Vítimas do fran­quis­mo

“Di­zem que não se po­de abrir no­vas fe­ri­das. Mas as fe­ri­das não se fe­cha­ram”

Edição Público Porto - - PRIMEIRA PÀGINA - Ma­nu­el Lou­ro em Ma­drid ma­nu­el.lou­ro@pu­bli­co.pt

Pa­blo Mayo­ral e Be­ni­to Laiz foram pre­sos nos anos de 1970, na úl­ti­ma va­ga de re­pres­são do fran­quis­mo, que já de­caía. Pas­sa­dos mais de 40 anos, de­fen­dem a exu­ma­ção do di­ta­dor do Vale dos Caí­dos. Mas avi­sam: “Di­zem que não se po­de abrir no­vas fe­ri­das. Mas as fe­ri­das não se fe­cha­ram”

No Verão de 1975, o re­gi­me fran­quis­ta da­va os úl­ti­mos sus­pi­ros. Pa­blo Mayo­ral, que era do Par­ti­do Co­mu­nis­ta e ti­nha aju­da­do a de­sen­vol­ver a Frente Re­vo­lu­ci­o­ná­ria An­ti­fas­cis­ta e Pa­tri­o­ta (FRAP, ile­gal à época), foi de­ti­do e acusado de par­ti­ci­par no as­sas­sí­nio de um polícia e de um mi­li­tar. Num pri­mei­ro mo­men­to, foi con­de­na­do à mor­te. A se­guir, a pe­na foi alterada para 30 anos de prisão. Cum­priu dois — Fran­co mor­reu, a tran­si­ção co­me­çou e a Lei da Am­nis­tia ti­rou-o da ca­deia.

Pas­sa­dos mais de 40 anos so­bre o fim da di­ta­du­ra fran­quis­ta, o Go­ver­no socialista es­pa­nhol quer olhar para o pas­sa­do, apa­gar os sím­bo­los que so­bra­ram e pro­cu­rar re­con­ci­li­a­ção. A exu­ma­ção do cor­po de Fran­cis­co Fran­co do mau­so­léu do Vale dos Caí­dos é o pri­mei­ro pas­so. “É uma ques­tão de saú­de de­mo­crá­ti­ca”, diz Mayo­ral ao PÚ­BLI­CO. Mas fal­ta muito mais.

Pe­ran­te a in­ca­pa­ci­da­de, ou a fal­ta de von­ta­de, do Estado es­pa­nhol em levar res­pon­sá­veis da di­ta­du­ra ao banco dos réus, Mayo­ral ar­re­ga­çou as man­gas e fun­dou, em 2012, uma associação de ex-pre­sos do fran­quis­mo cha­ma­da La Co­mu­na Presxs de Fran­quis­mo. O ob­jec­ti­vo é jul­gar os tor­tu­ra­do­res ainda vi­vos.

A se­de da La Co­mu­na es­tá ocu­pa­da e o encontro com o PÚ­BLI­CO foi num ho­tel no cen­tro de Ma­drid. Pa­blo Mayo­ral che­ga com Be­ni­to Laiz, co­la­bo­ra­dor da associação e tam­bém pre­so po­lí­ti­co na di­ta­du­ra.

Nos pri­mei­ros tem­pos que pas­sou na prisão, Mayo­ral foi tor­tu­ra­do. Mas, diz, teve me­lhor sorte do que outros com­pa­nhei­ros. No con­se­lho de guer­ra que o jul­gou, 11 pes­so­as foram con­de­na­das à mor­te. “Das 11 con­de­na­ções, cinco foram levadas a ca­bo. Três eram da FRAP, dois eram militantes da [or­ga­ni­za­ção bas­ca] ETA. Fu­zi­la­ram três aqui em Ma­drid. Os outros exe­cu­ta­ram-nos em Bil­bau e em Bar­ce­lo­na”, lem­bra Mayo­ral.

Cinco anos an­tes, em De­zem­bro de 1970, Be­ni­to Laiz, que mi­li­ta­va na Or­ga­ni­za­ção Re­vo­lu­ci­o­ná­ria de Tra­ba­lha­do­res (ORT, tam­bém ile­gal), saía do es­cri­tó­rio de uma ad­vo­ga­da. Es­ta­va acusado de per­ten­cer a uma or­ga­ni­za­ção cri­mi­no­sa e ainda fu­giu, mas foi apanhado. Em Es­pa­nha, diz, vi­go­ra­va um “Estado de ex­cep­ção, on­de es­ta­vam sus­pen­sas as ga­ran­ti­as dos ci­da­dãos”.

