Apoi­os eu­ro­peus po­dem ter­mi­nar

Edição Público Porto - - SOCIEDADE -

a es­te ti­po de actividade o mu­ni­cí­pio de Vi­la Fran­ca de Xi­ra, tra­di­ci­o­nal­men­te li­ga­do à tau­ro­ma­quia e o que mais gas­tou em 2017 (68.184 eu­ros), ex­pli­ca que “a es­co­lha é fei­ta de acor­do com as vá­ri­as tra­di­ções e as di­ver­sas fes­ti­vi­da­des e tem em con­ta os gos­tos po­pu­la­res”.

Em res­pos­tas es­cri­tas en­vi­a­das ao PÚ­BLI­CO, es­ta au­tar­quia re­fe­re tam­bém que o au­men­to dos gas­tos com o sec­tor se jus­ti­fi­ca “por­que a mar­ca Vi­la Fran­ca de Xi­ra, li­ga­da ao cam­po, ao Te­jo, à Le­zí­ria e à tau­ro­ma­quia, atrai cada vez mais pú­bli­co aos even­tos que se re­a­li­zam anu­al­men­te — o Co­le­te En­car­na­do e a Fei­ra de Ou­tu­bro —, o que jus­ti­fi­ca ple­na­men­te o in­cre­men­to dos in­ves­ti­men­tos re­la­ci­o­na­dos com a sua pro­mo­ção, bem co­mo da ci­da­de e do con­ce­lho”.

O ca­so de Estremoz é dis­tin­to, diz o au­tar­ca do con­ce­lho no dis­tri­to

Ac­tu­al­men­te, quem pro­duz e cria tou­ros bra­vos de li­de po­de be­ne­fi­ci­ar de fun­dos eu­ro­peus atra­vés do sis­te­ma de subsídios à agri­cul­tu­ra da Po­lí­ti­ca Agrí­co­la Co­mum (PAC). Mas é intenção do Par­la­men­to Eu­ro­peu — que em 2015 apro­vou uma deliberação nes­se sen­ti­do — que a PAC se­ja ve­da­da às ga­na­da­ri­as, lo­cais on­de são cri­a­dos es­tes animais usa­dos em touradas. O que só po­de­rá acon­te­cer de­pois de 2020 quan­do es­ti­ver em vi­gor um no­vo pro­gra­ma. A PAC pós2020 já es­tá em dis­cus­são

Quan­do a deliberação foi apro­va­da, em Ou­tu­bro de 2015, os eu­ro­de­pu­ta­dos vo­ta­ram a fa­vor de uma al­te­ra­ção no or­ça­men­to co­mu­ni­tá­rio de for­ma a ex­cluir qualquer apoio à cri­a­ção de tou­ros de ra­ça bra­va de li­de. Es­ta al­te­ra­ção en­trou no or­ça­men­to do ano se­guin­te, mas fi­cou sem efei­to, uma vez que é ne­ces­sá­rio fa­zer al­te­ra­ções nas dis­po­si­ções le­gais da PAC. As­sim, sa­ben­do-se que o ac­tu­al pro­gra­ma vi­go­ra até ao fim des­ta dé­ca­da, na­da po­de mu­dar até lá. de Évo­ra. “A úni­ca coi­sa em que a câ­ma­ra in­ves­tiu foi na re­cu­pe­ra­ção do pa­tri­mó­nio”, nu­ma al­tu­ra em que o “avan­ça­do es­ta­do de de­gra­da­ção” da pra­ça de tou­ros ame­a­ça­va a mu­ra­lha do con­ce­lho. “A par­tir daí quem or­ga­ni­za os es­pec­tá­cu­los, pa­ga. A câ­ma­ra não fi­nan­cia na­da”, afir­ma Luís Mou­ri­nha, des­ta­can­do que um mu­ni­cí­pio do in­te­ri­or co­mo es­te tem ou­tras pri­o­ri­da­des de in­ves­ti­men­to.

Ques­ti­o­na­da pe­lo PÚ­BLI­CO, a As­so­ci­a­ção Na­ci­o­nal de Mu­ni­cí­pi­os Por­tu­gue­ses re­fe­riu ape­nas que “qualquer sub­sí­dio mu­ni­ci­pal atri­buí­do a uma de­ter­mi­na­da actividade é da ex­clu­si­va res­pon­sa­bi­li­da­de de cada mu­ni­cí­pio”.

