Por­tu­gal e a igual­da­de de gé­ne­ro: bom nas leis, mau na dis­tri­bui­ção do tra­ba­lho do­més­ti­co

Há pi­o­res re­sul­ta­dos na “dis­cri­mi­na­ção na fa­mí­lia”, no de­se­qui­lí­brio na par­ti­lha do tra­ba­lho do­més­ti­co en­tre ho­mens e mu­lhe­res

Edição Público Porto - - SOCIEDADE - Ri­ta Mar­ques Cos­ta

De um to­tal de 120 paí­ses es­pa­lha­dos pe­la Ásia, Eu­ro­pa, Áfri­ca e Amé­ri­ca, Por­tu­gal é o quin­to com leis e nor­mas so­ci­ais mais igua­li­tá­ri­as. À fren­te, só a Suí­ça, Sué­cia, Di­na­mar­ca e Fran­ça. E en­tre as na­ções do Sul da Eu­ro­pa, ocu­pa o pri­mei­ro lu­gar. Os da­dos cons­tam do Ín­di­ce de Ins­ti­tui­ções So­ci­ais e Gé­ne­ro (SIGI, na si­gla in­gle­sa) 2019, que me­de a dis­cri­mi­na­ção con­tra as mu­lhe­res em ins­ti­tui­ções so­ci­ais (leis for­mais e in­for­mais, nor­mas so­ci­ais e prá­ti­cas) em vá­ri­os paí­ses.

O do­cu­men­to, di­vul­ga­do on­tem pe­la Or­ga­ni­za­ção pa­ra a Co­o­pe­ra­ção e De­sen­vol­vi­men­to Eco­nó­mi­co (OCDE), ava­lia a pres­ta­ção dos paí­ses com ba­se em leis, prá­ti­cas e ati­tu­des re­la­ci­o­na­das com qu­a­tro di­men­sões: “dis­cri­mi­na­ção na fa­mí­lia” (ca­sa­men­to in­fan­til, di­vór­cio, res­pon­sa­bi­li­da­des fa­mi­li­a­res, por exem­plo); “res­tri­ções à in­te­gri­da­de fí­si­ca” (in­clui a mu­ti­la­ção ge­ni­tal fe­mi­ni­na, a au­to­no­mia re­pro­du­ti­va); “res­tri­ções no aces­so a re­cur­sos fi­nan­cei­ros e pro­du­ti­vos” (con­tem­pla, por exem­plo, os di­rei­tos no lo­cal de tra­ba­lho ou o aces­so a ser­vi­ços fi­nan­cei­ros); “li­mi­ta­ções às li­ber­da­des ci­vis” (con­tém os di­rei­tos de ci­da­da­nia, o aces­so à jus­ti­ça, en­tre ou­tros).

Pon­de­ra­das as pon­tu­a­ções em ca­da uma des­tas ca­te­go­ri­as, a OCDE che­ga ao va­lor-ín­di­ce que co­lo­ca Por­tu­gal no quin­to lu­gar do ran­king.

Uma conclusão: no âm­bi­to das leis, Por­tu­gal apre­sen­ta bons re­sul­ta­dos na maioria das di­men­sões no que diz res­pei­to às leis, mas is­so não se re­flec­te di­rec­ta­men­te ao ní­vel das prá­ti­cas e ati­tu­des, que têm pi­o­res re­sul­ta­dos. Por exem­plo, as mu­lhe­res e os ho­mens têm os mes­mos di­rei­tos em mo­vi­men­tar-se por on­de en­ten­de­rem, den­tro e fo­ra do país, mas na di­men­são prá­ti­ca, que é a se­gu­ran­ça das mu­lhe­res em ca­mi­nhar so­zi­nhas à noi­te, Por­tu­gal ain­da apre­sen­ta das pro­por­ções mais ele­va­das en­tre os paí­ses da OCDE de mu­lhe­res que se di­zem in­se­gu­ras nes­te con­tex­to.

