Os fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos de­vem poder fa­zer gre­ve?

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - João Mi­guel Ta­va­res

Não te­nho ne­nhu­ma res­pos­ta de­fi­ni­ti­va pa­ra a ques­tão que dá tí­tu­lo des­te ar­ti­go, mas es­tou ab­so­lu­ta­men­te con­vic­to de que ela de­ve­ria es­tar a ser de­ba­ti­da na so­ci­e­da­de por­tu­gue­sa. Sim, eu sei que o di­rei­to à gre­ve es­tá ga­ran­ti­do pe­la Cons­ti­tui­ção, e que ja­mais os par­ti­dos te­ri­am co­ra­gem pa­ra avan­çar com uma al­te­ra­ção des­tas ten­do em con­ta o poder do fun­ci­o­na­lis­mo pú­bli­co em Por­tu­gal. Mas aqui­lo que me in­te­res­sa, nes­te mo­men­to, é o de­ba­te de idei­as, e não a pos­si­bi­li­da­de ou im­pos­si­bi­li­da­de de pôr em prá­ti­ca se­me­lhan­te pro­pos­ta. As pes­so­as dão co­mo ad­qui­ri­das mui­tas coi­sas por­que sem­pre as vi­ram ser fei­tas de cer­ta ma­nei­ra, mas às ve­zes é bom pa­rar um pou­co e pen­sar: se­rá que faz sen­ti­do?

O di­rei­to à gre­ve não é ir­res­tri­to, mes­mo em Por­tu­gal. Os mi­li­ta­res não po­dem fa­zer gre­ve. Os po­lí­ci­as tam­bém não. Es­se é um di­rei­to que as as­so­ci­a­ções sin­di­cais da po­lí­cia têm rei­vin­di­ca­do in­sis­ten­te­men­te (“to­do o tra­ba­lha­dor de­ve ter di­rei­to à gre­ve”), mas que o pró­prio Tri­bu­nal Eu­ro­peu dos Di­rei­tos do Ho­mem de­cla­rou não ter de ser aten­di­do, de­vi­do à es­pe­ci­fi­ci­da­de da pro­fis­são e em no­me da or­dem pú­bli­ca. Cla­ro que em Por­tu­gal, co­mo sem­pre, a ló­gi­ca é uma ba­ta­ta: um po­lí­cia de trân­si­to não po­de fa­zer gre­ve, mas um guar­da pri­si­o­nal já po­de, tal co­mo um ins­pec­tor da Po­lí­cia Ju­di­ciá­ria. Não faz sen­ti­do. O di­rei­to à gre­ve ins­cri­to na Cons­ti­tui­ção tem li­mi­ta­ções — a ques­tão es­tá em sa­ber até on­de elas de­vem ir.

Em­bo­ra ha­ja pou­ca cons­ci­ên­cia dis­so, os fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos es­tão al­ta­men­te li­mi­ta­dos no di­rei­to à gre­ve em paí­ses co­mo o Lu­xem­bur­go ou a Po­ló­nia. Nos Es­ta­dos Uni­dos, es­tão mes­mo proi­bi­dos de fa­zer gre­ve na mai­or par­te dos es­ta­dos, in­cluin­do No­va Ior­que. En­ten­de-se que es­sa pos­si­bi­li­da­de pre­ju­di­ca­ria de­ma­si­a­das pes­so­as, so­bre­tu­do as mais po­bres: quem es­tá mais de­pen­den­te dos ser­vi­ços pú­bli­cos é quem fi­ca mais pre­ju­di­ca­do com as gre­ves dos seus fun­ci­o­ná­ri­os. Os ri­cos têm os fi­lhos em es­co­las pri­va­das, vão a hos­pi­tais par­ti­cu­la­res e des­lo­cam-se nas su­as pró­pri­as vi­a­tu­ras. São os mais des­fa­vo­re­ci­dos que so­frem com as gre­ves dos pro­fes­so­res, dos en­fer­mei­ros ou dos com­boi­os.

As gre­ves no sec­tor pú­bli­co não são um pro­ble­ma ape­nas en­tre o tra­ba­lha­dor e o seu em­pre­ga­dor — co­mo acon­te­ce, por exem­plo, no ca­so da Au­to­eu­ro­pa, que é uma ques­tão en­tre a Volkswa­gen e os seus fun­ci­o­ná­ri­os, com a qual pou­co ou na­da te­mos que ver. Na fun­ção pú­bli­ca há uma ter­cei­ra par­te en­vol­vi­da — os ci­da­dãos e con­tri­buin­tes —, e, por­tan­to, o seu im­pac­to é mui­tís­si­mo mai­or. Pi­or: es­sas gre­ves são fei­tas num sec­tor em que o tra­ba­lha­dor nun­ca cor­re o ris­co de per­der o em­pre­go. Os tra­ba­lha­do­res da Au­to­eu­ro­pa po­dem ver a fá­bri­ca fe­char ou ser des­lo­ca­li­za­da. Os tra­ba­lha­do­res do Es­ta­do não po­dem ser des­pe­di­dos e o seu pa­trão não vai la­bo­rar pa­ra a Re­pú­bli­ca Che­ca. Don­de, a des­pro­por­ção en­tre as rei­vin­di­ca­ções e as su­as con­sequên­ci­as é imen­sa. Mui­tos fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos nem os sa­lá­ri­os per­dem, por­que os sin­di­ca­tos quo­ti­zam-se pa­ra re­por o di­nhei­ro. Con­sequên­cia ób­via: são mui­to mais nu­me­ro­sas as gre­ves no sec­tor pú­bli­co do que no pri­va­do.

Mais: as gre­ves em Por­tu­gal po­dem ser se­lec­ti­vas, ro­ta­ti­vas e às pin­gui­nhas (so­men­te al­gu­mas ho­ras du­ran­te o dia). To­do o car­dá­pio es­tá à dis­po­si­ção dos gre­vis­tas, pa­ra que pos­sam ob­ter o má­xi­mo de im­pac­to com o mí­ni­mo de em­pe­nho. Is­to é uma re­bal­da­ria inad­mis­sí­vel num Es­ta­do que res­pei­te os seus ci­da­dãos. Se o sec­tor pú­bli­co tem pri­vi­lé­gi­os úni­cos, tam­bém de­ve­ria ter obri­ga­ções ex­clu­si­vas. Al­go tem de mu­dar.

MI­GUEL MAN­SO

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