Cons­tru­ção pede ‘via ver­de’ para tra­zer an­go­la­nos para Portugal

Vi­si­ta Costa ater­ra em Lu­an­da para uma nova fa­se de relações fei­ta de “no­vos pro­ta­go­nis­tas” Acor­dos Ex­por­ta­ções por­tu­gue­sas para Angola caí­ram 15% este ano. Em­pre­sas con­ti­nu­am a acre­di­tar Angola “As pes­so­as vol­ta­ram a ter es­pe­ran­ça”, mas con­ti­nu­am sem p

Edição Público Porto - - PRIMEIRA PÀGINA - São Jo­sé Al­mei­da sao.jo­se.al­mei­da@pu­bli­co.pt

“Es­ta é uma vi­a­gem a olhar para o fu­tu­ro”, de­cla­rou o pri­mei­ro-mi­nis­tro, António Costa, ao PÚ­BLI­CO so­bre a vi­si­ta ofi­ci­al a Angola, on­de ater­ra hoje, e que se pro­lon­ga até ter­ça-fei­ra, dia em que se en­con­tra com o Presidente da Re­pú­bli­ca an­go­la­no, João Lourenço.

É uma pers­pec­ti­va op­ti­mis­ta so­bre o fu­tu­ro das relações bi­la­te­rais luso-an­go­la­nas que António Costa transmite, quan­to à nova fa­se que pre­ten­de ini­ci­ar de re­la­ci­o­na­men­to en­tre os dois Es­ta­dos, ao sa­li­en­tar que ela se faz com “no­vos pro­ta­go­nis­tas”, nu­ma alu­são ex­plí­ci­ta à mudança de po­der que ocor­reu em Angola, com João Lourenço a subs­ti­tuir Jo­sé Edu­ar­do dos Santos, mas tam­bém ao fac­to de a normalização das relações bi­la­te­rais se dar durante o seu man­da­to co­mo pri­mei­ro-mi­nis­tro.

O pri­mei­ro-mi­nis­tro sa­li­en­ta, por ou­tro lado, a forma co­mo es­ta nova eta­pa de re­la­ci­o­na­men­to bi­la­te­ral se vai con­cre­ti­zar e ex­pli­ca que ha­ve­rá um “no­vo acor­do de cooperação es­tra­té­gi­ca, abrin­do a no­vos do­mí­ni­os”.

Segundo António Costa, abre-se as­sim a por­ta no pla­no eco­nó­mi­co a um “no­vo am­bi­en­te com acor­do de du­pla tri­bu­ta­ção e nova li­nha de crédito de ga­ran­tia às ex­por­ta­ções”. Tam­bém se en­tra num no­vo pa­ta­mar no do­mí­nio das relações in­ter­na­ci­o­nais ao ini­ci­ar-se uma “nova par­ce­ria para re­for­çar relações en­tre a União Eu­ro­peia e Áfri­ca”.

O op­ti­mis­mo de António Costa so­bre es­ta vi­si­ta ofi­ci­al le­va-o a con­cluir: “Em su­ma, uma vi­a­gem que mos­tra que, mais do que pe­lo pas­sa­do, es­ta­mos li­ga­dos pe­lo fu­tu­ro.”

De­sen­vol­vi­men­to agrícola

En­tre as novidades que a vi­si­ta ofi­ci­al do pri­mei­ro-mi­nis­tro por­tu­guês a Angola tra­rá en­con­tram-se as ne­go­ci­a­ções com o Go­ver­no an­go­la­no so­bre a colaboração e apoio que Portugal vai dar ao de­sen­vol­vi­men­to da economia angolana, con­cre­ta­men­te no sec­tor agrícola.

É com es­sa fi­na­li­da­de que o mi­nis­tro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, in­te­gra a co­mi­ti­va ofi­ci­al, que in­clui ainda o mi­nis­tro dos Ne­gó­ci­os Es­tran­gei­ros, Augusto Santos Silva, e os se­cre­tá­ri­os de Estado dos Ne­gó­ci­os Es­tran­gei­ros e Cooperação, Teresa Ribeiro, da In­ter­na­ci­o­na­li­za­ção, Eu­ri­co Bri­lhan­te Dias, e adjunto e das Finanças, Ri­car­do Mourinho Fé­lix.

O encontro a dois en­tre António Costa e João Lourenço de­cor­re­rá na ter­ça-fei­ra, dia em que se re­a­li­za tam­bém uma reu­nião ple­ná­ria de mem­bros dos dois go­ver­nos. Durante es­ta vi­si­ta ofi­ci­al, cu­jo pri­mei­ro dia é dedicado a uma reu­nião com os em­pre­sá­ri­os por­tu­gue­ses se­di­a­dos em Angola e a um encontro com a co­mu­ni­da­de por­tu­gue­sa, se­rão as­si­na­dos vá­ri­os acor­dos bi­la­te­rais.

Um de­le é um pro­gra­ma de cooperação es­tra­té­gi­ca en­tre os dois Es­ta­dos com no­vas par­ce­ri­as, que foi preparado pe­los dois mi­nis­tros dos Ne­gó­ci­os Es­tran­gei­ros, Augusto Santos Silva e Ma­nu­el Augusto. Se­rá tam­bém assinado um acor­do de agi­li­za­ção das relações eco­nó­mi­cas. Ou­tro acor­do en­tre Portugal e Angola te­rá co­mo ob­jec­ti­vo aca­bar com a du­pla tri­bu­ta­ção, be­ne­fi­ci­an­do as em­pre­sas e os ci­da­dãos a título in­di­vi­du­al.

