U2 tra­zem a Lis­boa uma Eu­ro­pa em cri­se

Te­re­mos política com o estado da Eu­ro­pa em des­ta­que. Um pal­co sin­gu­lar. A pre­sen­ça de Ana Mou­ra. E o úl­ti­mo ál­bum mis­tu­ra­do com os êxi­tos do pas­sa­do. Os U2 es­tão em Lis­boa, para tocar hoje e ama­nhã

Edição Público Porto - - PRIMEIRA PÀGINA - Ví­tor Be­lan­ci­a­no vbe­lan­ci­a­no@pu­bli­co.pt DANNY NORTH

Já se sa­be. Um con­cer­to dos U2 é sem­pre uma mis­tu­ra de música, jogo cé­ni­co on­de se re­cor­re às mais re­cen­tes tec­no­lo­gi­as e tam­bém um ac­to po­lí­ti­co. Os de hoje e ama­nhã, no Al­ti­ce Are­na de Lis­boa, não se­rão di­fe­ren­tes. Num mundo ca­da vez mais cí­ni­co con­ti­nu­am hu­ma­nis­tas, ape­sar de mui­tos lhes ati­ra­rem à ca­ra que ser-se ide­a­lis­ta e uma das ban­das mais ri­cas do mundo po­de cons­ti­tuir uma con­tra­di­ção. Bono ri­pos­ta que pa­ra­do­xo é que­rer mu­dar o sis­te­ma a par­tir de fora. “Pos­so fre­quen­tar os cor­re­do­res do po­der, mas não dei­xo de ser eu pró­prio por causa dis­so”, ar­gu­men­ta­va há anos. A ver­da­de é es­ta. Os U2 são enor­mes em tu­do. No número de ad­mi­ra­do­res. Mas tam­bém nos de­trac­to­res.

Não deixam qua­se nin­guém in­di­fe­ren­te. É por is­so que deixam ras­to por on­de pas­sam. Es­ta se­rá a sex­ta vez dos U2 em Portugal, oito anos de­pois de dois con­cer­tos lo­ta­dos no Estádio Ci­da­de de Coimbra em 2010, de três ac­tu­a­ções no Estádio de Al­va­la­de em Lis­boa (1993, 1997 e 2005) e da pre­sen­ça no fes­ti­val Vilar de Mouros de 1982. As últimas gran­des di­gres­sões do gru­po não pas­sa­ram pe­lo país — com des­ta­que para a

In­no­cen­ce + Ex­pe­ri­en­ce de 2015 e a do ano pas­sa­do em tor­no de The Joshua

Tree (1987) e que o PÚ­BLI­CO viu em Bar­ce­lo­na —, sen­do por is­so na­tu­ral o en­tu­si­as­mo, com bilhetes a se­rem dis­pu­ta­dos, até por­que se­rá tam­bém a pri­mei­ra vez que se mos­tra­rão num es­pa­ço fe­cha­do por aqui.

Es­sa cir­cuns­tân­cia po­de ge­rar um ti­po de en­vol­vi­men­to di­fe­ren­te de num estádio. Mas se­ja­mos jus­tos — nós que já os vi­mos em di­fe­ren­tes con­tex­tos, nes­se pla­no em par­ti­cu­lar, nunca nos de­si­lu­di­mos. É co­mo se con­se­guis­sem trans­for­mar qual­quer lo­cal na sua sa­la de es­tar. Os U2 não de­sis­tem de apre­sen­tar es­pec­tá­cu­los cé­ni­ca e tec­no­lo­gi­ca­men­te de­sa­fi­an­tes. Pro­du­zem com so­fis­ti­ca­ção, mas para trans­mi­tir sim­pli­ci­da­de e grande efi­cá­cia, in­de­pen­den­te­men­te dos pal­cos. Em Lis­boa acon­te­ce­rá o mes­mo, ha­ven­do um ce­ná­rio com múl­ti­plos pal­cos, um sis­te­ma de som ino­va­dor e um no­vo ecrã de ele­va­da re­so­lu­ção. E cla­ro, de­pois, ha­ve­rá a música.

