Por­tu­gal, dos pi­o­nei­ros aos cam­peões eu­ro­peus

JN História - - A Abrir - Tex­to de Al­mi­ro Ferreira

Os pri­mór­di­os do fu­te­bol em Por­tu­gal e o pri­mei­ro jogo com su­pe­ri­or or­ga­ni­za­ção, no ca­so com o al­to pa­tro­cí­nio do Rei D. Car­los I, re­mon­tam a 2 de mar­ço de 1894. No Opor­to Cric­ket and Lawn Ten­nis Club, o Club Lis­bo­nen­se ba­teu o Fo­ot­ball Club do Por­to, por 1-0. Tu­do na pre­sen­ça do mo­nar­ca, de to­da a fa­mí­lia re­al e tam­bém da al­ta aris­to­cra­cia tri­pei­ra. Tu­do mui­to “fair play”. Mas foi só o pri­mei­ro epi­só­dio de uma lon­ga nar­ra­ti­va de ri­va­li­da­de, que nun­ca foi só des­por­ti­va, en­tre Por­to e Lis­boa, en­tre o F. C. Por­to e os clubes da ca­pi­tal. Vi­a­gem às ori­gens do fu­te­bol português e re­tros­pe­ti­va de mais de um sé­cu­lo de to­do o gé­ne­ro de re­fre­gas. Até des­por­ti­vas....

Na in­con­ci­li­a­ção de con­tras­tes e in­te­res­ses, vai uma his­tó­ria re­ple­ta de to­das as res­so­nân­ci­as so­ci­ais, cul­tu­rais e po­lí­ti­cas. So­bre­tu­do po­lí­ti­cas, por­que, por cul­pa do seu pró­prio su­ces­so, o rei dos des­por­tos tam­bém não de­mo­rou a ser vis­to, em Por­tu­gal e por es­se mun­do afo­ra, co­mo ins­tru­men­to dos po­de­res ins­ta­la­dos pa­ra a pro­pa­gan­da e ma­ni­pu­la­ção dos es­tá­di­os, a co­ber­to da ado­ra­ção re­li­gi­o­sa aos em­ble­mas e aos ído­los da bo­la.

Aque­la Cup D’EL Rey de 1894, tro­féu de prata ma­ci­ça exe­cu­ta­do pe­lo jo­a­lhei­ro da Ca­sa Re­al, ti­nha a ins­cri­ção “Fo­ot­ball Cham­pi­onship das Ci­da­des de Por­tu­gal”. Pre­ten­dia ser o pré­mio de uma com­pe­ti­ção anu­al pa­ra clubes de to­do o país, mas que lo­go se fi­cou por uma úni­ca edi­ção. Nes­sa sex­ta-fei­ra, no ime­di­a­to pe­di­do de ti­ra- tei­mas apre­sen­ta­do pe­lo que foi o em­brião do atu­al F. C. Por­to, tam­bém co­me­çou a fi­nar-se mui­ta da fleu­ma bri­tâ­ni­ca que eman­ci­pou o “be­au­ti­ful ga­me” da bru­ta­li­da­de do râ­gue­bi sem re­gras. Tam­bém o que es­ta­va pa­ra ser o lí­ri­co es­pí­ri­to do jogo, o do “Fo­ot­ball As­so­ci­a­ti­on”, tão des­ti­na­do às eli­tes bur­gue­sas, ra­pi­da­men­te se tor­nou num fe­nó­me­no de mas­sas, in­con­tro­lá­vel. E se o fu­te­bol nas­ceu co­mo fi­gu­ra­ção mo­der­na e ci­vi­li­za­da de an­ces­trais ba­ta­lhas lo­go en­con­trou ter­re­no fér­til nos an­ta­go­nis­mos so­ci­ais e ter­ri­to­ri­ais.

