Não há al­ter­na­ti­vas? Só se não qui­ser­mos

Edição Público Lisboa - Público - P2 - - ÍNDICE - Ví­tor Be­lan­ci­a­no

Es­tão por to­do o la­do. Con­vul­sões em San­ti­a­go, Qui­to, Bar­ce­lo­na ou Pa­ris. Mi­lha­res em Lon­dres, Bag­dad, Lí­ba­no ou Hong Kong. Is­to já pa­ra não fa­lar do pla­ne­ta na rua pe­lo am­bi­en­te. Uns bran­cos, ou­tros in­dí­ge­nas, ára­bes, asiá­ti­cos, ho­mens, mu­lhe­res ou cri­an­ças. Mas se­ja em cas­te­lha­no, in­glês ou ára­be, sur­pre­en­de a se­me­lhan­ça dos car­ta­zes e das pa­la­vras de or­dem.

A ba­se des­ta ira ge­ne­ra­li­za­da, qua­se si­mul­tâ­nea, não é co­mum. São his­tó­ri­as di­ver­sas. Mo­ti­va­ções es­pe­cí­fi­cas. A lei da ex­tra­di­ção. O pre­ço dos com­bus­tí­veis. Lon­gas pe­nas de pri­são. O cus­to dos trans­por­tes. Há ex­pec­ta­ti­vas que não fo­ram cum­pri­das. Li­ber­da­des co­lec­ti­vas e in­di­vi­du­ais pos­tas em cau­sa. Cres­cen­tes de­si­gual­da­des. Mas ne­nhum des­tes pro­tes­tos po­de ser re­du­zi­do a ape­nas uma só ques­tão, in­clu­si­ve a eco­nó­mi­ca.

O que há de idên­ti­co é a fú­ria, ou mes­mo por ve­zes a vi­o­lên­cia, con­tra au­to­ri­da­des, na mai­or par­te dos ca­sos, le­gi­ti­ma­men­te ins­ti­tuí­das. Ou­tro tra­ço é a for­ma co­mo num pri­mei­ro mo­men­to os po­de­res re­a­gem com mús­cu­lo, pa­ra de­pois re­cu­a­rem. Re­vo­ga-se leis e me­di­das con­cre­tas. Sa­tis­faz-se as exi­gên­ci­as. Mas os pro­tes­tos man­têm-se. E is­so acon­te­ce por­que o fós­fo­ro que ate­ou a de­sor­dem, foi pre­tex­to. Foi aqui­lo. Po­dia ter si­do ou­tra coi­sa. Cor­res­pon­deu à ex­pres­são de um des­con­ten­ta­men­to pro­fun­do que já es­ta­va lá, la­ten­te, que po­dia ser ac­ci­o­na­do em qual­quer ins­tan­te. Mes­mo de­pois dos re­cu­os, as re­cla­ma­ções con­ti­nu­am. Dei­xa de ha­ver mo­ti­vo con­cre­to a anu­lar. A re­vol­ta tor­na-se di­fu­sa. Pa­ra on­de e quem a ca­na­li­za?

Nu­ma ló­gi­ca clás­si­ca, mar­cam-se elei­ções, e a es­pe­ran­ça é que quem al­can­ce o po­der, mu­de a tra­jec­tó­ria. Mas es­te é ou­tro tem­po, com im­pas­ses à es­quer­da e di­rei­ta, on­de é a pró­pria ló­gi­ca mo­de­lar que pa­re­ce es­tar em cau­sa. Em al­guns des­tes ca­sos não es­ta­re­mos a as­sis­tir às con­sequên­ci­as do ar­ras­tar da pi­or cri­se das úl­ti­mas dé­ca­das? Não se­rá daí que, em al­guns des­tes ca­sos, vi­rá es­se mal-es­tar ocul­to e dis­se­mi­na­do? Dis­se-se aos ci­da­dãos que era al­tu­ra de sa­cri­fí­ci­os. Tra­ba­lhar mais. Pa­gar mais im­pos­tos. Adi­ar so­nhos. O re­sul­ta­do se­ria bom pa­ra to­dos. Uma dé­ca­da de­pois, ape­nas al­guns sor­ri­em. A de­si­gual­da­de so­ci­al ex­plo­diu. A eco­no­mia es­tag­na. Os re­cur­sos am­bi­en­tais re­ve­lam-se li­mi­ta­dos. A de­mo­cra­cia de­gra­da-se. Pa­ra mui­tos, tor­na-se evi­den­te que o ac­tu­al sis­te­ma não é sus­ten­tá­vel.

Há ca­da vez mais gen­te a di­zê-lo de for­ma crí­ti­ca. Os que o fa­zem são de ime­di­a­to co­no­ta­dos com cons­pi­ra­ções de “mar­xis­mo cul­tu­ral”, e ou­tros ab­sur­dos, sin­to­ma de quem pro­fe­re tais nar­ra­ti­vas não con­se­gue trans­cen­der ló­gi­cas du­ais, sair de pas­sa­dos mi­ti­fi­ca­dos e con­ce­ber ou­tros ho­ri­zon­tes pos­sí­veis. A ló­gi­ca, co­mo na al­tu­ra mais agu­da da cri­se, quan­do a via da aus­te­ri­da­de era pro­cla­ma­da co­mo a úni­ca pos­sí­vel, é sem­pre a mes­ma: ten­tar de­mons­trar que não exis­tem al­ter­na­ti­vas aos mo­de­los so­ci­o­e­co­nó­mi­cos do­mi­nan­tes, co­mo se a so­lu­ção fos­se con­ti­nu­ar a acre­di­tar na uto­pia no cres­ci­men­to in­fi­ni­to.

Es­te cal­do re­vol­to­so é pro­pí­cio a po­pu­lis­mos e to­ta­li­ta­ris­mos. So­lu­ções sim­plis­tas pa­ra ques­tões com­ple­xas. Mas is­so não é uma fa­ta­li­da­de. Não va­le a pe­na ter ilu­sões. Vi­vem-se tem­pos de des­nor­te. Cer­to é que es­ta po­de ser tam­bém uma al­tu­ra trans­for­ma­do­ra, des­de que a in­sa­tis­fa­ção se ar­ti­cu­le e am­plie, ru­mo a um ho­ri­zon­te mais em­pá­ti­co, igua­li­tá­rio, li­vre e de­mo­crá­ti­co. Não te­mos de vi­ver em con­tí­nua in­sa­tis­fa­ção. Há sem­pre op­ções. Ca­be cons­truí- las com re­si­li­ên­cia, não acre­di­tan­do em in­sur­rei­ções mi­ra­cu­lo­sas, mas em cri­te­ri­o­sas es­co­lhas po­lí­ti­cas, so­ci­ais e cul­tu­rais. O fu­tu­ro nun­ca es­tá es­cri­to de an­te­mão.

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