De­mo­lhá-lo

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - Mi­guel Esteves Car­do­so Ain­da on­tem

uan­do com­prei ba­ca­lhau da Lu­gra­de com 20 me­ses de cu­ra, pro­me­ti di­zer se era bom ou não. Pois é mui­to bom. Cus­ta mais ou me­nos o que cus­ta o me­lhor ba­ca­lhau de­mo­lha­do con­ge­la­do, mas, cla­ro es­tá, ren­de mais por­que in­cha mui­to com a água.

É pe­na que tan­ta gen­te te­nha per­di­do o há­bi­to de com­prar o ba­ca­lhau se­co e de­mo­lhá-lo em ca­sa, por­que o ba­ca­lhau con­ge­la­do, por mui­to bom que se­ja e por mui­to bem que te­nha si­do con­ge­la­do, per­de gor­du­ra e não se dei­xa las­car co­mo de­ve ser.

É cha­to de­mo­lhar pos­tas de ba­ca­lhau: as mais al­tas pre­ci­sam de cin­co di­as e tem de ser no fri­go­rí­fi­co, se­não apo­dre­ce. Já per­di um dos mai­o­res ba­ca­lhaus que já vi por ter dei­xa­do apo­dre­cer. Tam­bém já fui a res­tau­ran­tes ba­ca­lho­ei­ros on­de, sem que­rer, me ser­vi­ram pos­tas po­dres. Acon­te­ce.

A ma­nei­ra me­lhor de de­mo­lhar ba­ca­lhau é num ribeiro de água ge­la­da. Pa­ra imi­tar es­se pro­ces­so há quem mu­de a água vá­ri­as ve­zes por dia. Des­ta vez de­ci­di se­guir à ris­ca os con­se­lhos da Lu­gra­de: mu­dar a água só uma vez por dia e, da­da a gros­su­ra das pos­tas, du­ran­te qua­tro di­as. Cla­ro es­tá que há afi­na­ções que se fa­zem a olho. Ter du­as pos­tas a de­mo­lhar é um pe­que­no pro­jec­to e de­ve-se pro­var o ba­ca­lhau. Co­mo dis­se uma vez a im­pres­cin­dí­vel Ma­ria de Lour­des Mo­des­to, o ba­ca­lhau tem sem­pre de es­tar um bo­ca­di­nho sal­ga­do. Pou­co sal­ga­do não tem gra­ça ne­nhu­ma.

A van­ta­gem de com­prar um ba­ca­lhau in­tei­ro é po­der co­mer to­das as par­tes do ba­ca­lhau: co­mo bom por­tu­guês que sou, gos­to de to­das. Quan­to mais gros­sas, mais di­fí­cil é acer­tar: os ra­bos e ca­cha­ços são pe­chin­chas.

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