“Ainda vi­ve­mos de ex­pec­ta­ti­vas, mas pa­re­cer ha­ver uma pre­dis­po­si­ção do Presidente para avan­çar e pôr fim ao ab­so­lu­tis­mo do pas­sa­do”

Edição Público Porto - - DESTAQUE -

pes. “Ainda vi­ve­mos de ex­pec­ta­ti­vas, mas pa­re­ce ha­ver uma pre­dis­po­si­ção do Presidente para avan­çar e pôr fim ao ab­so­lu­tis­mo do pas­sa­do”, admite. “As pes­so­as vol­ta­ram a ter es­pe­ran­ça e is­so é muito bom”, afir­ma Sé­drick de Carvalho. O ac­ti­vis­ta não sa­be di­zer se “as pa­la­vras de João Lourenço são ge­nuí­nas”, mas quer acre­di­tar que sim. O pro­ble­ma, no­ta, “é que, ven­do bem, ele não tem muito com quem tra­ba­lhar”.

A re­si­li­ên­cia

“Não exis­te nin­guém im­po­lu­to na­que­le re­gi­me”, diz Ema­nu­el dos Santos. “O MPLA re­no­va no má­xi­mo 20% dos seus di­ri­gen­tes a ca­da congresso. E es­ses 20%, qu­an­do che­gam a lu­ga­res de des­ta­que, já es­tão mol­da­dos ao mo­do de fa­zer as coi­sas dos mais ve­lhos, já pen­sam da mes­ma ma­nei­ra. A ge­ra­ção pós-Agos­ti­nho Ne­to [pri­mei­ro Presidente do país] es­tá a sair ago­ra. A ge­ra­ção que João Lourenço re­pre­sen­ta não fez uma rup­tu­ra pro­fun­da, as du­as es­ti­ve­ram sem­pre muito pró­xi­mas”, diz.

E quan­to aos jo­vens (mais de 60% da po­pu­la­ção tem me­nos de 25 anos), Sé­drick de Carvalho olha para a re­cen­te substituição de go­ver­na­do­res que le­vou ao po­der, em Lu­an­da Sul, o mais jo­vem go­ver­na­dor de sem­pre no país: “Tem 39 anos, é o nos­so jo­vem. Não acre­di­to que a sua forma de abor­dar os as­sun­tos não se­ja se­me­lhan­te à dos mais ve­lhos do par­ti­do.”

Fi­lo­me­no Vieira Lopes diz que “há um grande ca­mi­nho a per­cor­rer”, en­quan­to Sé­drick de Carvalho lem­bra que mui­tas pes­so­as têm de pagar su­bor­nos “para po­de­rem ins­cre­ver os fi­lhos na es­co­la”. Em causa es­tá uma mudança de men­ta­li­da­des que nem to­dos acre­di­tam que se­ja pos­sí­vel com o MPLA no po­der. “O pro­ble­ma dos an­go­la­nos é se­rem muito re­si­li­en­tes, apren­de­ram a vi­ver na mi­sé­ria ab­so­lu­ta. A man­dar os fi­lhos para a es­co­la com uma la­ta para se sen­ta­rem por não ha­ver ca­dei­ras”, des­cre­ve Ema­nu­el Lopes. “E a che­gar a hos­pi­tais sem me­di­ca­men­tos e com três pes­so­as nu­ma ca­ma, co­mo acon­te­ce nas ma­ter­ni­da­des.”

slo­re­na@pu­bli­co.pt

Eco­no­mis­ta e po­lí­ti­co

“A ge­ra­ção pósA­gos­ti­nho Ne­to es­tá a sair ago­ra. A ge­ra­ção que João Lourenço re­pre­sen­ta não fez uma rup­tu­ra pro­fun­da, as du­as es­ti­ve­ram sem­pre muito pró­xi­mas”

Re­pre­sen­tan­te da UNITA em Portugal

Há uma distância en­tre os dis­cur­sos e a prá­ti­ca: põe muita tó­ni­ca na lu­ta con­tra a cor­rup­ção, mas de­pois ro­deia-se de pes­so­as que são es­pe­ci­a­lis­tas no Estado que ele diz que­rer com­ba­ter

Ac­ti­vis­ta e jor­na­lis­ta

Angola as­su­miu-se nos úl­ti­mos anos co­mo o destino mais es­co­lhi­do pe­los por­tu­gue­ses que emi­gra­ram para fora da União Eu­ro­peia, mas o flu­xo abran­dou des­de que o país en­trou em cri­se. Já vol­tou a ace­le­rar-se? As re­mes­sas su­bi­ram.

Angola co­me­çou a cha­mar a aten­ção dos es­tu­di­o­sos da emi­gra­ção qu­an­do, na pri­mei­ra dé­ca­da des­te sé­cu­lo, as re­mes­sas de lá para cá su­pe­ra­ram as de cá para lá. Iam, so­bre­tu­do, ho­mens, qua­li­fi­ca­dos ou al­ta­men­te qua­li­fi­ca­dos, a re­bo­que da in­ter­na­ci­o­na­li­za­ção das em­pre­sas por­tu­gue­sas.

Tu­do se in­ten­si­fi­cou qu­an­do Portugal foi apanhado pela cri­se da dívida. As re­mes­sas au­men­ta­ram mais de qu­a­tro ve­zes en­tre 2008 e 2013. De acor­do com o Banco de Portugal, em 2013 al­can­ça­ram os 304 milhões. A par­tir daí, co­me­ça­ram a cair (247 milhões em 2014, 213 milhões em 2015, 205 milhões em 2016).

Em 2014, Angola afun­dou-se nu­ma cri­se re­la­ci­o­na­da com a quebra abrup­ta das re­cei­tas da ex­por­ta­ção de pe­tró­leo. A des­ci­da das re­mes­sas para Portugal ex­pli­car-se-ia com o abran­da­men­to dos ne­gó­ci­os, as di­fi­cul­da­des de trans­fe­rên­cia de di­nhei­ro (de­vi­do a es­cas­sez de di­vi­sas) e a des­va­lo­ri­za­ção da mo­e­da angolana (o kwan­za). Mui­tos dos que re­ce­bi­am parte do sa­lá­rio em eu­ros vi­ram o pa­ga­men­to atra­sa­do me­ses ou anos.

Na­que­les pri­mei­ros tem­pos, não ha­via re­gis­to de um re­cuo no flu­xo emi­gra­tó­rio de Portugal para Angola. So­man­do os vis­tos de vá­ri­os ti­pos emi­ti­dos pe­los con­su­la­dos de Angola no Por­to e em Lis­boa, no­ta­va-se co­mo os por­tu­gue­ses con­ti­nu­a­ram a ir: 4651 em 2013, 5098 em 2014, 6715 em 2015.

Só em 2016 o que parecia ex­pec-

MI­GUEL MA­DEI­RA

Fi­lo­me­no Vieira Lopes

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