“As pes­so­as vol­ta­ram a ter es­pe­ran­ça”, mas con­ti­nu­am sem pão nem me­di­ca­men­tos

Não há me­di­das es­tru­tu­rais e os an­go­la­nos não vi­ram as su­as vidas me­lho­rar no úl­ti­mo ano. Nem to­dos acre­di­tam que a mudança pos­sa vir do MPLA

Edição Público Porto - - DESTAQUE - Sofia Lo­re­na

João Lourenço tem fei­to dis­cur­sos re­ple­tos de tu­do o que a mai­o­ria dos an­go­la­nos quer ou­vir. Há uma se­ma­na, no congresso do MPLA em que as­su­miu a pre­si­dên­cia do par­ti­do no po­der, a dias de com­ple­tar um ano co­mo chefe de Estado, prometeu pro­mo­ver os que, com “ido­nei­da­de”, aju­dem a fa­zer “uma go­ver­na­ção vi­ra­da para os pro­ble­mas da so­ci­e­da­de, economia e ci­da­dãos”.

Ora é pre­ci­sa­men­te is­so que ainda não foi fei­to. A UNITA, prin­ci­pal for­ça da opo­si­ção, fez on­tem um balanço do pri­mei­ro ano de go­ver­na­ção de Lourenço para con­cluir que “Angola es­tá pi­or”— a afir­ma­ção baseia-se em vi­si­tas a 90 mu­ni­cí­pi­os fei­tas pe­los de­pu­ta­dos do par­ti­do, ex­pli­cou em Lu­an­da a par­la­men­tar Al­ber­ti­na Ngo­lo.

“O po­der de com­pra das pes­so­as es­tá ca­da vez mais em bai­xo, o kwan­za perde va­lor a ca­da dia, o país não pro­duz pra­ti­ca­men­te na­da, o sa­lá­rio con­ti­nua o mes­mo, o ren­di­men­to mé­dio por ha­bi­tan­te em Angola é dos mais bai­xos de Áfri­ca”, enu­me­rou Al­ber­ti­na Ngo­lo, acres­cen­tan­do que grande parte da po­pu­la­ção con­ti­nua sem aces­so a água po­tá­vel ou ener­gia. “O país es­tá ca­da vez mais sub­de­sen­vol­vi­do, a ta­xa de mor­ta­li­da­de é as­sus­ta­do­ra.”

Ema­nu­el Lopes, re­pre­sen­tan­te da UNITA em Portugal; Sé­drick de Carvalho, ac­ti­vis­ta e jor­na­lis­ta (um dos 15+2, os jo­vens con­de­na­dos por re­be­lião em 2016); e Fi­lo­me­no Vieira Lopes, eco­no­mis­ta e po­lí­ti­co, li­ga­do ao Blo­co De­mo­crá­ti­co (há um ano foi a vo­tos na co­li­ga­ção CA­SA-CE), fa­zem uma lei­tu­ra muito pró­xi­ma des­ta. Já qu­an­do se lhes pergunta so­bre os dis­cur­sos de João Lourenço, dis­cor­dam en­tre si: Ema­nu­el Lopes en­cai­xa-os “na ló­gi­ca pro­pa­gan­dís­ti­ca do no­vo Presidente”, Vieira Lopes diz que co­me­ça­ram por ser­vir para Lourenço “ci­men­tar o seu po­der den­tro do MPLA”, mas re­co­nhe­ce ne­les “uma von­ta­de de mu­dar”.

O que João Lourenço tem con­cre­ti­za­do são exo­ne­ra­ções. O ho­mem que subs­ti­tuiu Jo­sé Edu­ar­do dos Santos na ca­dei­ra que este ocu­pou por 38 anos co­me­çou por subs­ti­tuir che­fi­as mi­li­ta­res e dos ser­vi­ços se­cre­tos, de­pois afas­tou os fi­lhos do ex-Presidente dos car­gos que lhes ga­ran­ti­am lucros e influência em áre­as fundamentais da economia (a pe­tro­lí­fe­ra So­nan­gol, on­de es­ta­va Isa­bel dos Santos, ou o fun­do so­be­ra­no, di­ri­gi­do por Fi­lo­me­no dos Santos); se­gui­ram-se go­ver­na­do­res, côn­su­les e em­bai­xa­do­res, a cú­pu­la do MPLA...