O par­ti­do Pes­so­as-Animais-Na­tu­re­za (PAN) tem es­ta­do na li­nha da fren­te da lu­ta pe­la abo­li­ção das touradas em Por­tu­gal. Já apre­sen­tou três pro­jec­tos de lei so­bre o te­ma e to­dos foram chumbados. O úl­ti­mo foi apre­sen­ta­do à As­sem­bleia da Re­pú­bli­ca em Ju­lho des­te ano e con­tou com os vo­tos con­tra do PS, PSD e CDS, mas te­ve o voto a fa­vor de oi­to so­ci­a­lis­tas e a abs­ten­ção de ou­tros 12.

Mes­mo as­sim, An­dré Silva, o úni­co re­pre­sen­tan­te do par­ti­do com as­sen­to no Par­la­men­to, não de­sis­te. No âm­bi­to das ne­go­ci­a­ções do Or­ça­men­to do Es­ta­do (OE) pa­ra 2019, vai pro­por três medidas: aca­bar com a isen­ção do IVA aos ar­tis­tas tau­ro­má­qui­cos, o fim do apoio à pro­du­ção de tou­ros pa­ra touradas e o fim da re­du­ção do IVA pa­ra os bi­lhe­tes de touradas que, de­fen­de, “de­vem ser tri­bu­ta­dos à ta­xa má­xi­ma”.

Além dis­so, fora das ne­go­ci­a­ções do OE, o par­ti­do irá tam­bém pro­por (de no­vo), a “in­ter­di­ção da trans­mis­são de cor­ri­das de tou­ros na te­le­vi­são pú­bli­ca” e “fa­zer ces­sar os apoi­os mu­ni­ci­pais à actividade”.

Po­dem proi­bir touradas?

Já os mu­ni­cí­pi­os antitouradas po­dem proi­bi-las? A Pró-toi­ro en­ten­de que não, es­tan­do mes­mo a pre­pa­rar uma quei­xa em tri­bu­nal con­tra a Câ­ma­ra da Póvoa de Varzim, por es­ta ter de­ci­di­do, em Ju­nho, proi­bir a re­a­li­za­ção de touradas no con­ce­lho. “Nem os mu­ni­cí­pi­os, nem ne­nhum ou­tro ór­gão, têm po­de­res pa­ra proi­bir a cul­tu­ra, a não ser que vi­vês­se­mos nu­ma di­ta­du­ra”, afir­mou en­tão a fe­de­ra­ção tau­ri­na. Em de­fe­sa des­te ar­gu­men­to é usa­do o De­cre­to-lei n.º 89, de 2014, que de­fi­ne a tau­ro­ma­quia co­mo “par­te in­te­gran­te do pa­tri­mó­nio da cul­tu­ra po­pu­lar por­tu­gue­sa”.

O Go­ver­no ain­da con­si­de­rou, no ano pas­sa­do, dar au­to­no­mia aos mu­ni­cí­pi­os pa­ra au­to­ri­za­rem a re­a­li­za­ção de even­tos tau­ro­má­qui­cos. A alí­nea cons­ta­va da pro­pos­ta de lei re­la­ti­va à trans­fe­rên­cia de competências pa­ra as au­tar­qui­as lo­cais apro­va­da em Con­se­lho de Mi­nis­tros em Fe­ve­rei­ro de 2017, mas aca­bou por cair e não en­trar na re­cém-apro­va­da lei-qua­dro da descentralização.

Os mu­ni­cí­pi­os têm, por is­so, ape­nas mar­gem pa­ra se afir­ma­rem antitouradas, atra­vés de uma de­cla­ra­ção éti­ca e po­lí­ti­ca. Foi o que fi­ze­ram, entre ou­tras, as câ­ma­ras de Vi­a­na do Castelo, Pe­ni­che e San­ta Ma­ria da Fei­ra.

margarida.car­do­so@pu­bli­co.pt ri­ta.cos­ta@pu­bli­co.pt

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.