O úl­ti­mo ál­bum do gru­po, o 14.º de es­tú­dio, Songs of Ex­pe­ri­en­ce (2017), es­te­ve lon­ge de en­tu­si­as­mar na ple­ni­tu­de, mas se­rá esse re­gis­to a atri­buir sen­ti­do à di­gres­são Ex­pe­ri­en­ce + In­no­cen­ce que ago­ra passa por Portugal. De­pois de con­cer­tos nos Es­ta­dos Uni­dos, o gru­po ini­ci­ou a ron­da eu­ro­peia a 31 de Agos­to em Ber­lim, num con­cer­to mar­ca­do pela per­da da voz de Bono. O pro­ble­ma foi su­pe­ra­do e des­de en­tão têm-se su­ce­di­do os es­pec­tá­cu­los, com o gru­po a re­flec­tir e ao mes­mo tem­po a ce­le­brar a Eu­ro­pa en­quan­to entidade política e cul­tu­ral, num mo­men­to his­tó­ri­co em que a União Eu- ro­peia so­fre mui­tos re­ve­ses, não só com o “Bre­xit”, mas tam­bém com a mai­or vi­si­bi­li­da­de da ex­tre­ma­di­rei­ta em al­guns paí­ses. Ana Mou­ra e Po­verty Is Se­xist Não é, aliás, por aca­so que o con­cer­to se ini­ci­a­rá com ima­gens de O

Grande Di­ta­dor (1940), o fil­me sa­tí­ri­co de Charlie Cha­plin, ha­ven­do tam­bém re­gis­tos cap­ta­dos, en­tre 1926 e 1946, de al­gu­mas ci­da­des eu­ro­pei­as em ruínas — ou se­ja, o pas­sa­do da Eu­ro­pa, o am­bi­en­te so­ci­o­po­lí­ti­co que se res­pi­ra ac­tu­al­men­te e o seu fu­tu­ro irão es­tar em des­ta­que num es­pec­tá­cu­lo em que de­ve­rão tocar cerca de 20 can­ções.

Na ac­tu­a­li­da­de os U2 até se po­di­am dar ao lu­xo de não gra­var dis­cos, li­mi­tan­do-se a ser adu­la­dos pe­lo seu pas­sa­do. Mas eles pre­fe­rem ex­por-se. Não se que­rem es­con­der ape­nas atrás do su­ces­so. É por is­so que se fa­rá ou­vir uma mis­tu­ra de pre­sen­te e pas­sa­do, pres­cin­din­do o gru­po nes­ta di­gres­são de tocar su­ces­sos tão trans­ver­sais co­mo

Bad, With or without you, I still ha­ven’t found what i’m lo­o­king for ou Whe­re the stre­ets ha­ve no na­me, sem­pre um dos pontos al­tos das di­gres­sões das últimas dé­ca­das. Mas se re­pe­ti­rem o ali­nha­men­to dos con­cer­tos re­cen­tes de Pa­ris far-se-ão ou­vir can­ções co­mo Be­au­ti­ful day, Ele­va­ti­on, Sun­day blo­ody Sun­day, I will fol­low, Un­til the end of the world, Pri­de (In the na­me of lo­ve), New ye­ar’s day ou City of blin­ding lights. A abrir têm apre­sen­ta­do The blac­kout e a fe­char 13 (The­re is a light), am­bas do úl­ti­mo ál­bum. Um dos mo­men­tos al­tos pro­me­te acontecer qu­an­do a can­to­ra por­tu­gue­sa Ana Mou­ra, con­vi­da­da pe­lo gru­po, ir­rom­per em cena, o que acon­te­ce­rá na al­tu­ra em que for trans­mi­ti­do o ví­deo de um co­ro que can­ta Wo­men of the world, de Ivor Cu­tler, in­te­gra­da na cam­pa­nha

Po­verty Is Se­xist, em que é fei­ta a associação en­tre de­si­gual­da­de de gé­ne­ro e po­bre­za ex­tre­ma.

De res­to, o gru­po es­tá em Lis­boa des­de sex­ta-fei­ra. Eles e todo o apa­ra­to que um even­to des­te gé­ne­ro de­sen­ca­deia, com 120 pes­so­as e 31 ca­miões, para apoi­a­rem o ce­ná­rio que irá con­tem­plar dois pal­cos (um de­les em forma rec­tan­gu­lar e o ou­tro cir­cu­lar) e uma pas­sa­dei­ra que os une, so­bre a qual es­ta­rá dis­pos­to o ecrã gi­gan­te. Tu­do a pos­tos, por­tan­to. Fa­ça-se ou­vir a música.

Os U2 não de­sis­tem de apre­sen­tar es­pec­tá­cu­los ce­ni­ca­men­te e tec­no­lo­gi­ca­men­te de­sa­fi­an­tes

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