Pla­nis­fé­ri­co A his­tó­ria de Viv An­der­son foi ser o pri­mei­ro em mui­ta coi­sa

Foi o pri­mei­ro ne­gro a jo­gar por In­gla­ter­ra e es­te­ve na pri­mei­ra e úni­ca equi­pa com mais tí­tu­los eu­ro­peus do que na­ci­o­nais

Edição Público Lisboa - - DESPORTO - Fu­te­bol in­ter­na­ci­o­nal Mar­co Va­za

Quan­tos jo­vens jo­ga­do­res em iní­cio de car­rei­ra e à bei­ra de fa­zer a sua es­treia co­mo seniores não te­rão pen­sa­do de­sis­tir de tu­do e ir a cor­rer pa­ra o bal­neá­rio? Foi o que passou pe­la ca­be­ça de Vi­vi­an Ale­xan­der An­der­son qu­an­do tinha 17 anos, es­ta­va a dar os pri­mei­ros to­ques na pri­mei­ra equi­pa do Not­tingham Fo­rest, em 1974. Bri­an Clough era o trei­na­dor e man­dou o jo­vem la­te­ral-di­rei­to aque­cer pa­ra en­trar num jo­go da se­gun­da divisão in­gle­sa em ca­sa do Car­lis­le. An­der­son foi, mas vol­tou ime­di­a­ta­men­te pa­ra o ban­co. “O trei­na­dor dis­se-me lo­go, ‘O que é que es­tás a aqui a fa­zer, não te tinha man­da­do aque­cer?’”, con­ta­ria mais tar­de An­der­son. “Foi o que fiz, che­fe, mas eles [os adep­tos ad­ver­sá­ri­os] es­tão a ati­rar-me ba­na­nas e ma­çãs e pê­ras.” Res­pos­ta de Clough a An­der­son: “En­tão me­xe-me es­se ra­bo e vai-me bus­car du­as pê­ras e uma ba­na­na.”

Es­ta his­tó­ria diz tan­to de quem foi Bri­an Clough e da sua per­so­na­li­da­de es­pe­ci­al que fez de­le um dos trei­na­do­res mais mar­can­tes do fu­te­bol in­glês, co­mo do que era o pró­prio fu­te­bol in­glês nos anos 1970, em que o ra­cis­mo se ma­ni­fes­ta­va com mais frequên­cia de for­ma mais evi­den­te nos es­tá­di­os de fu­te­bol. Viv An­der­son aca­ba­ria por en­trar nes­se jo­go em Car­lis­le e dar iní­cio a uma lon­ga car­rei­ra que o le­vou a al­gu­mas das me­lho­res equi­pas in­gle­sas e tor­nar­se um pi­o­nei­ro no seu país. Se­ria o pri­mei­ro jo­ga­dor ne­gro a ac­tu­ar na selecção in­gle­sa e não foi há tan­to tem­po co­mo is­so. Foi em 1978, há 40 anos.

A 29 de No­vem­bro de 1978 Ron Gre­enwo­od, en­tão o se­lec­ci­o­na­dor de In­gla­ter­ra, pro­mo­veu a es­treia de An­der­son, em Wem­bley, num jo­go fren­te à Che­cos­lo­vá­quia. An­der­son tinha con­quis­ta­do o lu­gar pro­van­do o seu va­lor no Fo­rest de Bri­an Clough, que tinha vin­do da se­gun­da divisão pa­ra ser cam­peão in­glês nes­se ano — e iria con­ti­nu­ar co­mo um in­dis­cu­tí­vel nas equi­pas que iri­am con­quis­tar por du­as ve­zes se­gui­das, em 1979 e 1980, a fi­nal da Ta­ça dos Cam­peões Eu­ro­peus, sen­do o Fo­rest, até ho­je, a úni­ca equi­pa da his­tó­ria da com­pe­ti­ção com mais tí­tu­los eu­ro­peus que tí­tu­los na­ci­o­nais.