En­tre as di­men­sões que com­põem es­te ín­di­ce, é na que diz res­pei­to ao aces­so a re­cur­sos fi­nan­cei­ros e pro­du­ti­vos que Por­tu­gal se sai me­lhor. Os as­pec­tos po­si­ti­vos so­bres­sa­em, aci­ma de tu­do, no que diz res­pei­to ao aces­so a ter­re­nos e a ser­vi­ços fi­nan­cei­ros. Ain­da há um as­pec­to, po­rém, em que Por­tu­gal fi­ca aquém: só um ter­ço das mu­lhe­res ocu­pa car­gos de ges­tão nas em­pre­sas. Mes­mo as­sim, qu­an­do com­pa­ra­do com os res­tan­tes paí­ses da OCDE, Por­tu­gal não é dos pi­o­res nes­ta di­men­são. No Lu­xem­bur­go, Tur­quia, Ja­pão e Co­reia do Sul, a per­cen­ta­gem de mu­lhe­res nes­tas po­si­ções não che­ga aos 25%.

Por ou­tro la­do, é na “dis­cri­mi­na­ção na fa­mí­lia” que sur­gem os pi­o­res re­sul­ta­dos, mui­to por cau­sa do de­se­qui­lí­brio na dis­tri­bui­ção do tra­ba­lho do­més­ti­co en­tre mu­lhe­res e ho­mens — as mu­lhe­res gas­tam três ve­zes mais ho­ras por dia do que os ho­mens nes­tas ac­ti­vi­da­des. Nes­te cam­po, Por­tu­gal é um dos paí­ses da OCDE on­de as mu­lhe­res ocu­pam mais ho­ras do dia com as ta­re­fas do lar.

Ou­tros as­pec­tos em que Por­tu­gal ain­da es­tá pi­or do que al­guns dos paí­ses da OCDE — e que são con­ta­bi­li­za­dos na di­men­são das “li­mi­ta­ções às li­ber­da­des ci­vis” — é o aces­so à jus­ti­ça, que, na prá­ti­ca, se tra­duz na con­fi­an­ça das mu­lhe­res no sis­te­ma ju­rí­di­co (50% das por­tu­gue­sas diz que não con­fia) e a pro­por­ção de mu­lhe­res no Par­la­men­to (35%).

A pres­ta­ção dos paí­ses no que diz res­pei­to às leis em vi­gor é ava­li­a­da atra­vés de ques­ti­o­ná­ri­os com cen­te­nas de ques­tões res­pon­di­dos por es­pe­ci­a­lis­tas na­ci­o­nais. As ques­tões re­la­ci­o­na­das com prá­ti­cas e ati­tu­des são ava­li­a­das atra­vés das es­ta­tís­ti­cas da OCDE.

O SIGI já foi ela­bo­ra­do em 2009, 2012 e 2014. Só nes­ta edi­ção é que Por­tu­gal é con­si­de­ra­do no ran­king uma vez que nos anos an­te­ri­o­res fal­ta­vam da­dos que per­mi­tis­sem che­gar a uma pon­de­ra­ção glo­bal com­pa­rá­vel com a dos ou­tros paí­ses. No to­tal, fo­ram ana­li­sa­dos da­dos pa­ra 180 paí­ses, mas só 120 fo­ram in­cluí­dos no ran­king. Nos úl­ti­mos lugares des­te ran­king sur­gem o Iémen, o Pa­quis­tão e o Irão. Há 12 paí­ses on­de a desigualdade en­tre ho­mens e mu­lhe­res ain­da é considerada mui­to ele­va­da.

ri­ta.cos­[email protected]­bli­co.pt

ENRIC VIVES-RUBIO/AR­QUI­VO

Em 120 paí­ses da Ásia, Eu­ro­pa, Áfri­ca e Amé­ri­ca, Por­tu­gal é o quin­to com leis e nor­mas so­ci­ais mais igua­li­tá­ri­as

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