Maria João co­mo nunca a tí­nha­mos vis­to, no ar­ran­que da Eu­ro­pe­an Jazz Con­fe­ren­ce

Na ga­la de aber­tu­ra, can­tou com a Or­ques­tra Jazz de Matosinhos. E na sex­ta-fei­ra par­ti­lhou as su­as cor­das vo­cais com a pla­teia

Edição Público Porto - - CULTURA - Gon­ça­lo Fro­ta

Já na vés­pe­ra Maria João nos ti­nha da­do a apre­ci­ar as su­as cor­das vo­cais. En­quan­to con­vi­da­da da Or­ques­tra Jazz de Matosinhos na ga­la de aber­tu­ra da Eu­ro­pe­an Jazz Con­fe­ren­ce (EJC) — a de­cor­rer no Cen­tro Cul­tu­ral de Be­lém, Lis­boa, até domingo —, a can­to­ra mais ce­le­bra­da da história do jazz por­tu­guês de­li­ci­ou a pla­teia com­pos­ta por pro­gra­ma­do­res e agen­tes in­ter­na­ci­o­nais com in­ter­pre­ta­ções ar­re­ba­ta­do­ras de temas co­mo Can­to de Os­sa­nha (ori­gi­nal de Ba­den Powell e Vinicius de Mo­ra­es) ou Flor (letra da pró­pria para com­po­si­ção de Má­rio La­gi­nha).

Não foram ape­nas es­tes dois temas que lhe cou­be­ram em sorte para fe­char a ac­tu­a­ção da OJM na com­pa­nhia de al­guns dos mais destacados mú­si­cos por­tu­gue­ses — an­tes de Maria João, hou­ve o pi­a­no de João Paulo Esteves da Silva, o sa­xo­fo­ne de João Mortágua e o acor­deão de João Bar­ra­das. Mas foram es­tes os mo­men­tos em que Maria João mais dei­xou bai­xar em si aque­le can­to pre­nhe do voo me­ló­di­co do can­ci­o­nei­ro bra­si­lei­ro, da mais pu­ra li­ber­da­de do jazz e da na­tu­re­za te­lú­ri­ca da música afri­ca­na. “Pa­re­ce uma criança fe­liz”, di­zia uma es­pec­ta­do­ra no final, ga­ban­do-lhe es­sa ca­pa­ci­da­de ra­ra de pensar a música co­mo um es­pa­ço sem fron­tei­ras, sem me­do do ridículo e de uma trans­bor­dan­te jo­vi­a­li­da­de, em que todo o cor­po se im­pli­ca no can­to.

As­sim foi na noi­te de quin­ta-fei­ra. Por­que na ma­nhã de sex­ta, con­vi­da­da pela or­ga­ni­za­ção a pro­fe­rir o discurso de aber­tu­ra da EJC, Maria João op­tou por uma forma muito par­ti­cu­lar de bo­as-vin­das. Deu a co­nhe­cer ao pú­bli­co as su­as cor­das vo­cais de uma forma bem mais ín­ti­ma e ines­pe­ra­da: no ecrã do CCB, a can­to­ra fez pro­jec­tar um ví­deo pré-gra­va­do do seu apa­re­lho vo­cal em ple­no fun­ci­o­na­men­to, en­quan­to cum­pri­men­ta­va a as­sis­tên­cia e can­ta­va. De­pois, já sem a aju­da do ví­deo, falou do seu per­cur­so, de ter er­gui­do os pu­nhos para lu­tar con­tra o bullying de que foi al­vo em criança, de co­mo o aca­so a le­vou a des­co­brir a sua voz e, tal­vez mais im­por­tan­te do que tu­do o res­to, de co­mo os dias dos mú­si­cos, hoje em dia, são gas­tos em tan­tas ac­ti­vi­da­des (or­ga­ni­za­ção de agen­da, mar­ca­ção de con­cer­tos, ac­ti­vi­da­des de pro­mo­ção, etc.) que os dis­trai da sua re­al vo­ca­ção. E re­ve­lou que o mais difícil de tu­do é so­bre­vi­ver aos mui­tos “nãos” que se ou­ve vi­da fora.

