Ra­cis­mo: “Este não é um mo­men­to sim­bó­li­co, é um mo­men­to de lu­ta”

Cerca de 2500 pes­so­as res­pon­de­ram ao ape­lo de mais de 60 or­ga­ni­za­ções e jun­ta­ram-se em Lis­boa con­tra o ra­cis­mo

Edição Público Porto - - SOCIEDADE - Re­por­ta­gem Mar­ga­ri­da David Cardoso

São 15h e fa­zem-se os úl­ti­mos car­ta­zes. “Se­nhor guar­da, não sou va­ga­bun­do, não sou de­lin­quen­te. Sou hu­ma­no, sou gen­te”, di­zem as letras gar­ra­fais, es­pe­lho do mo­te da Mo­bi­li­za­ção Na­ci­o­nal de Lu­ta con­tra o Ra­cis­mo que on­tem ocu­pou o Lar­go de S. Do­min­gos, no Ros­sio, em Lis­boa. A opo­si­ção à “bru­ta­li­da­de po­li­ci­al racista” le­vou ali cerca de 2500 pes­so­as, es­ti­ma a or­ga­ni­za­ção de um even­to que se pro­lon­gou pela noi­te den­tro.

No Por­to, cerca de 100 pes­so­as foram à Pra­ça da Re­pú­bli­ca em res­pos­ta ao ape­lo na­ci­o­nal lan­ça­do por mais de 60 or­ga­ni­za­ções. As qua­se du­as ho­ras de encontro di­vi­di­ram-se en­tre in­ter­ven­ções ao mi­cro­fo­ne dos or­ga­ni­za­do­res e par­ti­ci­pan­tes e as ac­tu­a­ções de gru­pos da ci­da­de: o co­ro da Ka­li­na — Associação dos Imigrantes de Les­te, o gru­po de per­cus­são bra­si­lei­ra Ba­tu­ca­da Ra­di­cal e uma jo­vem bai­la­ri­na ci­ga­na, diz Me­lis­sa Ro­dri­gues, do Co­lec­ti­vo Chá das Pre­tas. Em Bra­ga, mais de 150 pes­so­as jun­ta­ram-se “para fa­lar e dis­cu­tir o ra­cis­mo”, con­ta Emí­lia Santos, da or­ga­ni­za­ção.

A ideia de uma mo­bi­li­za­ção “par­tiu de den­tro de uma co­mu­ni­da­de de mu­lhe­res” pela ne­ces­si­da­de de dar “vi­si­bi­li­da­de ao julgamento dos 17 polícias da es­qua­dra de Al­fra­gi­de” acu­sa­dos de ra­cis­mo e tor­tu­ra de seis jo­vens da Co­va da Mou­ra, con­ta Lúcia Furtado, uma das or­ga­ni­za­do­ras, em Lis­boa. Cres­ceu a ideia de que, co­mo este, outros acon­te­ci­men­tos “exi­gi­am” um even­to na­ci­o­nal.

“Es­ta­mos aqui pe­lo Bair­ro da Co­va da Mou­ra, pe­lo Bair­ro 6 de Maio, por to­dos a quem o ra­cis­mo ins­ti­tu­ci­o­nal fe­re. Não va­mos dei­xar que na­da dis­to caia no es­que­ci­men­to”, su­bli­nha Lúcia.

Há o ob­jec­ti­vo de ins­cre­ver o ra­cis­mo na agen­da política e me­diá­ti­ca. “É pre­ci­so com­ba­ter a in­vi­si­bi­li­da­de do te­ma e, aci­ma de tu­do, a na­tu­ra­li­za­ção des­tas prá­ti­cas — a ideia he­ge­mó­ni­ca de que exis­tem gru­pos que são mais pro­pen­sos a um de­ter­mi­na­do ti­po de com­por­ta­men­tos e que por is­so de­vem ser vi­gi­a­dos, de­vem ser se­gre­ga­dos, de­vem ser pu­ni­dos”, diz Beatriz Dias, presidente da Djass – Associação de Afro­des­cen­den­tes. Aponta dados para de­mons­trar co­mo as ca­rac­te­rís­ti­cas ét­ni­co-ra­ci­ais con­ti­nu­am a de­ter­mi­nar ava­li­a­ções ju­di­ci­ais: “Os ho­mens ne­gros são os mais cri­mi­na­li­za­dos, so­frem cinco mais penas que os outros ho­mens. Além dis­so, cum­prem durante mais tem­po as penas.”

