Sou fran­co con­vos­co, não sou in­gé­nuo. Em 2009 hou­ve elei­ções e, ob­vi­a­men­te, au­men­tar a fun­ção pú­bli­ca em 2,9% po­de so­ar a uma me­di­da de ca­rác­ter elei­to­ra­lis­ta

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fui con­fron­ta­do em 2008, foi o se­guin­te: pa­ra 2008 tí­nha­mos uma pre­vi­são de in­fla­ção de 2%, e o que foi di­to às or­ga­ni­za­ções sin­di­cais era que o au­men­to se­ria de 2%. Em me­a­dos de 2008 de­pa­ra­mo-nos com uma ta­xa de in­fla­ção de 3%. Os sindicatos pe­di­am ne­go­ci­a­ções in­ter­ca­la­res, e sem­pre dis­se que não dis­cu­ti­ria mais sa­lá­ri­os em 2008 e que só ha­ve­ria ne­go­ci­a­ções em 2009. Nes­te qua­dro, em Se­tem­bro de 2008, na pon­ta fi­nal da pre­pa­ra­ção do Or­ça­men­to, a pre­vi­são de in­fla­ção do Ban­co de Por­tu­gal pa­ra 2009 era de 2,5%, e pa­re­ceu ra­zoá­vel uma so­lu­ção sa­lo­mó­ni­ca: in­fla­ção es­pe­ra­da 2,5%, mais um bo­ca­di­nho entre o di­fe­ren­ci­al entre os 2% e os 3% de 2008, e é aí que sur­ge o 2,9%. Mas 2009 foi com­ple­ta­men­te di­fe­ren­te do que na al­tu­ra se es­ta­va a pre­ver. Se eu sou­bes­se em Se­tem­bro de 2008 que 2009 ia ter uma in­fla­ção de -1%, é ób­vio que não faria sen­ti­do um au­men­to sa­la­ri­al da­que­la na­tu­re­za. Mes­mo as­sim, se olhar pa­ra os re­sul­ta­dos das con­tas pú­bli­cas, o im­pac­to do au­men­to dos en­car­gos com pes­so­al, e o au­men­to não tem só que ver com ac­tu­a­li­za­ção sa­la­ri­al, foi de 0,4 pon­tos per­cen­tu­ais do PIB de um ano pa­ra o ou­tro. Ou se­ja, o au­men­to sa­la­ri­al ex­pli­ca, quan­do mui­to, 0,4% do dé­fi­ce. Não me pa­re­ce que tenha sido es­se o gran­de fac­tor que jus­ti­fi­que o que se pas­sou em ter­mos de re­sul­ta­dos or­ça­men­tais. Te­ve o seu con­tri­bu­to, te­ve, mas não é o por­ta-aviões em ter­mos de ex­pli­ca­ção da evo­lu­ção das fi­nan­ças pú­bli­cas em 2009. Sa­ben­do o que acon­te­ceu em 2011 e a for­ma co­mo os mer­ca­dos se vi­ra­ram con­tra os Es­ta­dos e con­tra os dé­fi­ces dos paí­ses do Sul da Eu­ro­pa, es­tas po­lí­ti­cas con­tra­cí­cli­cas re­ve­la­ram-se er­ra­das ou inúteis? Quan­do es­sas po­lí­ti­cas foram de­ci­di­das, es­ta­va lon­ge de qualquer ce­ná­rio pen­sar que os mer­ca­dos iri­am ter a re­ac­ção que ti­ve­ram. O que acho que pe­sou mui­to na re­ac­ção dos mer­ca­dos foi a per­cep­ção de que fal­ta­vam na Eu­ro­pa ins­tru­men­tos de go­ver­na­ção económica e fi­nan­cei­ra. Por exem­plo, quan­do a Gré­cia pe­diu um res­ga­te, a Eu­ro­pa não ti­nha ins­tru­men­tos pa­ra va­ler à Gré­cia. No mes­mo dia em que foi de­ci­di­do — em 2010 — o