O gran­de Vas­co

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - Mi­guel Es­te­ves Car­do­so Ain­da on­tem

Ti­nha-me es­que­ci­do do dia em que Vas­co Pu­li­do Va­len­te ia vol­tar a es­cre­ver no PÚ­BLI­CO e as­sim, ho­je de manhã, ao de­pa­rar com o Diá­rio dele, ti­ve uma das mai­o­res e me­lho­res sur­pre­sas da mi­nha vi­da. Ia acres­cen­tar “da mi­nha vi­da co­mo lei­tor”, mas não, foi mes­mo uma das me­lho­res sur­pre­sas da mi­nha vi­da, pon­to fi­nal. Ha­bi­tu­ei-me ce­do à in­te­li­gên­cia e ao sen­ti­do de hu­mor do Vas­co, de tal mo­do que nun­ca me ha­bi­tu­ei a não po­der lê-lo. Con­to com ele, sim, mas a ver­da­de é que não pas­so sem ele.

Ti­ve a sor­te de co­nhe­cê-lo e de tra­ba­lhar e al­mo­çar e jan­tar com ele — e ele tem tan­ta gra­ça em pes­soa co­mo tem a es­cre­ver —, mas es­sa sor­te foi sem­pre com­ple­men­tar ao pra­zer de lê-lo. O Vas­co tem mui­tas qua­li­da­des que ou­tras pes­so­as têm — a sa­be­do­ria, a ir­re­ve­rên­cia, a co­ra­gem, a ho­nes­ti­da­de, a ele­gân­cia da pro­sa — mas ele tem to­das ao mes­mo tem­po.

Tem tam­bém uma qua­li­da­de que é a me­lhor que um es­cri­tor e pen­sa­dor po­de ter: é in­fa­li­vel­men­te im­pre­vi­sí­vel e di­ver­ti­do. Fi­ca-se sem­pre sur­pre­en­di­do com o que ele se lem­bra de di­zer e eu­fó­ri­co com a lata que tem pa­ra di­zê-lo. Ele é a liberdade per­so­ni­fi­ca­da. Ele mos­tra que a liberdade é um pra­zer, que nin­guém es­tá aci­ma de­la: co­me­mos to­dos pe­la mes­ma me­di­da.

As em­bir­ra­ções dele — di­go-o de­pois de qua­tro dé­ca­das de es­tu­do aten­to — têm sem­pre um bo­ca­di­nho de ra­zão. O Vas­co con­se­gue ser ou­tra­ge­ous e sen­sa­to ao mes­mo tem­po. Nem os ini­mi­gos lhe ne­gam o im­pi­e­do­so es­pí­ri­to crí­ti­co, mas par­te do fas­cí­nio dele é tam­bém o en­tu­si­as­mo dos afec­tos que o mo­vem — e que mu­dam de­li­ci­o­sa­men­te.

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