Ha­di ou Ha­dá­lio? Pa­ra o PT não in­te­res­sa por­que “Lula é Had­dad”

A can­di­da­tu­ra de Had­dad as­sen­ta na enor­me po­pu­la­ri­da­de de Lula, mas até o no­me do can­di­da­to po­de ser um obstáculo

Edição Público Porto - - MUNDO - João Ruela Ri­bei­ro

De T-shirt ver­me­lha com o ros­to de Lula da Silva es­tam­pa­do, Fer­nan­do Had­dad te­ve o seu primeiro con­tac­to di­rec­to com o elei­to­ra­do co­mo can­di­da­to ofi­ci­al do Par­ti­do dos Tra­ba­lha­do­res (PT) à pre­si­dên­cia na quin­ta-fei­ra nos ar­re­do­res de São Pau­lo. Os co­mí­ci­os re­for­çam a es­tra­té­gia de co­lar ao má­xi­mo Had­dad ao ex­Pre­si­den­te, pa­ra be­ne­fi­ci­ar de uma pos­sí­vel trans­fe­rên­cia de apoio.

A cer­ta al­tu­ra, du­ran­te o pas­seio de Had­dad em Ca­ra­pi­cuí­ba, um subúrbio in­dus­tri­al na zo­na oes­te de São Pau­lo, o lo­cu­tor apre­sen­ta o can­di­da­to co­mo “Luiz Fer­nan­do Had­dad Lula da Silva”, não dei­xan­do mar­gem pa­ra dú­vi­das de que o slo­gan do PT pa­ra as presidenciais é mes­mo pa­ra le­var a sé­rio: “Lula é Had­dad.”

Mas Lula es­tá lon­ge de ser Had­dad. Ou me­lhor, Had­dad é que tem pou­cas se­me­lhan­ças com Lula. O ex-pre­si­den­te da câ­ma­ra de São Pau­lo é um académico urbano pou­co co­nhe­ci­do fora da mai­or me­tró­po­le brasileira. Lula foi um operário me­ta­lúr­gi­co com pou­ca es­co­la­ri­da­de, que se no­ta­bi­li­zou no mo­vi­men­to sin­di­cal e que por on­de pas­sa con­ti­nua a ar­ras­tar multidões. A ates­tar es­se mag­ne­tis­mo es­tá o acam­pa­men­to que des­de Abril es­tá mon­ta­do per­to do edi­fí­cio da Po­lí­cia Fe­de­ral em Curitiba, on­de Lula es­tá pre­so.

O gran­de de­sa­fio da cam­pa­nha “pe­tis­ta” é re­du­zir es­se fos­so entre as du­as per­so­na­li­da­des, ou se­ja, tor­nar Had­dad mais co­nhe­ci­do, sa­ben­do, po­rém, que nun­ca irá gran­je­ar o apoio que Lula con­ti­nua a re­ce­ber — as son­da­gens apre­sen­tam-no co­mo o po­lí­ti­co mais po­pu­lar do país com uma con­for­tá­vel dis­tân­cia do ul­tra­con­ser­va­dor Jair Bolsonaro.

Es­se pro­ces­so é fei­to de pe­que­nos pas­sos. Um de­les é a for­ma co­mo se pro­nun­cia o no­me do can­di­da­to. Es­ta se­ma­na, o PT di­vul­gou um ví­deo em que vá­ri­as pes­so­as apa­re­cem a di­zer o no­me de Had­dad de ma­nei­ras di­fe­ren­tes — há quem lhe cha­me Ha­di, Hai­der e Ha­dá­lio. A men­sa­gem Can­di­da­to pre­si­den­ci­al pe­lo Par­ti­do dos Tra­ba­lha­do­res sub­ja­cen­te da cam­pa­nha é a de que não im­por­ta não sa­ber pro­nun­ci­ar o no­me do can­di­da­to, mas sim sa­ber que ele foi o es­co­lhi­do por Lula.

