Felicidade: “Temos de dar ferramentas às pessoas para que pensem de maneira crítica”
A felicidade está à nossa volta. Nos cartazes de rua, nos livros nos escaparates, nas fotografias que pululam as redes sociais, nas mensagens das empresas, mas para Edgar Cabanas e Eva Illouz este é um negócio e por causa disso escreveram A Ditadura da Felicidade
Oespanhol Edgar Cabanas é psicólogo e investigador no Max Planck Institute for Human Development, em Berlim. Eva Illouz é professora de Sociologia e Antropologia na Hebrew University of Jerusalem e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Juntaram-se e escreveram A Ditadura da Felicidade, editada pelo
Círculo de Leitores, uma crítica à forma como a felicidade é apresentada pela Psicologia Positiva, como esta se tornou numa indústria, a do bem-estar, e num negócio que movimenta milhões de euros. Mas esta é também uma forma de controlar a vida das pessoas, concentradas que estão em si mesmas, não se preocupando com o que se passa à sua volta, alertam.
A partir de Madrid, Edgar Cabanas conversou com o P2 pelo telefone e salvaguarda que não é contra a felicidade, mas sim contra a ideologia que se construiu em torno desta. Como cientista social reclama que mais importante do que impor a ideia da felicidade é dar ferramentas às pessoas para que compreendam que há que resolver os problemas políticos e sociais, primeiro. Só assim poderão ser felizes. Afinal Cabanas e Illouz não são contra “sorrisos, esperança e alegria”.
Até que ponto a felicidade é o triunfo do individualismo, como dizem, quando há países como a Dinamarca — considerado um dos mais felizes do mundo — com preocupações sociais?
Comecemos pelo início da pergunta — o triunfo do individualismo. O que os especialistas em felicidade dizem é que esta depende do indivíduo, ou seja, questões como classe, rendimentos, cultura ou qualquer outro aspecto social ou cultural é tirado da equação. Quando olhamos para a Dinamarca, podemos dizer que é um país com uma cultura individualista — por exemplo, se perguntarmos a um dinamarquês sobre a ideia de depender de outrem, mesmo da família, isso é considerado uma vergonha. Em termos sociais, há pouca desigualdade, mas culturalmente os dinamarqueses valorizam o individualismo e consideram-no positivo. Porque consideram que a ideologia da felicidade é uma resposta à crise económica de 2008?
Há uma relação forte, porque este discurso [da felicidade] diz que a solução para os problemas está em olharmos para dentro de nós; diz que as pessoas é que têm todas as respostas para resolverem os seus problemas. Esta é uma mensagem poderosa, porque num tempo em que as oportunidades são mais reduzidas, em que há precariedade, desigualdade, instabilidade económica, as pessoas são convidadas a olhar para o seu interior e a encontrar a chave para resolver os seus problemas. E isto é, em si mesmo, um problema. Os custos disto são a ansiedade, a depressão, as doenças mentais e emocionais. Ao ser proposta a felicidade como solução, não permitimos às pessoas que pensem sobre a origem dos seus problemas e estamos a dar-lhes as ferramentas erradas. Quais são as certas?
É não causar mais problemas. Se dizemos que a culpa é das pessoas, temos dois problemas: primeiro, a ansiedade causada pela situação de instabilidade em que se encontram; segundo, a culpa, que a pessoa não está a fazer o suficiente para sair ou prevenir o sofrimento.
Contudo, a felicidade é apresentada como resposta aos problemas de saúde mental e como uma ferramenta para se trabalhar a resiliência.
Sim, essas são algumas das ideias propostas. Quando analisamos o discurso sobre a felicidade, este é bem-intencionado, mas cria a sua própria forma de sofrimento. Este discurso está relacionado com o narcisismo, egoísmo, com um optimismo ilusório e também com a ideia de culpa. Porque, quando responsabilizamos as pessoas por tudo na sua vida, estamos a promover a ideia de que têm o que merecem. E isso não é verdade. Não somos contra a felicidade, per se, somos contra um discurso muito específico. Talvez haja uma maneira
diferente de promover uma forma mais verdadeira e rigorosa de falar sobre a felicidade.
Qual?
No livro não damos alternativas, estamos mais inclinados para pensar a felicidade em termos sociais. A ideia é falar sobre as condições necessárias para se ser feliz. Não apenas os aspectos psicológicos, mas os sociais, políticos e económicos. O actual discurso nega essas vertentes.
