“Este ti­po de cres­ci­men­to não pro­duz ri­que­za, pro­duz ri­cos”

En­tre­vis­ta A dias de dei­xar o car­go, presidente da Re­de Eu­ro­peia An­ti­po­bre­za cri­ti­ca fal­ta de es­tra­té­gia da UE

Edição Público Porto - - PRIMEIRA PÀGINA - Ana Cristina Pe­rei­ra

Fun­da­da em 1990, por im­pul­so da Co­mis­são Eu­ro­peia, a Re­de Eu­ro­peia An­ti­po­bre­za (EAPN) es­tá hoje re­pre­sen­ta­da em 31 paí­ses. O so­ció­lo­go Sérgio Ai­res as­su­miu, co­mo vo­lun­tá­rio, a li­de­ran­ça em 2012. “Era im­por­tan­te, até do pon­to de vista sim­bó­li­co, mas tam­bém do pon­to de vista prá­ti­co, que a EAPN fos­se li­de­ra­da por uma re­de na­ci­o­nal pe­ri­fé­ri­ca, do Sul da Eu­ro­pa, com in­ter­ven­ção da

troi­ka”, dis­se na al­tu­ra. À saída, a par dos si­nais de re­to­ma, vê no­vos perigos. A as­sem­bleia ge­ral ele­ge­rá ou­tra pes­soa no final de Setembro. Ai­res de­ve­rá man­ter-se co­mo de­le­ga­do do co­mi­té exe­cu­ti­vo por­tu­guês até 2020. A ní­vel pro­fis­si­o­nal, tra­ba­lha com a EAPNPor­tu­gal, o que in­clui di­ri­gir o Ob­ser­va­tó­rio da Lu­ta con­tra a Po­bre­za na Ci­da­de de Lis­boa.

O que en­con­trou qu­an­do as­su­miu a pre­si­dên­cia da EAPN?

Uma si­tu­a­ção muito com­pli­ca­da. Em Setembro de 2012 o director de­mi­tiu-se. Es­ta­va há 12 anos no car­go e que­ria mu­dar de vi­da. Em 2013 fui con­fron­ta­do com um cor­te no or­ça­men­to, que dei­xou a or­ga­ni­za­ção mais dé­bil do pon­to de vista dos re­cur­sos hu­ma­nos. A Co­mis­são Eu­ro­peia de­ci­diu re­du­zir o fi­nan­ci­a­men­to de or­ga­ni­za­ções co­mo a EAPN. Is­to teve que ver com um mo­vi­men­to mais glo­bal de re­du­ção da ca­pa­ci­da­de de or­ga­ni­za­ção e participação da so­ci­e­da­de ci­vil — uma ten­dên­cia apro­fun­da­da pela Co­mis­são Durão Bar­ro­so. E es­tá­va­mos em ple­no pi­co das con­sequên­ci­as da cri­se.

Cres­cia o número de pobres em Portugal e em vá­ri­os paí­ses eu­ro­peus...

Sim. Lem­bro-me do pri­mei­ro discurso que fiz, em Bruxelas, nu­ma con­fe­rên­cia eu­ro­peia. Dis­se que a po­bre­za é um ris­co para a de­mo­cra­cia, que ha­via si­nais cres­cen­tes de po­pu­lis­mo e que as coi­sas po­di­am cor­rer muito mal. No fim, Lász­ló An­dor, co­mis­sá­rio eu­ro­peu do Em­pre­go, dos As­sun­tos Sociais e da In­clu­são, veio ter co­mi­go: “Você fez um discurso pes­si­mis­ta, de um ra­di­ca­lis­mo que eu não es­pe­ra­va na EAPN.” Em 2014, ele es­ta­va a di­zer a mes­ma coi­sa. Pas­sa­do pou­co tem­po, Durão Bar­ro­so fa­zia um discurso do estado da União em que re­co­nhe­cia o fra­cas­so no com­ba­te à po­bre­za.

Es­sa “nova consciência” trou­xe mu­dan­ças?

Trou­xe. Na Es­tra­té­gia Eu­ro­pa 2020 ha­via du­as coi­sas fundamentais, que tí­nha­mos pe­di­do. Pri­mei­ro, uma me­ta: a re­du­ção, em número, de 20 milhões de pes­so­as em ris­co de po­bre­za. Nunca a UE ti­nha ti­do uma me­ta des­tas. Segundo, 20% do Fun­do So­ci­al Eu­ro­peu ti­nha de ir para o com­ba­te à po­bre­za. Is­so era fan­tás­ti­co, mas, in­fe­liz­men­te, não se es­ta­be­le­ce­ram pri­o­ri­da­des, for­mas de in­ter­ven­ção, res­pon­sa­bi­li­da­des e, aci­ma de tu­do, pu­ni­ções para quem não cum­pris­se. No Con­se­lho Eu­ro­peu só se con­se­guiu atin­gir um acor­do para a re­du­ção de 12 milhões. A fal­ta de am­bi­ção era pre­mo­ni­tó­ria.

Durante a cri­se, de­nun­ci­ou vá­ri­as ve­zes a ten­dên­cia para atri­buir a po­bre­za à má sorte ou à pre­gui­ça. Is­so mudou?