“Levaram-me para a prisão nas Por­tas do Sol, em Ma­drid. Es­ti­ve ali 26 dias. Su­jei­ta­ram-me a inter- ro­ga­tó­ri­os de di­ver­sos ti­pos” — não diz quais; ne­nhum quer dar mui­tos pormenores so­bre o que so­freu. Aliás, Mayo­ral só em 2009 rom­peu o silêncio so­bre o tem­po na prisão.

Pros­se­gue Laiz: “Levaram-me de­pois para ou­tra prisão, de Ca­ra­ban­chel, e acu­sa­ram-me de associação ilí­ci­ta. Fi­nal­men­te fui jul­ga­do, mas re­ti­ra­ram a acu­sa­ção, por­que não con­se­gui­ram ar­ran­car-me na­da de con­cre­to nos in­ter­ro­ga­tó­ri­os.”

Crí­ti­cas à Lei de Am­nis­tia

Ser pre­so po­lí­ti­co na di­ta­du­ra de Fran­co não sig­ni­fi­ca­va “ape­nas” a ca­deia, os in­ter­ro­ga­tó­ri­os, as tor­tu­ras. As con­sequên­ci­as ar­ras­ta­ram-se para a vi­da lá fora, e não aca­ba­ram com a mor­te de Fran­co e a tran­si­ção pa­cí­fi­ca para a de­mo­cra­cia.

A Lei da Am­nis­tia, de 15 de Ou­tu­bro de 1977, li­ber­tou os pre­sos po­lí­ti­cos, fez de­sa­pa­re­cer as acu­sa­ções, mas ili­bou tam­bém os res­pon­sá­veis do re­gi­me e seus cri­mes, os jul­ga­men­tos su­má­ri­os, as exe­cu­ções, a tor­tu­ra, os de­li­tos de lesa-hu­ma­ni­da­de que al­guns ten­ta­ram levar à Justiça.

De­pois de li­ber­ta­do, Laiz foi des­pe­di­do da fá­bri­ca on­de tra­ba­lha­va co­mo quí­mi­co e director téc­ni­co. “A Lei da Am­nis­tia dei­xou na rua os tra­ba­lha­do­res des­pe­di­dos por ques­tões po­lí­ti­cas”. A lei foi omis­sa em mui­tas ma­té­ri­as, co­mo o em­pre­go das vítimas. “Não ha­via pos­si­bi­li­da­de de re­ad­mis­são”, diz Laiz.

Qu­an­do Mayo­ral e Laiz foram pre­sos, es­ta­va-se no período do “tar­do­fran­quis­mo”. O re­gi­me, em de­ca­dên­cia — até de­vi­do à ida­de do “cau­di­lho” —, lu­ta­va pela so­bre­vi­vên­cia in­ten­si­fi­can­do a re­pres­são. Fran­co mor­reu em No­vem­bro de 1975, aos 82 anos, e com ele caiu o re­gi­me re­pres­si­vo e au­to­ri­tá­rio que inau­gu­rou com a vitória sangrenta na Guer­ra

Ci­vil (1936-1939) con­tra a re­pú­bli­ca, que depôs num gol­pe mi­li­tar.

Se­guiu-se a tran­si­ção e a Lei da Am­nis­tia, polémica e muito criticada, e que os an­ti­gos pre­sos di­zem ser um dos prin­ci­pais obs­tá­cu­los ao que es­tá por fa­zer: jul­gar os res­pon­sá­veis pe­los cri­mes do fran­quis­mo, por­que as fe­ri­das con­ti­nu­am aber­tas.

Pri­mei­ro pas­so

O le­ga­do fran­quis­ta vol­tou, ao fim de mui­tos anos, ao de­ba­te po­lí­ti­co. O Go­ver­no do PSOE, li­de­ra­do por Pedro Sán­chez, vai mes­mo avan­çar com a exu­ma­ção dos res­tos mor­tais de Fran­co do Vale dos Caí­dos e procura uma forma de re­con­ver­ter o mo­nu­men­to. O ob­jec­ti­vo é ini­ci­ar um processo mais amplo de re­con­ci­li­a­ção, en­fren­tan­do a som­bra da di­ta­du­ra que ainda pai­ra em Es­pa­nha.

“Ti­rar os res­tos de Fran­co, de um di­ta­dor, de um cri­mi­no­so, de um sí­tio de especial im­por­tân­cia co­mo o Vale dos Caí­dos é ne­ces­sá­rio e im­por­tan­te. É o úni­co mo­nu­men­to a um di­ta­dor que há em todo o mundo [de­mo­crá­ti­co]”, diz Mayo­ral. “É uma ques­tão de saú­de de­mo­crá­ti­ca.”