Aos chu­tos na bo­la, dois clubes, du­as ru­as, dois bair­ros, du­as ci­da­des ou dois paí­ses po­di­am, do­ra­van­te, nu­trir se­cu­la­res con­fron­tos em tem­pos de paz, por in­ter­mé­dio de 22 ho­mens, on­ze de ca­da la­do. O es­tá­dio pas­sou a ser tam­bém um es­tra­do et­no­ló­gi­co, te­a­tral e emo­ci­o­nal, on­de se or­ga­ni­zam as prá-

ti­cas co­mu­ni­tá­ri­as dos adep­tos. Ca­da qual tor­ce­rá pe­la sua tri­bo, em re­pre­sen­ta­ção de uma qual­quer ideologia e no de­se­jo de iden­ti­fi­ca­ção com o ven­ce­dor, que se­rá acla­ma­do co­mo sím­bo­lo de as­cen­den­te so­bre o clã ini­mi­go. Ora, foi es­te re­creio de afe­tos e de ódi­os de es­ti­ma­ção que tam­bém sus­ci­tou um fe­nó­me­no so­ci­al im­pa­rá­vel, sem­pre mo­to­ri­za­do pe­la ri­va­li­da­de.

Os pri­mei­ros clubes

Lo­go na pré-his­tó­ria des­ta sequên­cia mui­tos se di­gla­di­a­ram a rei­vin­di­car o pi­o­nei­ris­mo do “be­au­ti­ful ga­me”: no iní­cio da dé­ca­da de 1870, já os mer­ca­do­res de Vi­nho do Por­to se ga­ba­vam de te­rem si­do os pri­mei­ros a tra­zer en­tre as pi­pas a bo­la do “drib­bling ga­me”; em 1876, Lis­boa re­cla­mou o pri­mei­ro jogo de exi­bi­ção, na pra­ça de tou­ros do Cam­po Pe­que­no, on­de, re­zam as cró­ni­cas, um com­bi­na­do de clubes lis­bo­e­tas e de es­tu­dan­tes por­tu­gue­ses, re­cém- re­gres­sa­dos dos es­tu­dos em Cam­brid­ge, ven­ceu (2-1) uma equi­pa de en­ge­nhei­ros das com­pa­nhi­as in­gle­sas ins­ta­la­das na ca­pi­tal; e tam­bém a Ma­dei­ra exi­ge o pi­o­nei­ris­mo do fu­te­bol em Por­tu­gal, por via de um jogo, su­pos­ta­men­te or­ga­ni­za­do por um ci­da­dão in­glês, um tal Har­ry Hin­ton, no lu­gar da Acha­da, na Ca­ma­cha, on­de foi er­gui­do um mo­nu­men­to pa­ra imor­ta­li­zar es­se “mat­ch” de 1875.

Se não há cer­te­za so­bre a pri­mei­ra vez em que uma bo­la de fu­te­bol pin­chou em Por­tu­gal, já os no­ta­ri­a­dos re- gis­tam com pre­ci­são o nascimento dos pri­mei­ros gran­des clubes por­tu­gue­ses. En­tre os mais no­tá­veis, o Fo­ot­ball Club do Por­to (1893), gé­ne­se do atu­al F. C. Por­to (as­sim re­ba­ti­za­do e re­fun­da­do em 1906), o Bo­a­vis­ta F. C. (1903), o Sporting C. P. (1906) e o S. L. Benfica (1908). Por es­ta al­tu­ra, o fu­te­bol já dei­xa­ra de ser “a ma­lu­qui­ce dos in­gle­ses” e pas­sa­ra a ser o des­por­to de mai­or implementação po­pu­lar, so­bre­tu­do no Por­to e em Lis­boa, que pas­sa­ram a or­ga­ni­zar os pri­mei­ros cam­pe­o­na­tos dis­tri­tais e re­gi­o­nais. Ou­tras as­so­ci­a­ções dis­tri­tais co­me­ça­ram a flo­rir, até que, a 31 de mar­ço de 1914, foi fun­da­da a União Por­tu­gue­sa de Fu­te­bol, por ini­ci­a­ti­va das as­so­ci­a­ções do Por­to, de Lis­boa e de Por­ta­le­gre. Lis­boa ba­teu o

pé e fi­cou com a se­de. E foi ain­da es­ta se­men­te do que ho­je é a Fe­de­ra­ção Por­tu­gue­sa de Fu­te­bol, nas­ci­da em maio de 1926, que tra­tou de in­tro­du­zir Por­tu­gal à so­ci­e­da­de das na­ções do fu­te­bol. A can­di­da­tu­ra foi acei­te no XII Con­gres­so da FI­FA, de­cor­ri­do em maio de 1923, em Ge­ne­bra.