Be­ne­fí­cio da dú­vi­da

Se as ac­ções vi­sam levar os dis­cur­sos à prá­ti­ca, es­tes afas­ta­men­tos de­ve­ri­am ser­vir para cor­ri­gir os prin­ci­pais “males” que João Lourenço diz afec­ta­rem o país: “A cor­rup­ção, o ne­po­tis­mo, a ba­ju­la­ção e a im­pu­ni­da­de que se im­plan­ta­ram nos úl­ti­mos anos e que mui­tos da­nos cau­sa­ram à economia.” Mes­mo que, ga­ran­te, “tom­bem al­tos militantes e al­tos di­ri­gen­tes” do Mo­vi­men­to Po­pu­lar de Li­ber­ta­ção de Angola.

Sé­drick de Carvalho quer dar a Lourenço “o be­ne­fí­cio da dú­vi­da”, em­bo­ra no­te que fal­ta a sua pró­pria mea cul­pa pe­lo “pa­pel di­rec­to que teve no estado em que o país se en­re­pa­tri­ar con­tra”, en­quan­to di­ri­gen­te e mi­nis­tro. Para já, diz ao PÚ­BLI­CO, “há cla­ra­men­te uma distância enor­me en­tre os dis­cur­sos e a prá­ti­ca; põe muita tó­ni­ca na lu­ta con­tra a cor­rup­ção, o ne­po­tis­mo e a ba­ju­la­ção, mas de­pois ro­deia-se de pes­so­as que são es­pe­ci­a­lis­tas no Estado que ele diz que­rer com­ba­ter”.

Ema­nu­el Lopes e Fi­lo­me­no Vieira Lopes lem­bram epi­só­di­os re­cen­tes de vi­o­lên­cia po­li­ci­al e su­bli­nham que tam­bém na­da mudou no com­por­ta­men­to dos fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos. “Não é pos­sí­vel obri­gar um polícia a não pe­dir su­bor­nos, qu­an­do ga­nha o equi­va­len­te a 30 ou 40 dó­la­res”, diz Ema­nu­el Lopes. “Num re­gi­me tão au­to­crá­ti­co, bas­ta as pes­so­as te­rem um bo­ca­di­nho de li­ber­da­de para acha­rem que já têm muita. E as pes­so­as dis­tra­em-se e deixam a re­vo­lu­ção de lado”, la­men­ta.

Vieira Lopes elo­gia a de­ci­são de os res­tos mor­tais do ge­ne­ral “Ben Ben”, antigo vi­ce-chefe do Estado-Mai­or das FA­LA, que era o exér­ci­to da União Na­ci­o­nal para a In­de­pen­dên­cia To­tal de Angola (UNITA), co­mo um pas­so no sen­ti­do da “re­con­ci­li­a­ção na­ci­o­nal”, mas Ema­nu­el Lopes de­fen­de que es­ta me­di­da faz parte do “circo” com que o re­gi­me vai man­ter a opo­si­ção “en­tre­ti­da durante meio ano”.

Pão e circo

“Ben Ben” (co­mo era co­nhe­ci­do Ar­lin­do Chen­da Isa­ac Pe­na), que mor­reu há 20 anos na Áfri­ca do Sul, já teve direito a ser se­pul­ta­do no seu país; deve se­guir-se Jonas Sa­vim­bi, o pri­mei­ro presidente da UNITA. “Não há di­nhei­ro para na­da, mas o Go­ver­no fre­tou um avião para ir a Lis­boa bus­car a ir­mã de Sa­vim­bi”, Ju­dith Pe­na, de 85 anos, e outros fa­mi­li­a­res, para par­ti­ci­pa­rem na re­cep­ção aos res­tos mor­tais de “Ben Ben”, diz o di­ri­gen­te da UNITA. “Co­mo não tem pão, vai ofe­re­cen­do circo.”

“Ainda não há mu­dan­ças es­tru­tu­rais, nem muito me­nos im­pac­to na vi­da das pes­so­as”, admite Vieira Lo-

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