“Em sen­ti­do fi­gu­ra­do, a la­je que ali es­tá es­tá so­bre o po­vo de Es­pa­nha”, acres­cen­ta. “Não ti­rá­mos ainda es­ta la­je, por­que os fran­quis­tas con­ti­nu­am a man­dar muito e há muito me­do de dar qual­quer pas­so con­tra a di­ta­du­ra e os seus res­pon­sá­veis.”

Laiz con­cor­da que a “exu­ma­ção é cor­rec­ta”. Mas avi­sa que “é só uma pe­que­na parte do as­sun­to”. “É im­por­tan­te do pon­to de vista da ima­gem. Em ne­nhum país de­mo­crá­ti­co há um mo­nu­men­to des­te ti­po. Mas, cla­ro, es­tes ga­nha­ram a guer­ra. A Ale­ma­nha perdeu. Não po­de­mos es­que­cer is­to”, de­cla­ra.

Am­bos não têm dú­vi­das de que a exu­ma­ção do “cau­di­lho” seria uma “ale­gria”, até in­ter­na­ci­o­nal­men­te: “Para os re­sis­ten­tes fran­ce­ses, italianos, para todo o mundo. Para to­dos os que lu­ta­ram con­tra a di­ta­du­ra fas­cis­ta e na­zi.” Po­rém, a ac­tu­al procura de re­con­ci­li­a­ção não es­tá isen­ta de crí­ti­cas e de cep­ti­cis­mo.

“Fo­mos con­de­na­dos por es­ta di­ta­du­ra a mui­tos anos de prisão, so­fre­mos tor­tu­ras, e ve­mos que os res­pon­sá­veis con­ti­nu­am por aí. E con­ti­nu­am a vi­ver dos ac­tos que co­me­te­ram”, acu­sa Mayo­ral, lan­çan­do para ci­ma da me­sa aque­la que é a sua prin­ci­pal prioridade: a justiça.

“Não pe­di­mos vingança”

Durante anos, a associação a que pre­si­de Pa­blo Mayo­ral tem ten­ta­do levar aos tri­bu­nais res­pon­sá­veis pe­las tor­tu­ras e pela re­pres­são. To­dos os pro­ces­sos foram tra­va­dos. O ar­gu­men­to é sem­pre o mes­mo: “Os cri­mes es­tão pres­cri­tos — o que não é ver­da­de, os cri­mes con­tra a hu­ma­ni­da­de não pres­cre­vem —, e a Lei da Am­nis­tia exo­ne­ra os res­pon­sá­veis da di­ta­du­ra, fos­sem quais fos­sem os cri­mes.”

“Nos tri­bu­nais foram apre­sen­ta­dos mais de 20 pro­ces­sos que foram re­jei­ta­dos”, diz Laiz, de­fen­den­do que este é o prin­ci­pal en­tra­ve a um even­tu­al processo de re­con­ci­li­a­ção. “Es­sa seria a grande mudança — a al­te­ra­ção da Lei da Am­nis­tia, que já foi pro­pos­ta no Congresso, para que os tri­bu­nais não re­jei­tem sis­te­ma­ti­ca­men­te as dis­pu­tas ju­di­ci­ais.”

Nes­te con­fron­to com o pas­sa­do, já foi apro­va­da, em 2007 e por um go­ver­no socialista (de Jo­sé Luís Za­pa­te­ro), a Lei da Me­mó­ria His­tó­ri­ca, que previa in­dem­ni­za­ções para os pre­sos po­lí­ti­cos, mas não mudou em na­da a Lei da Am­nis­tia. Os go­ver­nos conservadores do Par­ti­do Po­pu­lar con­ge­la­ram a Lei de Za­pa­te­ro, ar­gu­men­tan­do com ra­zões or­ça­men­tais. Pedro Sán­chez re­a­briu o te­ma, mas tem si­do omis­so so­bre a pos­sí­vel cri­mi­na­li­za­ção dos res­pon­sá­veis.

Mayo­ral e Laiz in­sis­tem: o que é pre­ci­so é justiça. “Não queremos uma re­con­ci­li­a­ção com a di­ta­du­ra fas­cis­ta. Queremos justiça. Em fun­ção da re­con­ci­li­a­ção cri­ou-se uma in­jus­ti­ça, evi­tar a res­pon­sa­bi­li­da­de dos cri­mi­no­sos”, ati­ra Laiz.

“Po­li­ti­ca­men­te, a con­de­na­ção do fran­quis­mo e da di­ta­du­ra es­tá cla­ra. Exi­gi­mos é que se le­ve is­to para a via ju­di­ci­al. Não es­ta­mos a pe­dir vingança. Es­ta­mos a pe­dir justiça!”