Re­flec­tir e pro­cu­rar so­lu­ções

Na ver­da­de, este encontro anu­al da Eu­ro­pe Jazz Network ser­ve, em boa parte, para de­ba­ter e re­flec­tir so­bre as di­fi­cul­da­des en­con­tra­das pe­los mú­si­cos de jazz den­tro do es­pa­ço con­ti­nen­tal e pro­cu­rar so­lu­ções. E no de­ba­te que se se­guiu, dedicado ao jazz por­tu­guês no con­tex­to eu­ro­peu, fi­ca­ria ex­pres­so um di­ag­nós­ti­co cla­ro en­tre mú­si­cos, edi­to­res e au­to­res na­ci­o­nais de co­mo a con­di­ção ge­o­grá­fi­ca de Portugal, no extremo da Eu­ro­pa, e a fal­ta de apoi­os do Estado para a in­ter­na­ci­o­na­li­za­ção dos seus mú­si­cos são, tal­vez, o mai­or obs­tá­cu­lo a im­pe­dir que gru­pos por­tu­gue­ses pos­sam re­al­men­te pensar o seu mer­ca­do de trabalho co­mo po­den­do ser mais alar­ga­do do que o me­ro ter­ri­tó­rio na­ci­o­nal.

Pedro Costa, edi­tor da Cle­an Fe­ed, re­fe­rir-se-ia a esse pre­ci­so pro­ble­ma na de­ci­são de pu­bli­car for­ma­ções por­tu­gue­sas. Para uma ca­sa co­mo a sua, com uma am­pla pro­jec­ção in­ter­na­ci­o­nal, tor­na-se com­pli­ca­do apos­tar em mú­si­cos que pou­cas pos­si­bi­li­da­des têm de mos­trar o seu trabalho e ob­ter re­co­nhe­ci­men­to para lá das fron­tei­ras. Em li­nha com este pen­sa­men­to, tam­bém Pedro Guedes, director mu­si­cal da OJM, no­tou que a pro­jec­ção de mú­si­cos por­tu­gue­ses no ex­te­ri­or acon­te­ce a uma es­ca­la in­di­vi­du­al e não co­lec­ti­va. E nes­se par- ti­cu­lar se­ri­am ci­ta­dos os exem­plos de Susana Santos Silva ou Luís Vi­cen­te co­mo mú­si­cos cu­ja ac­ti­vi­da­de se de­sen­vol­ve so­bre­tu­do no ex­te­ri­or.

O “quin­te­to por­tu­guês” de Susana Santos Silva, Im­per­ma­nen­ce, foi um dos seis gru­pos es­co­lhi­dos pela EJN para se apre­sen­tar ao pú­bli­co pro­fis­si­o­nal eu­ro­peu em for­ma­to de show­ca­se no pro­gra­ma ofi­ci­al da EJC (há todo um pro­gra­ma frin­ge, no Hot Clu­be e na LX Fac­tory e no CCB a com­ple­men­tar es­ta ofer­ta). Nu­ma sex­ta-fei­ra em que os três pro­jec­tos apre­sen­ta­dos eram oriun­dos da cena por­tu­en­se dis­pos­ta em tor­no da associação Por­ta-Jazz, a trom­pe­tis­ta vol­tou a mos­trar o porquê de ser um dos no­mes mais es­ti­mu­lan­tes do jazz eu­ro­peu, ca­pi­ta­ne­an­do uma música que se mo­ve sem­pre en­tre a es­tru­tu­ra e a sua per­da, co­mo se re­pe­ti­das ve­zes ruís­se para lo­go se er­guer de no­vo só­li­da, nu­ma mi­la­gro­sa gestão de di­nâ­mi­cas e com uma es­pan­to­sa elegância a fu­gir de qual­quer fan­tas­ma de pre­vi­si­bi­li­da­de.

Além de Santos Silva, apre­sen­ta­ram-se Bo­de Wilson e Axes, num dia em que se falou ainda do que sig­ni­fi­ca pro­gra­mar fes­ti­vais de jazz em todo o mundo, da tec­no­lo­gia ao ser­vi­ço do mar­ke­ting da música e de co­mo aqui­lo que hoje não é jazz tal­vez ama­nhã o se­ja.

ANDREEA BIKFALVI

Maria João na ses­são de aber­tu­ra da con­fe­rên­cia, sex­ta-fei­ra

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