Não. E acen­tu­ou-se o con­fli­to en­tre os “no­vos pobres” e os outros. Qu­an­do fa­la­vam da nova po­bre­za, ti­ra­vam-me do sé­rio. Es­ta­vam a es­ta­be­le­cer uma fron­tei­ra en­tre os que me­re­ci­am ser apoi­a­dos e os que não me­re­ci­am. Era co­mo se aque­les milhões que já eram pobres não saís­sem da­li por­que não que­ri­am. Es­que­cem-se que 10% dos tra­ba­lha­do­res são pobres. Es­que­cem-se que mui­tos pobres são cri­an­ças e ido­sos com bai­xas pen­sões. E há os de­fi­ci­en­tes, os do­en­tes. Bas­ta di­zer is­to para des­mon­tar tu­do? Quan­tas ve­zes es­ta or­ga­ni­za­ção já dis­se is­to? E fez es­tu­dos, or­ga­ni­zou con­fe­rên­ci­as, pu­bli­cou livros? Es­tá a fal­tar qual­quer coi­sa. Não é à or­ga­ni­za­ção. É à so­ci­e­da­de. A EAPN tem apos­ta­do em pas­sar es­ta men­sa­gem à so­ci­e­da­de em ge­ral e às pes­so­as em si­tu­a­ção de po­bre­za em par­ti­cu­lar. Al­gu­mas pes­so­as em si­tu­a­ção de po­bre­za re­pro­du­zem os dis­cur­sos mais vi­o­len­tos: “O úni­co be­ne­fi­ciá­rio do RSI [ren­di­men­to so­ci­al de in­ser­ção] que me­re­ce sou eu.” Is­to é o discurso co­mum. Não é sem­pre, mas é co­mum e é pre­ci­so des­mon­tá-lo. No li­mi­te não ti­nha si­do difícil aca­bar com o RSI. A von­ta­de es­ta­va ins­ta­la­da.

E se ti­ves­sem aca­ba­do?

Aqui d’El Rei que ti­nha aca­ba­do! De­pois já to­dos me­re­ci­am! Es­tou a fa­lar do RSI, mas podia es­tar a fa­lar do sub­sí­dio de de­sem­pre­go, ape­sar de es­sa pres­ta­ção ter que ver com um direito, um se­gu­ro que se pa­ga. Al­guns paí­ses, e par­ti­cu­lar­men­te al­gu­mas pes­so­as, olham para Portugal com alguma ad­mi­ra­ção, por­que, ape­sar de tu­do, re­pu­se­mos di­rei­tos sociais e alguma dig­ni­da­de nas me­di­das que ti­nham si­do ata­ca­das co­mo o RSI e o CSI.

E por os in­di­ca­do­res es­ta­rem a me­lho­rar?

Os in­di­ca­do­res es­tão a me­lho­rar a ní­vel eu­ro­peu e na­ci­o­nal. É evi­den­te que qu­an­do se cria em­pre­go, mes­mo pre­cá­rio, aca­ba por ha­ver im­pac­to na ta­xa de po­bre­za e nou­tras. Mas acon­te­cem coi­sas cu­ri­o­sas: ao mes­mo tem­po que o de­sem­pre­go baixa, cresce o número de be­ne­fi­ciá­ri­os do RSI...

Muito do em­pre­go cri­a­do é pre­cá­rio e mal pa­go, li­ga­do ao tu­ris­mo e à res­tau­ra­ção. E o pre­ço da ha­bi­ta­ção não pá­ra de su­bir...

Es­ta­mos a so­frer um fe­nó­me­no que já acon­te­ceu nou­tros sí­ti­os e que não é sus­ten­tá­vel. O mo­de­lo eco­nó­mi­co é sem­pre o mes­mo. O ti­po de cres­ci­men­to não pro­duz ri­que­za, pro­duz ri­cos. A re­dis­tri­bui­ção não acon­te­ce, a de­si­gual­da­de cresce. Se não se fi­zer na­da, é uma ques­tão de tem­po. E a re­cu­pe­ra­ção eco­nó­mi­ca não es­tá a che­gar a to­da a gen­te. Não che­gou a Itá­lia, à Gré­cia, pe­lo me­nos no que diz res­pei­to à po­bre­za. Em Portugal tivemos al­gum im­pac­to. Te­mos de es­pe­rar para ver se não é pon­tu­al.

Não tar­da re­gres­sa o discurso so­bre “no­vos pobres”?

Não sei se há “no­vos pobres”, mas há “nova po­bre­za”. Quem tra­ba­lha­va em in­dús­tri­as co­mo a hotelaria e res­tau­ra­ção à partida não es­ta­va em ris­co de po­bre­za e nes­te mo­men­to uma parte es­tá. Mes­mo que o sa­lá­rio se­ja ra­zoá­vel, dura seis me­ses. De­pois, a pes­soa não sa­be o que vai acontecer à sua vi­da. A pre­ca­ri­e­da­de la­bo­ral au­men­tou muito.

O que lhe pa­re­ce ba­si­lar para o fu­tu­ro da Eu­ro­pa em ma­té­ria de com­ba­te à po­bre­za?

Fun­da­men­tal­men­te, que a UE re­co­nhe­ça o pro­ble­ma, as cau­sas es­tru­tu­rais do pro­ble­ma e to­me me­di­das em con­jun­to. Foi o que acon­te­ceu com o Pi­lar Eu­ro­peu dos Di­rei­tos Sociais, apre­sen­ta­do pela Co­mis­são Eu­ro­peia e assinado por to­dos os Es­ta­dos-mem­bros em No­vem­bro de 2017. Foram guer­ras de me­ses. Vá­ri­os Es­ta­dos-mem­bros re­sis­ti­ram imen­so.

Co­mo en­ca­ra o pi­lar?

É o re­co­nhe­ci­men­to do pro­ble­ma. Re­co­nhe­ce que sem

Al­guns paí­ses olham para Portugal com ad­mi­ra­ção, por­que, ape­sar de tu­do, re­pu­se­mos di­rei­tos sociais

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