“Di­zem que não se po­de abrir no­vas fe­ri­das. Mas as fe­ri­das não se fe­cha­ram. Este é o pro­ble­ma. A re­con­ci­li­a­ção é uma co­ber­tu­ra para não se fa­zer na­da”, ga­ran­te Laiz. “Sem justiça não po­de ha­ver re­con­ci­li­a­ção.”

Mayo­ral vai mais lon­ge e en­glo­ba os go­ver­nos es­pa­nhóis dos úl­ti­mos anos nes­ta crí­ti­ca: “Es­ti­ve­ram mais pre­o­cu­pa­dos em pro­te­ger os fran­quis­tas de que com a justiça.”

O pla­no de Sán­chez pre­vê a re­con- ver­são do Vale dos Caí­dos, mo­nu­men­to er­gui­do por Fran­co, cu­ja cons­tru­ção du­rou de 1940 a 1959 e na qual par­ti­ci­pa­ram cerca de 20 mil pre­sos re­pu­bli­ca­nos, que re­du­zi­am a sua pe­na em tro­ca do trabalho; mui­tos mor­re­ram de­vi­do às duras con­di­ções.

Num pri­mei­ro mo­men­to, o fran­quis­mo anun­ci­ou que o me­ga­ló­ma­no mo­nu­men­to seria uma homenagem “aos caí­dos na glo­ri­o­sa cru­za­da”, os na­ci­o­na­lis­tas que na Guer­ra Ci­vil der­ro­ta­ram os re­pu­bli­ca­nos. Pou­co tem­po de­pois da inau­gu­ra­ção, co­me­çou a fa­lar do mo­nu­men­to co­mo uma re­cor­da­ção dos mor­tos de am­bos os la­dos, de­pois de te­rem si­do tras­la­da­dos para ali os res­tos de milhares de pes­so­as que es­ta­vam em va­las co­muns es­pa­lha­das por to­da a Es­pa­nha. Es­tão no Vale dos Caí­dos 34 mil vítimas da Guer­ra Ci­vil.

“Vale dos Caí­dos é apa­gá-lo”

“A cruz, a ba­sí­li­ca e tu­do o que ali há é um mo­nu­men­to fas­cis­ta. Foi de­se­nha­do em 1940, em ple­na as­cen­são das di­ta­du­ras fas­cis­tas. A di­ta­du­ra hi­tle­ri­a­na mos­tra­va as su­as gar­ras por to­da a Eu­ro­pa. O Vale dos Caí­dos foi concebido co­mo um mo­nu­men­to à ‘cru­za­da’, à vitória na guer­ra”, ex­pli­ca Pa­blo Mayo­ral.

O pro­ble­ma ago­ra, mais do que a exu­ma­ção de Fran­co — já apro­va­da pe­los de­pu­ta­dos —, é o fu­tu­ro do mo­nu­men­to. O que fa­zer com o Vale dos Caí­dos é uma pergunta para a qual não exis­te res­pos­ta con­sen­su­al.

Po­rém, Mayo­ral não tem dú­vi­das: “Este mo­nu­men­to não po­de con­ti­nu­ar de pé. Eu sou partidário de ti­rar os res­tos de to­dos os que con­ti­nu­am ali e apa­gá-lo.”

“Eu, de­pois de o apa­gar, não re­ti­ra­ria nem uma pe­dra do en­tu­lho e dei­xa­ria vi­sí­vel o trabalho de tan­tos re­pu­bli­ca­nos es­cra­vos. Mas di­zen­do cla­ra­men­te que aqui ha­via um mo­nu­men­to fas­cis­ta que foi cons­truí­do por es­cra­vos re­pu­bli­ca­nos que lu­ta­ram para de­fen­der a le­ga­li­da­de. Is­so seria reconstruir a História”, acres­cen­ta. “Re­con­ci­li­a­ção não é man­ter um mo­nu­men­to fran­quis­ta, fas­cis­ta.” Man­ter o Vale dos Caí­dos de pé, de­fen­de Mayo­ral, “não é re­con­ci­li­a­ção, é ig­no­rar mais uma vez to­dos os re­sis­ten­tes an­ti­fran­quis­tas”.

A conversa ter­mi­na e os an­ti­gos pre­sos do fran­quis­mo sus­pi­ram, co­mo se se li­ber­tas­sem de um pe­so. “Nós con­ti­nu­a­mos. Com 67 anos, tal­vez com me­nos ener­gia, mas con­ti­nu­a­mos — por­que é im­por­tan­te que se fa­ça justiça e que is­to nunca mais vol­te a ocor­rer”, diz Mayo­ral an­tes de se des­pe­dir. Ama­nhã: “Exu­ma­ção de Fran­co faz parte de um pla­no para con­ver­ter o Vale dos Caí­dos num par­que te­má­ti­co”

ELOY ALONSO/REU­TERS

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