Va­lo­ri­zo mui­to o PS, con­tac­tei com as ba­ses no­me­a­da­men­te em Se­tú­bal. Tem gen­te ex­ce­len­te, que ad­mi­ro mui­to e que dá tu­do o que tem à fre­gue­sia, ao mu­ni­cí­pio. O ní­vel das ba­ses fun­ci­o­na bem no PS, a su­pe­res­tru­tu­ra é que fun­ci­o­na mui­to mal.

Porquê?

Is­so da­ria um li­vro. Os par­ti­dos se não ti­ve­rem think tanks das vá­ri­as áre­as a ali­men­tar as su­as pro­pos­tas po­lí­ti­cas, não têm efi­cá­cia ne­nhu­ma na ac­ção go­ver­na­ti­va. Is­so exis­te no PS e no PSD mas não têm mui­ta subs­tân­cia. O pró­xi­mo ano vai ser di­fí­cil e o PS — e is­to já é o de­pu­ta­do não-ins­cri­to a dar um con­se­lho ami­gá­vel — tem que se pre­pa­rar pa­ra as le­gis­la­ti­vas. O gru­po de 12 eco­no­mis­tas es­te­ve a tra­ba­lhar se­ma­nal­men­te du­ran­te qu­a­tro me­ses pa­ra apre­sen­tar o ce­ná­rio eco­nó­mi­co que apre­sen­tou em Abril de 2015. Is­so foi es­sen­ci­al pa­ra o su­ces­so des­ta go­ver­na­ção. Ho­je, o PS an­da um pou­co em­ba­la­do pe­las son­da­gens. E não se ga­nham elei­ções com son­da­gens, ga­nham-se com vo­tos. Já há mui­to so­ci­a­lis­ta ilu­di­do com a maioria ab­so­lu­ta? Jul­go que não. Es­ta foi uma boa go­ver­na­ção, com bons re­sul­ta­dos eco­nó­mi­cos e so­ci­ais, mas es­sa pre­pa­ra­ção aju­dou mui­tís­si­mo. Eu só te­nho uma pe­que­na par­ce­la dos cré­di­tos, mas se não fos­se es­sa ba­se de con­ver­sa, es­ta le­gis­la­tu­ra não te­ria chegado ao fim. Foi uma má ex­pe­ri­ên­cia, es­ta de de­pu­ta­do no PS? To­das as ex­pe­ri­ên­ci­as são bo­as. E re­pe­tia-a? (lon­go si­lên­cio) Nes­te en­qua­dra­men­to pen­so que não. Olhe­mos pa­ra o fu­tu­ro. Co­mo é a me­lhor for­ma de aju­dar o PS co­mo não-ins­cri­to? Es­ta mi­nha saí­da é um si­nal de aler­ta por­que há coi­sas que não vão bem e não é com o de­pu­ta­do A ou B. Não vão bem e va­le a pe­na re­flec­tir so­bre elas. Há coi­sas que ain­da que­ro fa­zer no Par­la­men­to — e es­ta é ou­tra ra­zão pa­ra sair. Por ter pro­pos­tas que o PS nun­ca acei­ta­ria? Sim. Por exem­plo, o de­ba­te po­lí­ti­co ur­gen­te so­bre a re­for­ma do sis­te­ma elei­to­ral, que es­ta­va no programa elei­to­ral do PS mas caiu com os acor­dos par­la­men­ta­res. Ago­ra há uma pe­ti­ção so­bre is­so, tra­ba­lha­da en­tre a As­so­ci­a­ção por uma De­mo­cra­cia de Qua­li­da­de e a SEDES. Acho fun­da­men­tal um de­ba­te com dig­ni­da­de. Sem uma re­for­ma do sis­te­ma elei­to­ral não há bons gru­pos par­la­men­ta­res e não há re­no­va­ção da de­mo­cra­cia.

Além des­sa, quais se­rão as su­as ou­tras ban­dei­ras?

A trans­pa­rên­cia. Ou­tras pri­o­ri­da­des são as áre­as dos car­gos di­ri­gen­tes e CReSAP. Uma ver­da­dei­ra re­for­ma do Es­ta­do pas­sa pe­la re­for­ma dos car­gos di­ri­gen­tes e pe­la ca­pa­ci­ta­ção a sé­rio dos tra­ba­lha­do­res -, a des­cen­tra­li­za­ção e o re­for­ço das as­sem­blei­as mu­ni­ci­pais.

Por­tan­to, ano no­vo, vi­da no­va?

É is­so mes­mo. Pe­di­ram-me pa­ra adi­ar a de­ci­são e ela foi mui­to atra­sa­da até ao li­mi­te. E a ra­zão por que eu não a po­dia adi­ar é mes­mo por is­so: ano no­vo, vi­da no­va. E gos­ta­va que até ao Na­tal tu­do es­te­ja or­ga­ni­za­do.

DA­NI­EL RO­CHA

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