Só o PS diz não ao fim do 2.º ci­clo do en­si­no bá­si­co

Par­la­men­to vol­ta a dis­cu­tir re­or­ga­ni­za­ção dos ci­clos de en­si­no. PSD, CDS e PCP con­cor­dam e pe­dem ao Go­ver­no um am­plo de­ba­te na­ci­o­nal. BE he­si­ta e PS rejeita. Mo­de­lo em vi­gor perdura há cin­co dé­ca­das

Edição Público Porto - - PRIMEIRA PÀGINA - Cla­ra Vi­a­na

A exis­ti­rem dú­vi­das, elas dis­si­pam-se ago­ra. Não se­rá por von­ta­de do ac­tu­al Go­ver­no ou do PS, no Par­la­men­to, que ha­ve­rá num fu­tu­ro pró­xi­mo al­gu­ma ini­ci­a­ti­va com vis­ta a re­pen­sar a or­ga­ni­za­ção do en­si­no bá­si­co (1.º, 2.º e 3.º ci­clos) e, por con­sequên­cia, tam­bém a do se­cun­dá­rio.

Es­ta qu­es­tão, que, vol­ta não vol­ta, é pos­ta em ci­ma da me­sa, vai de no­vo ser de­ba­ti­da no Par­la­men­to por via de dois pro­jec­tos de re­so­lu­ção que de­ram en­tra­da es­te mês, um do CDS e ou­tro do PCP, que re­co­men­dam ao Go­ver­no que pro­mo­va um es­tu­do e um “am­plo de­ba­te na­ci­o­nal” pa­ra se ava­li­ar a vi­a­bi­li­da­de de pro­ce­der à re­or­ga­ni­za­ção dos ac­tu­ais ci­clos.

No seu pro­gra­ma elei­to­ral e de Go­ver­no, o PS des­ta­ca­va que pre­ten­dia “pro­mo­ver uma mai­or ar­ti­cu­la­ção en­tre os três ci­clos do en­si­no bá­si­co, re­de­fi­nin­do pro­gres­si­va­men­te a sua es­tru­tu­ra de mo­do a ate­nu­ar os efei­tos ne­ga­ti­vos das tran­si­ções en­tre ci­clos”. Mas ago­ra tan­to o Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção (ME) co­mo o gru­po par­la­men­tar so­ci­a­lis­ta, pe­la voz da de­pu­ta­da Su­sa­na Ar­ma­dor, des­car­tam es­ta hi­pó­te­se nas res­pos­tas que en­vi­a­ram ao PÚ­BLI­CO.

“O PS não avan­ça­rá com pro­pos­tas de re­de­fi­ni­ção de ci­clos, uma vez que es­tas im­pli­cam uma re­vi­são da Lei de Ba­ses do Sis­te­ma Edu­ca­ti­vo [LBSE, apro­va­da em 1986], a qual nos con­vo­ca sem­pre pa­ra uma am­pla dis­cus­são pré­via”, adi­an­ta Ar­ma­dor, fri­san­do que, pa­ra o gru­po par­la­men­tar do PS, “pa­re­ce ser mais cor­rec­to in­ves­tir em es­tra­té­gi­cas pe­da­gó­gi­cas, co­mo o Go­ver­no e a equi­pa da Edu­ca­ção têm vin­do a fa­zer, do que pla­ne­ar uma re­vi­são da lei de ba­ses sem ava­li­a­ção de im­pac­to e ape­nas pa­ra mar­car agen­da ao sa­bor de im­pul­sos me­diá­ti­cos”.

Por par­te do ME, es­pe­ci­fi­ca-se que, “dan­do cum­pri­men­to ao pro­gra­ma do Go­ver­no, na ela­bo­ra­ção do Pro- gra­ma Na­ci­o­nal pa­ra a Pro­mo­ção do Su­ces­so Es­co­lar, hou­ve uma pre­o­cu­pa­ção par­ti­cu­lar com os anos de tran­si­ção de ci­clo, já que as di­fi­cul­da­des as­so­ci­a­das à tran­si­ção se ve­ri­fi­cam tam­bém no 7.º e 10.º ano, e por is­so tem si­do fei­ta uma apos­ta na cri­a­ção de di­nâ­mi­cas en­tre ci­clos”. O mi­nis­té­rio su­bli­nha tam­bém que, “no âm­bi­to da fle­xi­bi­li­da­de cur­ri­cu­lar, tem si­do pro­mo­vi­do um tra­ba­lho em equi­pas pe­da­gó­gi­cas que, no 2.º ci­clo, ti­ra par­ti­do do fac­to de os gru­pos de re­cru­ta­men­to per­mi­ti­rem uma re­du­ção do nú­me­ro de pro­fes­so­res por tur­ma”.

O nú­me­ro de pro­fes­so­res por tur­ma, que no 2.º ci­clo [cons­ti­tuí­do pe­los 5.º e 6.º anos] po­de che­gar a dez, é um dos pro­ble­mas que têm si­do apon­ta­dos a es­te ní­vel de es­co­la­ri­da­de por in­ves­ti­ga­do­res e res­pon­sá­veis po­lí­ti­cos. Por três or­dens de ra­zões: a pas­sa­gem brus­ca de um en­si­no em re­gi­me de mo­no­do­cên­cia no 1.º ci­clo (um pro­fes­sor ti­tu­lar que po­de ser co­ad­ju­va­do por mais dois ou três em áre­as es­pe­cí­fi­cas, co­mo In­glês) pa­ra ou­tro ní­vel com um pro­fes­sor por dis­ci­pli­na e ge­ral­men­te lec­ci­o­na­do nou­tra es­co­la di­fe­ren­te; a seg­men­ta­ção de sa­be­res que daí de­cor­re; e a ida­de pre­co­ce (10-11 anos) em que es­ta mu­dan­ça acon­te­ce. “Têm-me che­ga­do alu­nos que ain­da não sa­bem atar bem os sa­pa­tos”, cons­ta­ta a pro­fes­so­ra de Ma­te­má­ti­ca do 2.º ci­clo, Ana Sil­ves­tre.

O in­ves­ti­ga­dor da Uni­ver­si­da­de Ca­tó­li­ca, Jo­a­quim Aze­ve­do, que in­te­grou uma co­mis­são cons­ti­tuí­da pe­lo Con­se­lho Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção (CNE) pa­ra ava­li­ar a LBSE, por oca­sião do 30.º ani­ver­sá­rio da sua en­tra­da em vi­gor, des­ta­ca um “pro­ble­ma-ba­se” que é o “da con­si­de­ra­ção acer­ca do que se en­ten­de por edu­ca­ção da in­fân­cia”. Lem­bra que, “na mai­o­ria dos paí­ses mais de­sen­vol­vi­dos, es­ta edu­ca­ção com­pre­en­de o pré-es­co­lar e o en­si­no bá­si­co até aos 11 anos, ha­ven­do uma es­co­la­ri­da­de bá­si­ca de cin­co ou seis anos”. É as­sim na qua­se to­ta­li­da­de dos 38

NUNO FER­REI­RA SAN­TOS

A ge­ne­ra­li­da­de dos alu­nos en­tra no 2.º ci­clo (cons­ti­tuí­do pe­los 5.º e 6.º anos) com 10 anos

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