Um vi­de­oár­bi­tro pa­ra a Jus­ti­ça

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - João Gar­cia

Ago­ra que o mun­do do Cam­pus da Jus­ti­ça ga­nhou for­te se­me­lhan­ça com os cam­pos do fu­te­bol, ve­nha de lá um vi­de­oár­bi­tro pa­ra a Jus­ti­ça. Te­mos o di­rei­to de sa­ber se uma qual­quer acu­sa­ção não ga­nhou por­que a in­ves­ti­ga­ção fa­lhou os re­ma­tes ou se foi o juiz da par­ti­da que ana­li­sou mal as jo­ga­das. Tal co­mo à vol­ta dos par­ques des­por­ti­vos, a dis­cus­são so­bre o que se pas­sa naqueles edi­fí­ci­os do Par­que das Na­ções é fei­ta mais com emo­ção do que com a ra­zão, en­tre aca­lo­ra­dos adep­tos da de­fe­sa e fãs da acu­sa­ção.

Co­mo vem sen­do cos­tu­me, ao pri­mei­ro pon­to mar­ca­do pe­los in­ves­ti­ga­do­res lo­go sur­gem os pal­pi­tes so­bre o des­fe­cho: is­to é uma cam­ba­da de cor­rup­tos, já se sa­bia que os vis­tos gold eram pa­ra a ne­go­ci­a­ta, ago­ra fi­ca-se com a cer­te­za. Não es­que­cer ou­tra boa pre­mis­sa: ago­ra os po­de­ro­sos tam­bém não es­ca­pam. No fi­nal da pri­mei­ra par­ti­da (pri­mei­ra, por­que ain­da fal­ta sa­ber se há e quais as de­ci­sões dos re­cur­sos), com a equi­pa de acu­sa­do­res der­ro­ta­da, as opi­niões saí­ram de ra­ja­da: pa­ra um dos la­dos, a con­ten­da ter­mi­nou nu­ma ver­go­nha pa­ra o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co; mas pa­ra os da ban­ca­da con­trá­ria, afi­nal foi o tri­bu­nal que jul­gou mal. A ver va­mos o que diz a Re­la­ção.

Sem se fa­ze­rem es­pe­rar, as opi­niões de­fi­ni­ti­vas sur­gi­ram por to­do o la­do. Não se es­pe­rou pe­lo vi­de­oár­bi­tro pa­ra me­lhor ver se a bo­la pas­sou ou não a li­nha de go­lo.

Mui­to mais do que nos cam­pos de fu­te­bol, é im­por­tan­te sa­ber-se se a de­ci­são to­ma­da no Cam­pus foi ou não a cor­re­ta.

A de­mons­trar que a cre­di­bi­li­da­de da Jus­ti­ça an­da por bai­xo es­tá a de­cla­ra­ção do tri­bu­nal de que ali “não se fa­zem fre­tes”. Por­que sen­tiu o co­le­ti­vo ne­ces­si­da­de de tal afir­ma­ção? Por nou­tros ca­sos ha­ver fre­tes? Quan­do se sen­te ne­ces­si­da­de de apre­go­ar o res­pei­to por obri­ga­ções bá­si­cas, é por­que al­go vai mal. As vir­tu­des não se pro­cla­mam, pra­ti­cam-se e de­mons­tram-se.

Mas o que ain­da in­qui­e­ta mais é a dis­pa­ri­da­de en­tre a acu­sa­ção fei­ta pe­lo Mi­nis­té­rio Pú­bli­co e con­si­de­ra­da su­fi­ci­en­te­men­te ra­zoá­vel por um juiz de ins­tru­ção, ao re­me­tê-la pa­ra jul­ga­men­to, e a de­ci­são do co­le­ti­vo que jul­gou o ca­so, jo­gan­do-a qua­se to­tal­men­te pa­ra fo­ra das li­nhas. Em que fi­ca­mos? Não che­ga di­zer-se que é as­sim a Jus­ti­ça, que uns acu­sam e ou­tros jul­gam e que é es­te o jo­go da Jus­ti­ça. Não che­ga pa­ra os ino­cen­tes que vão ou es­ti­ve­ram pre­sos nem pa­ra os que têm a vi­da es­tra­ga­da. E em­bo­ra sem­pre se­ja me­lhor dei­xar es­ca­par um cul­pa­do do que pu­nir um ino­cen­te, não é tran­qui­li­za­dor ad­mi­tir-se que acu­sa­dos de vá­ri­os cri­mes po­dem sair pe­la por­ta gran­de, por inép­cia (nem é bom ad­mi­tir que se­ja por “fre­tes”) dos jul­ga­do­res. Quem res­pon­de e é res­pon­sa­bi­li­za­do pe­los er­ros ju­di­ci­ais?

Ve­nha, por is­so, o vi­de­oár­bi­tro. Al­guém tem de sin­di­car, de for­ma cre­dí­vel e com­pre­en­sí­vel, os ma­gis­tra­dos. Al­guém tem de sa­ber es­co­lher os pro­cu­ra­do­res com­pe­ten­tes e atri­buir-lhes os pro­ces­sos com­pli­ca­dos e des­clas­si­fi­car os im­pre­pa­ra­dos. Al­guém tem de clas­si­fi­car os juí­zes de for­ma que ca­sos sen­sí­veis não vão pa­rar a co­le­ti­vos in­sen­sí­veis. Al­guém tem de ir ver as ima­gens do vi­de­oár­bi­tro e di­zer quem er­rou. Não há só gran­des ca­sos, tam­bém há pe­que­nos fur­tos. Es­co­lham os mais com­pe­ten­tes (não por tem­po de ser­vi­ço...) pa­ra os pri­mei­ros, dei­xem os res­tan­tes pa­ra os me­nos ap­tos. Nin­guém vai a neu­ro­ci­rur­gião pa­ra co­ser uma ca­be­ça par­ti­da.

Cor­rem-se ris­cos. Es­ta­rá a nos­sa de­mo­cra­cia su­fi­ci­en­te­men­te ma­du­ra? Quem vi­gia e quem no­meia os vi­de­oár­bi­tros? Quem se­le­ci­o­na e quem diz quem vai a jo­go?

Os vi­de­oár­bi­tros são uma afron­ta à in­de­pen­dên­cia dos ma­gis­tra­dos. Mas per­gun­ta-se: o que se pas­sou com o ca­so dos vis­tos gold não é um des­pres­tí­gio pa­ra a Jus­ti­ça? O que não há dú­vi­da é que al­guém er­rou: ou quem pro­mo­veu e dei­xou pas­sar a acu­sa­ção, ou quem a re­jei­tou da for­ma que o fez. Nem to­dos são ca­pa­zes de jo­gar na Pri­mei­ra Li­ga. Jor­na­lis­ta

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