Por isso, defendem que esta felicidade é uma criação neoliberal?
Sim, porque corresponde aos pressupostos dessa ideologia.
No entanto, é difícil evitar a felicidade. Está nas redes sociais, na publicidade, na aparente vida feliz dos amigos... Há uma pressão para sermos felizes?
Sim, torna-se compulsivo, uma obrigação, sentimos a pressão de sermos felizes. A mensagem que passa é que a chave para ter uma vida bem sucedida reside na nossa atitude, na força de vontade, no pensamento positivo. Há uma indústria gigantesca que promete que é fácil ser feliz, que todos podemos sê-lo. E se queremos saber como ser feliz, primeiro, precisamos de comprar as ferramentas que os especialistas e cientistas têm desenvolvido. Se queremos transformar a felicidade num negócio, temos de transmitir a ideia que há ciência por detrás deste conceito. Segundo, tem de se dizer que há uma simplicidade em que nunca pensamos e que eles [os que estão a fazer negócio com a felicidade] têm a solução e o segredo está em nós e não está em mudar a economia, as condições sociais ou lutar por mais direitos laborais. A forma como a felicidade controla a nossa vida não é de uma forma coerciva, porque ninguém está a coagir-nos, mas sim a persuadir-nos. É científico, é simples, é bom para todos, está relacionado com mais oportunidades de se ser produtivo. A introdução deste discurso nas organizações é muito útil, porque cria um ambiente mais legítimo e as pessoas não se queixam, não se revoltam...
No livro falam dos “trabalhadores submissos”.
Não serão mais produtivos, mas mais fáceis de controlar e as organizações não têm de estar em constante vigilância, porque os trabalhadores interiorizam estes mecanismos de controlo. É uma forma de convencer as pessoas de que se trabalharem para a organização é bom para elas, porque o interesse da empresa e do trabalhador é um só e isso não é verdade.
Como é que a vertente de negócio entra nesta equação?
A ideia de estarmos obcecados connosco faz-nos procurar no mercado produtos e serviços que nos permitam sentirmo-nos bem constantemente. A outra face da moeda é que não nos podemos sentir mal, não temos resistência à frustração e estamos sempre à procura de formas de nos sentirmos bem, a tempo inteiro. Isto é irrealista e uma forma muito infantil de compreender o mundo.
É o que está a acontecer quando educamos para a felicidade?
Os pais educam de forma a evitar o sofrimento dos filhos. Isso é problemático, porque estamos a entrar numa cultura em que a frustração não é permitida, embora faça parte da vida adulta aprender a gerir a frustração, a ser realista. Esta cultura de “medalhas para todos” é muito problemática, porque estamos a criar crianças narcisistas, que não toleram a mais pequena frustração. E, como esta faz parte da vida, quando estas pessoas a sentem, sentem como se fosse ainda maior.
No livro dizem que este conceito de felicidade foi criado pela psicologia positiva (PP) e que não tem credibilidade. Porquê?
A PP não é nova, mas reivindica ter descoberto o segredo da felicidade. A novidade está na introdução da ideia que a felicidade pode ser um conceito científico, mas isso não é verdade. A PP tem sido criticada, porque há problemas metodológicos e pressupostos religiosos que são fruto da cultura americana. O que defendemos é que somos cientistas e que temos de estudar cientificamente [o assunto felicidade]. O que se passa é que a PP procura legitimar cientificamente aquilo que é um pressuposto cultural.
Mas temos governos e organizações como a ONU, a OCDE ou a OMS preocupadas em introduzir o conceito de felicidade. Apoiam os estudos, a realização de rankings para avaliar se os cidadãos são ou não felizes.
É difícil explicar, mas os que trabalham na PP não são meros investigadores, mas economistas e políticos, pessoas inf uentes nessas instituições. Como as organizações estão preocupadas com a saúde mental e os psicólogos oferecem uma ideia científica de felicidade, estas adoptam essas ideias, porque querem algo científico para melhorar as vidas das pessoas. O problema é que estas ideias não são científicas. A OCDE, que no início estava muito entusiasmada com esta ideia, no último ano já concluiu que não há uma maneira válida de medir a felicidade.
Mas há rankings da felicidade.
É muito difícil medir algo que não sabemos o que é. Também há problemas quando se tenta comparar, por exemplo, a felicidade dos portugueses com a dos chineses ou dos suecos. São povos e culturas diferentes com compreensões diferentes do que é a felicidade. É um problema quando tentamos homogeneizar, ou seja, não há uma maneira científica de fazer comparações. Estas organizações, que, no início, estavam muito entusiasmadas, começaram a ref ectir, a criticar e a alertar para as dificuldades de procurar comparar diferentes conceitos.