A tó­ni­ca da cam­pa­nha na iden­ti­fi­ca­ção entre Lula e Had­dad tem por ba­se a ele­va­da po­pu­la­ri­da­de de Lula, por um la­do, e o des­co­nhe­ci­men­to de Had­dad pe­los bra­si­lei­ros, por ou­tro. Son­da­gens em Agos­to mos­tra­vam que Had­dad era des­co­nhe­ci­do pa­ra 40% do elei­to­ra­do, a per­cen­ta­gem mais ele­va­da entre os fa­vo­ri­tos pa­ra as elei­ções de 7 de Ou­tu­bro.

Ain­da an­tes de Lula ter fi­ca­do ofi­ci­al­men­te fora da corrida, Had­dad an­da­va já a ten­tar mos­trar-se pe­lo país. As pri­mei­ras se­ma­nas de cam­pa­nha, en­tão co­mo can­di­da­to a vi­ce­pre­si­den­te, foram pas­sa­das no Nor­des­te e nos ar­re­do­res in­dus­tri­ais de São Pau­lo. No Nor­des­te, es­pe­ra-se uma du­ra ba­ta­lha pe­los vo­tos do elei­to­ra­do mais pobre entre Had­dad e Ci- ro Go­mes, ex-go­ver­na­dor do Ce­a­rá.

Em São Pau­lo, a mis­são de Had­dad é dis­tin­ta. O man­da­to co­mo au­tar­ca tor­nou-o co­nhe­ci­do, mas tam­bém o dei­xou fra­gi­li­za­do pe­ran­te o elei­to­ra­do urbano. A sua ges­tão à fren­te da câ­ma­ra da mai­or ci­da­de brasileira, entre 2012 e 2016, não é con­sen­su­al. A su­bi­da dos pre­ços dos trans­por­tes pú­bli­cos acen­deu o ras­ti­lho dos pro­tes­tos que a par­tir de 2013 su­bi­ram de tom e se tor­na­ram uma re­jei­ção ampla a toda a clas­se po­lí­ti­ca. A sua apos­ta foi em pla­nos estruturais pa­ra re­de­se­nhar os aces­sos ao cen­tro da ci­da­de, co­mo a cons­tru­ção de uma ciclovia, um pro­gra­ma de ur­ba­nis­mo pa­ra re­vo­lu­ci­o­nar o es­pa­ço pú­bli­co ao lon­go da próxima dé­ca­da. Aca­bou por per­der a re­e­lei­ção lo­go à pri­mei­ra vol­ta con­tra João Do­ria.

Os ana­lis­tas são unâ­ni­mes em apon­tar um for­te po­ten­ci­al de cres­ci­men­to da can­di­da­tu­ra de Had­dad, que par­te de um pa­ta­mar mui­to bai­xo nos úl­ti­mos me­ses, em que an­dou sem­pre per­to dos 5% das in­ten­ções de vo­tos. As pri­mei­ras son­da­gens após o afas­ta­men­to de­fi­ni­ti­vo de Lula mos­tram que a trans­fe­rên­cia de apoio já co­me­çou, mas ain­da não é su­fi­ci­en­te pa­ra que Had­dad as­se­gu­re uma pas­sa­gem à se­gun­da vol­ta.

O can­di­da­to não se pre­o­cu­pa, nem com son­da­gens nem com o pou­co co­nhe­ci­men­to que o elei­to­ra­do tem dele. Num pod­cast da can­di­da­tu­ra, lem­bra­va re­cen­te­men­te que já pas­sou por al­go se­me­lhan­te: “Em São Pau­lo co­me­cei co­mo Adal­to, ter­mi­nei co­mo Had­dad e ganhei a elei­ção.”

Em São Pau­lo co­me­cei co­mo Adal­to, ter­mi­nei co­mo Had­dad e ganhei a elei­ção

joao.ruela@pu­bli­co.pt

PI­LAR OLIVARES/REUTERS

Had­dad tem ten­ta­do apro­xi­mar-se das ba­ses do PT

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