Costa e Lourenço irão tam­bém ne­go­ci­ar o pa­ga­men­to pe­lo Estado

an­go­la­no das dívidas exis­ten­tes a em­pre­sas por­tu­gue­sas e o des­blo­que­ar de li­nhas de crédito. Re­fi­ra-se que vi­vem em Angola mais de cem mil por­tu­gue­ses. A vi­si­ta ofi­ci­al de António Costa tem co­mo ob­jec­ti­vo sim­bó­li­co “si­na­li­zar que há paz e ami­za­de” en­tre os dois paí­ses e se­rá se­gui­da de uma vin­da do Presidente an­go­la­no a Portugal a 22 e 23 de No­vem­bro, de­cla­rou ao PÚ­BLI­CO um mem­bro do ga­bi­ne­te do pri­mei­ro-mi­nis­tro. A im­por­tân­cia destes mo­men­tos é sa­li­en­ta­da com ba­se no fac­to de que há oito anos que um Presidente an­go­la­no não vem a Portugal — a úl­ti­ma vi­si­ta foi de Jo­sé Edu­ar­do dos Santos em 2010 — e há se­te anos que um pri­mei­ro-mi­nis­tro por­tu­guês não vai a Angola — Pedro Pas­sos Co­e­lho foi o úl­ti­mo, em No­vem­bro de 2011. Costa e Lourenço já es­ti­ve­ram jun­tos no iní­cio des­te ano, num encontro que am­bos man­ti­ve­ram à mar­gem da reu­nião do Fórum Eco­nó­mi­co Mun­di­al em Da­vos, Suí­ça, em Ja­nei­ro.

Ul­tra­pas­sar o “ir­ri­tan­te”

As vi­a­gens dos dois che­fes de go­ver­no se­lam tam­bém o fim do con­fli­to en­tre os dois Es­ta­dos que se de­sen­ro­lou em tor­no do processo ju­di­ci­al decorrente da Ope­ra­ção Fizz, em que o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co por­tu­guês acu­sa­va o ex-vi­ce-presidente de Angola Ma­nu­el Vi­cen­te dos cri­mes de cor­rup­ção ac­ti­va, bran­que­a­men­to de ca­pi­tais e fal­si­fi­ca­ção de do­cu­men­to.

Este ca­so aca­bou por con­ta­mi­nar tam­bém o processo de de­ci­são so­bre a re­con­du­ção ou não de Jo­a­na Mar­ques Vi­dal no car­go de pro­cu­ra­do­ra­ge­ral da Re­pú­bli­ca. Is­to, por­que o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co, que é tu­te­la­do por Mar­ques Vi­dal, re­sis­tiu a que o processo fos­se jul­ga­do fora de Portugal.

O di­fe­ren­do so­bre o ca­so Ma­nu­el Vi­cen­te fi­cou sa­na­do em Maio, qu­an­do o Tri­bu­nal da Re­la­ção de Lis­boa de­ci­diu que o processo au­tó­no­mo de Ma­nu­el Vi­cen­te seria trans­fe­ri­do para os tri­bu­nais an­go­la­nos, co­mo ti­nha si­do re­que­ri­do pela de­fe­sa do ex­vi­ce-presidente an­go­la­no. A de­ci­são foi to­ma­da de­pois de o pro­cu­ra­dor­ge­ral de Angola ter as­su­mi­do que não acei­ta­ria de­fe­rir uma car­ta ro­ga­tó­ria en­vi­a­da pela Justiça por­tu­gue­sa para que Ma­nu­el Vi­cen­te fos­se cons­ti­tuí­do ar­gui­do em Portugal.

Re­a­gin­do à de­ci­são da Re­la­ção, o pri­mei­ro-mi­nis­tro, António Costa, con­gra­tu­lou-se, usan­do uma expressão que fi­ca­ria co­la­da a este ca­so e à tensão en­tre os dois Es­ta­dos: “Fi­co fe­liz que o úni­co ir­ri­tan­te [ca­so Ma­nu­el Vi­cen­te] de­sa­pa­re­ça.” O pró­prio Presidente da Re­pú­bli­ca, Mar­ce­lo Re­be­lo de Sou­sa, re­pro­du­zi­ria a expressão. “Se quem tem po­der de de­ci­dir de­ci­de is­so, is­so sig­ni­fi­ca que há uma trans­fe­rên­cia e, se for esse o ca­so, de­sa­pa­re­ce o ir­ri­tan­te”, afir­mou Mar­ce­lo em Maio.

A normalização das relações en­tre Portugal e Angola ini­ci­ou-se en­tão com a vi­si­ta do mi­nis­tro da De­fe­sa, Aze­re­do Lopes, a Lu­an­da. Em si­mul­tâ­neo, o Go­ver­no an­go­la­no no­me­ou a 17 de Maio o no­vo embaixador em Lis­boa, Car­los Alberto Fonseca, em substituição de Jo­sé Mar­cos Bar­ri­ca, que ti­nha si­do man­da­do re­gres­sar em Abril em pro­tes­to con­tra a re­cu­sa da Justiça por­tu­gue­sa de en­vi­ar para Angola o processo Ma­nu­el Vi­cen­te.

António Costa e João Lourenço já es­ti­ve­ram jun­tos este ano em Da­vos

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