res­ga­te à Gré­cia, es­te foi de­ci­di­do na ba­se de em­prés­ti­mos bi­la­te­rais. Não foi a UE ou a área do euro atra­vés de um ins­tru­men­to a va­ler à Gré­cia. De­mos um si­nal de que não tí­nha­mos ins­tru­men­tos pa­ra en­fren­tar uma cri­se des­tas. Foi nes­sa al­tu­ra que se cri­ou o Eu­ro­pe­an Fi­nan­ci­al Sta­bi­lity Fund (EFSF), que mais tar­de veio a dar ori­gem ao Eu­ro­pe­an Sta­bi­lity Me­cha­nism (ESM), que ago­ra se fa­la em trans­for­mar num Fun­do Mo­ne­tá­rio Eu­ro­peu. Mas ima­gi­ne­se quão lon­ge es­tá­va­mos des­ta ideia. De­pois, o pro­gra­ma da Gré­cia, mais do que um pro­gra­ma de res­ga­te, foi um pro­gra­ma pu­ni­ti­vo. Es­ta­va tu­do mui­to zan­ga­do com a Gré­cia. Foi um pro­gra­ma de tal du­re­za que, em boa ver­da­de, ha­via mui­tas dú­vi­das de que a Gré­cia fos­se ca­paz de o cum­prir, co­mo, aliás, se veio a per­ce­ber que não cum­priu, e de­pois des­se res­ga­te pre­ci­sou de mais dois. Sa­ben­do que há o ris­co de um país, por es­tar na zo­na euro, não es­tar to­tal­men­te pro­te­gi­do, que li­ções po­de­mos ti­rar pa­ra o pre­sen­te nes­ta fa­se, quan­do se co­me­ça a fa­lar em apli­car po­lí­ti­cas or­ça­men­tais mais ex­pan­si­o­nis­tas? De­ve­mos pen­sar no que acon­te­ceu? Sem dú­vi­da. Há li­ções im­por­tan­tes a re­ti­rar. Uma de­las é que em ter­mos de fi­nan­ças pú­bli­cas temos de ter um ní­vel de con­tro­lo e de ges­tão mui­to rigoroso. Temos de evi­tar es­tar en­cos­ta­dos a ní­veis de dé­fi­ce des­sa na­tu­re­za (3%), por­que sig­ni­fi­ca es­tar nu­ma zo­na de ris­co. Há vi­cis­si­tu­des que afectam a actividade económica e fi­nan­cei­ra dos paí­ses que nos po­dem fa­cil­men­te em­pur­rar pa­ra uma zo­na mais pro­ble­má­ti­ca de ní­veis de dé­fi­ce. Por­tu­gal, de­pois do his­to­ri­al que ti­ve­mos, é fun­da­men­tal que es­te­ja nu­ma área de se­gu­ran­ça e em ní­veis de dé­fi­ce que nos dêem se­gu­ran­ça. É fun­da­men­tal. Temos de man­ter a aus­te­ri­da­de? Ve­jo mui­tas ve­zes no­tí­ci­as a di­zer que con­ti­nua a aus­te­ri­da­de. A sua pergunta até in­duz a que pa­re­ça que se aban­do­nou o ca­mi­nho da aus­te­ri­da­de e que se es­tá a abrir os cor­dões à bol­sa. Há uma di­fe­ren­ça entre aus­te­ri­da­de e so­bri­e­da­de. Se ca­lhar ti­ve­mos de vi­ver em aus­te­ri­da­de, ti­ve­mos de fa­zer uma cor­rec­ção, um re­e­qui­lí­brio, não vou dis­cu­tir a for­ma co­mo foi fei­to, mas ti­ve­mos de re­du­zir o dé­fi­ce de for­ma sig­ni­fi­ca­ti­va, ti­ve­mos de to­mar medidas que im­pu­se­ram sacrifícios, e a is­so chama-se aus­te­ri­da­de. Mas uma vez fei­ta es­sa cor­rec­ção, temos de