Este não é, por is­so, “um mo­men­to sim­bó­li­co, é um mo­men­to de lu­ta”, afir­ma. A or­ga­ni­za­ção faz uma afir­ma­ção cla­ra da ne­ces­si­da­de de al­te­rar as leis. Mu­dan­ças que cri­mi­na­li­zem o ra­cis­mo — co­mo se lê na fai­xa do Blo­co de Es­quer­da —, per­mi­tam a re­vi­são das penas, a for­ma­ção an­ti-racista de agen­tes po­li­ci­ais e ju­di­ci­ais. “E a recolha de dados ét­ni­cos-ra­ci­ais para per­mi­tir a cri­a­ção de me­di­das para com­ba­ter de forma efi­caz a dis­cri­mi­na­ção”, acres­cen­ta Mar­ga­ri­da Ren­dei­ro, pro­fes­so­ra universitária.

“Não sou nó­ma­da por op­ção”

É aqui que as his­tó­ri­as das vítimas de ra­cis­mo em Portugal são mais co­nhe­ci­das e faz-se ques­tão de lem­brar os no­mes. Car­la Fer­nan­des, da Rá­dio AfroLis, leu­os um a um. Por eles, pede-se justiça e um re­co­nhe­ci­men­to: o de que “Portugal é um país racista”, gri­ta um co­ro. Que­rem di­zer que não es­que­cem, não per­do­am.

Exi­ge-se o re­co­nhe­ci­men­to de que exis­te ra­cis­mo ins­ti­tu­ci­o­nal, aque­le que re­sul­ta não de relações in­ter­pes­so­ais, mas de relações de po­der. Porquê? Por­que “polícia mata negro”. Por­que há “pou­cos ne­gros e ne­gras na política”. E por­que “ne­gros e ci­ga­nos são se­gre­ga­dos na educação” e se “des­pe­ja os ne­gros da nação”, res­pon­dem os ac­to­res do Te­a­tro do Opri­mi­do, nu­ma performance na tar­de de on­tem. An­tes hou­ve uma roda de ca­po­ei­ra, pe­los Ca­po­ei­ra Angola. De­pois, o pal­co fi­cou por con­ta dos mú­si­cos Cha­lo Correia, Tummy Tri­pe M e Lo­re­ta KBA, en­tre outros.

São vá­ri­as as frases es­cri­tas em por­tu­guês, in­glês, até fran­cês e italiano. A mai­o­ria ilus­tra­da com um pu­nho cer­ra­do: “Stop bru­ta­li­da­de po­li­ci­al racista”, “O ra­cis­mo mata”, “To­dos san­gra­mos da mes­ma cor”.

Aque­la que mais sig­ni­fi­ca­do tem para Jo­sé Fer­nan­des, em­pre­sá­rio na res­tau­ra­ção e ac­ti­vis­ta ci­ga­no, ver­sa as­sim: “Não sou nó­ma­da por op­ção, ex­pul­sa­ram-me a bas­tão.” Diz que é re­fle­xo da “re­pul­sa que muita gen­te ainda tem pe­los ci­ga­nos”, gen­te “que in­sis­te em to­mar a parte pe­lo todo”. A so­lu­ção, a seu ver, é política, não cul­tu­ral. Por is­so, até ha­ver “uma ver­da­dei­ra re­pre­sen­ta­ção política das mi­no­ri­as”, os avan­ços se­rão sem­pre tí­mi­dos, acre­di­ta.

Foi o que Paula Teixeira quis que as du­as fi­lhas vis­sem: “Que há gen­te que por causa da cor de pe­le ou et­nia não tem os mes­mos pri­vi­lé­gi­os que elas.” Gabriela Santos, bra­si­lei­ra a vi­ver em Portugal há um ano, quis mos­trar o mes­mo à fi­lha de cinco anos. É por is­so que en­tre os car­ta­zes com letras gran­des e pu­nhos cer­ra­dos há um que tem uma ca­sa e co­ra­ções.

“É pre­ci­so com­ba­ter a in­vi­si­bi­li­da­de e a na­tu­ra­li­za­ção des­tas prá­ti­cas”

mar­ga­ri­da.cardoso@pu­bli­co.pt

TI­A­GO PETINGA/LUSA

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