GQ (Portugal)

JUSTIN AMORIM BEHIND THE SCENES

Com apenas 27 anos já criou a sua própria produtora, a Promenade, produziu a série mais vista na RTP Play e o seu primeiro filme está a caminho da HBO. Falámos com o realizador sobre cinema e sobre um featuring especial.

- Por Ana Saldanha

Adar cartas no audiovisua­l português com formatos frescos e irreverent­es que apelam a uma geração que se via cada vez mais distante do cinema e das séries portuguesa­s, Justin Amorim não esconde de onde bebe inspiração para as suas películas nem a vontade de fazer mais e melhor por cá.

Justin Amorim é filho de pais portuguese­s, nasceu no Canadá, mas foi em terras lusas que cresceu e que adquiriu as influência­s que o fariam querer fazer cinema em português. “Eu cresci cá, mas aos 18 anos decidi que queria ir estudar para os Estados Unidos, com uma visão superutópi­ca do que era o cinema lá fora. Estive seis anos fora e não conhecia muito bem o cinema português, porque via filmes americanos e tudo o mais, mas quando quis fazer a minha primeira longa metragem quis vir fazê-la aqui porque fazia todo o sentido, porque cresci cá. Fiz cá o meu filme e depois ainda voltei para lá durante a montagem. Mas quis vir para cá e trabalhar no cinema português – para mim foi uma escolha muito pessoal porque não me sentia capaz de escrever histórias que não fossem portuguesa­s, com uma influência de fora, porque acho que é isso que eu faço, mas que existem aqui”, conta o realizador.

O filme de que fala é o premiado Leviano, estreado em julho de 2018, com um elenco de luxo composto por nomes como Diana Marquês Guerra, Anabela Teixeira, Alba Baptista, Mikaela Lupu, José Fidalgo, Ruben Rua e João Mota. De Leviano passou para a produção da segunda temporada da websérie #CasadoCais, que saltou da RTP Play para o primeiro canal e que foi uma pedra no charco – “só porque é LGBT”, conta Justin.

“Na primeira temporada a RTP levou com muita crítica e na segunda foi igual. Eles recebem muitas cartas, muito hate do público por causa desta série, mas o importante é que não desistiram e apostaram na segunda temporada. E a prova é que é um sucesso, foi sempre o conteúdo mais visto na RTP Play e agora a #CasadoCais vai passar na RTP pela primeira vez e acho que isso vai ser interessan­te. Aí é que é interessan­te, pegar nos conteúdos que são arrojados e transportá-los para um grande público”, explica o realizador.

“Os programas da RTP Play vêm do RTP Lab, que é como se fosse uma incubadora, um projeto que eles têm para jovens talentos e projetos mais arrojados. A #CasadoCais nasceu daí, tal como a minha próxima série, que é a 5Starz e que estamos a preparar agora”, explica. Se ficou curioso, a estreia está apontada para o próximo ano, depois ter sido atrasada pela pandemia. Contudo, Justin revelou que o confinamen­to lhe deu tempo para trabalhar mais: “Estivemos em desenvolvi­mento, foi uma altura que eu e a produtora aproveitám­os para dedicar ao desenvolvi­mento de projetos, porque nunca temos tempo para isso de nos sentarmos, escrever e desenvolve­r ideias. Foi numa altura em que o ICA (Instituto do Cinema e Audiovisua­l) estava com vários concursos abertos, então fomos a vários com novos projetos.”

Mas no cinema português nem tudo são rosas – a área padece do mesmo mal que tantas outras áreas da cultura, faltam apoios, falta público, faltam condições – “O RTP Lab, apesar de ser uma oportunida­de ótima, os orçamentos são... muito complicado­s. O panorama do cinema português está muito mau. Os espectador­es são poucos… Mas há muitos filmes bons a serem feitos cá, em Portugal... Este ano não tem dado para estrear muita coisa, mas há muita coisa interessan­te a ser feita e muitos jovens atores incríveis. Eu acho que temos uma coisa incrível, que é o ICA. É incrível termos isso incluído no Orçamento do Estado e termos um orçamento minimament­e decente, apesar de muita gente não concordar com isto, mas que permite que as pessoas façam filmes. Não há investimen­to privado no cinema português, é tudo bancado pelo Estado, quer seja o ICA quer a RTP. Por exemplo, eu tenho colegas nos Estados Unidos que não têm isso, isso não existe nos EUA, uma coisa do Governo que tem um orçamento e contribui para o cinema”, conta Justin.

CHANGE IS CATASTROPH­IC

Nesta edição da GQ, Justin aterrou nas nossas páginas depois de ter estado atrás da câmara que deu vida à curta-metragem Change, protagoniz­ada por Alba Baptista. E não podíamos não aproveitar para falar do processo criativo e da sua interpreta­ção do tema Change Is Good. “Para este vídeo, o processo criativo foi completame­nte diferente de uma longa, por exemplo. Para o Leviano, que é sempre a minha referência porque foi o meu último grande projeto, foram seis meses fechado em casa, sozinho a escrever, todos os dias a escrever, a fazer rascunhos, a encher a minha parede, parecia… absolutely insane. Este vídeo já tinha um tema e não era tão de ficção ou tão da minha cabeça. Eu queria pegar numa coisa que fosse muito da Alba e visto que isto é o momento dela na revista eu queria que fosse uma coisa pessoal...”, conta o realizador.

“Quando ouvimos que o tema era Change Is Good, eu comecei a perguntar-me como é que consigo justificar que a mudança é boa, ainda por cima depois de tantas mudanças que têm estado a acontecer e que não são muito boas. Mas o que eu pensei é que nem todas as mudanças são boas, mas há alguma coisa de positivo a retirar de todas as mudanças. E comecei a pensar na Alba, no que é que para ela é uma mudança boa. E toda a gente que a conhece bem sabe que quando ela vem a Lisboa não aguenta mais de dois ou três dias. Depois desaparece durante um fim de semana, desliga o telemóvel, vai recarregar as energias dela… Por exemplo, quando acabou o Warrior Nun ela foi numa viagem de dois meses sozinha, desaparece­u. E eu achei que era isso, a confusão da cidade, o overwhelmi­ng, overthinki­ng, over connected… E depois tive na ideia um conceito de um filósofo, que é o Bion, que é a mudança catastrófi­ca. Toda a mudança, qualquer mudança é catastrófi­ca. Fui ler mais e mais sobre isso e percebi que há três fases nesta mudança: a pré, a catástrofe e a pós. E o filme está dividido nessas três partes: a pré-catástrofe é o tal overwhelmi­ng, a sensação de paranoia, de hipocondri­a, a parte catastrófi­ca é uma parte mais violenta, mais agressiva, mais de rutura, e o pós é uma reflexão sobre conseguir realmente chegar à mudança”, explica.

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