vi­ver num am­bi­en­te de so­bri­e­da­de. Aqui­lo que foi con­se­gui­do não se po­de per­der e temos de cui­dar de uma boa ges­tão das fi­nan­ças pú­bli­cas. Em ter­mos prá­ti­cos quer di­zer o quê? Há coin­ci­dên­ci­as com 2008. Há quem di­ga que vem aí uma no­va cri­se, tal co­mo em 2008, pa­ra o ano há elei­ções, co­mo hou­ve em 2009, e os sindicatos que em 2008 re­cla­ma­vam uma ne­go­ci­a­ção intercalar ago­ra pe­dem aumentos pa­ra a fun­ção pú­bli­ca aci­ma de 4%. O que de­ve fa­zer o mi­nis­tro das Fi­nan­ças? De­ve con­ti­nu­ar a ve­lar pe­la ma­nu­ten­ção da si­tu­a­ção or­ça­men­tal do país. Não es­ta­mos em con­di­ções de ter ris­cos que pos­sam tra­du­zir-se, a bre­ve e mé­dio pra­zo, em agra­va­men­to da si­tu­a­ção or­ça­men­tal. Tem de re­sis­tir. E cha­mo à atenção que, se temos uma in­fla­ção em re­dor de 1,2%, aumentos na or­dem dos 4% só se­ri­am jus­ti­fi­cá­veis se hou­ves­se uma me­lho­ria da pro­du­ti­vi­da­de que jus­ti­fi­cas­se es­se di­fe­ren­ci­al, o que não me pa­re­ce ser es­se o ca­so. Não me pa­re­cem aumentos com­por­tá­veis ou jus­ti­fi­cá­veis. Ou se­ja, au­men­to aci­ma da in­fla­ção é es­tar en­trar em ter­re­no pe­ri­go­so? Sim, acho que sim. O aci­ma da in­fla­ção pre­vis­ta não é ne­ces­sa­ri­a­men­te pe­ri­go­so, des­de que ha­ja uma per­cep­ção e exis­tên­cia de me­lho­ri­as de pro­du­ti­vi­da­de que o jus­ti­fi­quem. Mas não po­de ob­vi­a­men­te es­tar fora da­qui­lo que são os fun­da­men­tais que jus­ti­fi­cam ou de­vem jus­ti­fi­car a evo­lu­ção sa­la­ri­al. Em re­la­ção ao sis­te­ma fi­nan­cei­ro, es­ta­mos ho­je mais pre­pa­ra­dos do que em 2008? Tam­bém temos de dis­si­par e mi­ti­gar es­se ris­co. Vi­ve­mos ho­je num qua­dro que nos dá mai­or se­gu­ran­ça, temos um qua­dro de re­gras e su­per­vi­são mais atenta e com re­gras mais exi­gen­tes e uma su­per­vi­são mais in­ter­ve­ni­en­te. Temos um qua­dro que nos as­se­gu­ra um ní­vel de con­fi­an­ça mai­or no que res­pei­ta a ma­nu­ten­ção da so­li­dez das ins­ti­tui­ções. No ca­so por­tu­guês temos ain­da um le­ga­do for­te, atin­gi­mos ní­veis de mal­pa­ra­do que foram dos mais ele­va­dos a ní­vel eu­ro­peu, que es­tão ago­ra em re­du­ção. É bom que es­sa re­du­ção con­ti­nue e, sem dú­vi­da, que a ma­nu­ten­ção de um am­bi­en­te eco­nó­mi­co po­si­ti­vo, com al­gum cres­ci­men­to, se­rá im­por­tan­te. Es­ta­mos ho­je com um en­qua­dra­men­to que nos dá um ní­vel de se­gu­ran­ça que é bem me­lhor do que tí­nha­mos há dez anos.

vitor.cos­ta@pu­bli­co.pt ser­gio.ani­bal@pu­bli­co.pt

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