Qual é a alternativa à felicidade da PP?
Temos de dar ferramentas às pessoas para que pensem de maneira crítica. Não cabe aos cientistas sociais dizer o que é bom; só devemos providenciar ferramentas rigorosas para pensarem sobre os problemas, mas não temos de dar a solução.
Não é isso que os psicólogos fazem?
Esse é um dos grandes problemas dos psicólogos, porque [na PP] dizem às pessoas o que fazer. E isso cabe aos políticos. Por isso, denunciamos que estes psicólogos são políticos e não cientistas. Somos cientistas sociais e cabe-nos providenciar ferramentas para pensar de maneira crítica, para compreender os fenómenos da maneira mais rigorosa possível. A decisão cabe às pessoas. A felicidade não é um conceito científico, mas cultural, político. Não há ciência que possa dizer objectivamente o que é a felicidade. A alternativa não é uma ciência da felicidade melhor, mas uma forma mais responsável e democrática de pensar sobre a felicidade, uma forma que não esteja relacionada com o consumo,
A justiça ajuda-nos a prosseguir valores mais importantes do que a felicidade; e o conhecimento é a proposta de pensarmos de forma crítica
negócio, com organizações que querem que pensemos sobre a felicidade como elas pensam.
Os cientistas são imparciais?
A ciência não é imparcial, nunca, nem mesmo na matemática há imparcialidade. Não é possível. Quando se é cientista, tenta-se ser objectivo, neutro, mas tenta-se. É o melhor que conseguimos.
Porque os cientistas têm a sua história, a sua visão do mundo e é com essas características que partem para a investigação.
Claro, temos as nossas ideias, tentamos pôr tudo isso de parte e essa é uma atitude científica, mas não é a realidade científica, porque não começamos do zero. Quando se pesquisa, começa-se a partir da nossa biografia, dos nossos preconceitos, das nossas preferências, dos nossos desejos. Por isso, em ciência temos de estar constantemente a discutir, a analisar, a criticar, porque só assim conseguiremos encontrar maneiras objectivas de olhar para os problemas e pensar sobre eles.
O livro termina com uma frase em que se enunciam os conceitos de “justiça” e “conhecimento”. É essa a alternativa à felicidade apresentada pela PP?
Talvez não seja uma alternativa, mas uma reivindicação. Na nossa opinião, a justiça ajuda-nos a prosseguir valores mais importantes do que a felicidade; e o conhecimento é a proposta para pensarmos de forma crítica. É algo a que devemos aspirar. Estamos a esquecer estes dois conceitos, porque tornámos a felicidade no tema mais importante das nossas vidas. Não sei para onde vamos, se nos concentrarmos apenas na felicidade, talvez não seja para um sítio bom. A nossa proposta é que pensemos noutros valores, como a solidariedade, que é algo de que devíamos falar mais e parece que a única coisa que temos é a felicidade, felicidade, felicidade.
Mas, se formos solidários, não seremos mais felizes?
Sim, mas o cerne da questão não é como nos sentimos quando somos solidários. A solidariedade deveria ser um valor bom em si mesmo. Se dizemos que nos faz felizes, então é porque a solidariedade não é o mais importante, mas sim a felicidade. Não penso que as pessoas sejam mais felizes por ajudarem os outros em África; aliás, devem sofrer muito, mas estão a fazer o bem e isso é que é importante, o ajudar, o ser útil, o fazer algo justo e socialmente responsável. Talvez alguns se sintam felizes, mas isso não é o mais importante.
A vossa proposta é a de um mundo em que as coisas se fazem por obrigação e não pelo prazer que podemos ter?
Não. Propomos que sejamos adultos. Não somos contra sorrisos, esperança, alegria. Não propomos que as pessoas sejam tristes, mas que se riam, que tenham sentido de humor. O que não gostamos é que nos relacionemos com o mundo de uma maneira infantil, que é o que a felicidade [como é apresentada] nos propõe.
Temos de ser mais responsáveis?
Sim, mais responsáveis, mais realistas, mais preocupados que o mundo não esteja reduzido ao nosso mundo interior. As pessoas estão convencidas que só o mundo interior interessa e isso é uma mentira. O nosso mundo interior é uma consequência do exterior.