Na al­tu­ra, An­der­son não se via co­mo um pi­o­nei­ro. “Era só um ra­paz ne­gro que que­ria jo­gar fu­te­bol. Abrir no­vos ca­mi­nhos, ou qual­quer coi­sa do gé­ne­ro, nun­ca me passou pe­la ca­be­ça. Só pen­sa­va no jo­go e não fa­lhar na pri­mei­ra vez que to­cas­se na bo­la, que fi­zes­se um cor­te de ca­be­ça ou a fa­zer um pas­se pa­ra um co­le­ga. Era nis­so que eu tinha de me con­cen­trar. Tu­do o res­to era pe­ri­fé­ri­co. Que­ria era jo­gar bem na mi­nha es­treia pa­ra ser cha­ma­do mais ve­zes”, con­tou mais tar­de. Es­se jo­go, em Wem­bley, pe­lo qual re­ce­beu te­le­gra­mas da Rai­nha de In­gla­ter­ra e de El­ton John, aca­ba­ria por ser o pri­mei­ro de 30 in­ter­na­ci­o­na­li­za­ções por In­gla­ter­ra, par­ti­ci­pan­do em dois Mundiais (1982 e 1986) e em dois Eu­ro­peus (1980 e 1988).

An­der­son foi o pri­mei­ro de três ne­gros a jo­gar pe­los “Três Leões” com Gre­enwo­od — se­guir-se-iam Lau­rie Cun­ningham e Cy­ril­le Re­gis. De­pois, as bar­rei­ras que­bra­ram-se de­fi­ni­ti­va­men­te com Bobby Rob­son, que du­ran­te o seu tem­po co­mo se­lec­ci­o­na­dor, pro­mo­veu a es­treia de 12 jo­ga­do­res ne­gros, en­tre eles John Bar­nes e Des Wal­ker. E jo­ga­do­res co­mo Ash­ley Co­le, Rio Fer­di­nand, Sol Camp­bell ou Ian Wright são in­con­tor­ná­veis na his­tó­ria mais re­cen­te da selecção in­gle­sa, que te­ve 11 jo­ga­do­res ne­gros em 23 no re­cen­te Mun­di­al da Rús­sia.

Pa­ra além de ter que­bra­do a bar­rei­ra ra­ci­al da selecção in­gle­sa e dos tí­tu­los com o Not­tingham Fo­rest, An­der­son te­ve uma lon­ga e dis­tin­ta car­rei­ra no fu­te­bol in­glês. De­pois do Fo­rest, foi pa­ra o Ar­se­nal em 1984 e, dos lon­dri­nos, mu­dou­se em 1987 aos 31 anos pa­ra o Man­ches­ter Uni­ted, on­de ain­da se­ria a pri­mei­ra con­tra­ta­ção de um jo­vem e am­bi­ci­o­so trei­na­dor es­co­cês cha­ma­do Alex Fer­gu­son. Não he­si­tou na ho­ra de acei­tar a pro­pos­ta do clu­be do qual era adep­to e on­de tinha chegado a fa­zer tes­tes en­quan­to jo­vem, mas já não apa­nhou os tem­pos de gló­ria do Uni­ted com Fer­gu­son, aban­do­nan­do Old Traf­ford em 1991 pa­ra cum­prir um par de épo­cas no Shef­fi­eld Wed­nes­day. Ain­da te­ve pas­sa­gens bre­ves por Barns­ley e Mid­dles­brough an­tes de dei­xar de jo­gar em 1995, com 39 anos e uma car­rei­ra de mais de 20 a ser o pri­mei­ro em mui­tas coi­sas. mva­[email protected]­bli­co.pt Pla­nis­fé­ri­co é uma ru­bri­ca se­ma­nal so­bre histórias e cam­pe­o­na­tos de fu­te­bol pe­ri­fé­ri­cos

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Viv An­der­son qu­an­do re­pre­sen­ta­va o Ar­se­nal

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