Na al­tu­ra des­ta ade­são ao pla­ne­ta do fu­te­bol, li­de­ra­do pe­lo fran­cês Ju­les Ri­met, já es­ta­va em mar­cha o Cam­pe­o­na­to de Por­tu­gal, ini­ci­a­do em 1921-22 e dis­pu­ta­do por eli­mi­na­tó­ri­as. O pri­mei­ro cam­peão foi o F. C. Por­to, que ga­nhou ao Sporting: 2-1, 0-2 e 3-1, após pro­lon­ga­men­to, na fi­na­lís­si­ma dis­pu­ta­da no Bessa. No mes­mo dia, a 18 de ju­nho de 1922, em que tam­bém se fes­te­ja­va a fa­ça­nha de Ga­go Cou­ti­nho e Sa­ca­du­ra Cabral, que ti­nham aca­ba­do de com­ple­tar a pri­mei­ra tra­ves­sia aé­rea do Atlân­ti­co Sul, a fes­ta pro­lon­gou­se pe­las ru­as da In­vic­ta, ma­dru­ga­da fo­ra, na acla­ma­ção dos he­róis da bo­la. Pa­ra a eter­ni­da­de fi­ca­ram os no­mes dos pri­mei­ros cam­peões de Por­tu­gal: Li­no Mo­rei­ra, Jú­lio Car­do­so, Ar­tur Au­gus­to, Jo­sé Mota, Ve­lez Car­nei­ro, Flo­re­a­no Pe­rei­ra, João de Bri­to, Bal­bi­no da Sil­va, Ale­xan­dre Cal, Ta­va­res Bas­tos, João Nunes. O trei­na­dor era o fran­cês Adolphe Cas­saig­ne.

Na­que­le que, à épo­ca, era o car­taz mais pal­pi­tan­te do fu­te­bol português, F. C. Por­to e Sporting vol­ta­ram a cru­zar-se na fi­nal do cam­pe­o­na­to de 192425. Tal co­mo su­ce­de­ra três anos an­tes, hou­ve fi­na­lís­si­ma e bronca com a es­co­lha do cam­po. O F. C. Por­to re­cu­sou jo­gar em Fa­ro, não acei­tou a pro­pos­ta de Coim­bra e exi­giu que o tí­tu­lo fos­se dis­pu­ta­do em Vi­a­na do Cas­te­lo. Fi­nal­men­te, no Cam­po de Mon­ser­ra­te, os por­tis­tas ga­nha­ram a ne­gra, por 2-1.

Nes­sa épo­ca, an­tes de os “gran­des” se afir­ma­rem co­mo tal e de se im­po­rem co­mo for­ças pra­ti­ca­men­te ine­lu­tá­veis, ain­da hou­ve três cam­peões ines­pe­ra­dos: o Olha­nen­se, em 1923-24 (4-2 ao F.C. Por­to, na fi­nal); o Marítimo, em 1925- 26 ( 2- 0 ao Be­le­nen­ses); e o Car­ca­ve­li­nhos, em 1927- 28 ( 3- 1 ao Sporting). Em 17 edi­ções, o F. C. Por­to e o Sporting, ca­da qual ven­ce­dor em qu­a­tro oca­siões, o Benfica e o Be­le­nen­ses (três tí­tu­los pa­ra ca­da um) lo­go im­pu­se­ram a or­dem pa­ra o que veio a se­guir, o cam­pe­o­na­to de to­dos con­tra to­dos, co­mo o co­nhe­ce­mos ho­je, e que foi ado­ta­do em 1938-39.

Nes­sa pri­mei­ra épo­ca do cam­peo- na­to por pon­tos (dois por vi­tó­ria, um pe­lo em­pa­te) o cam­peão vol­tou a ser o F. C. Por­to. Em 14 jor­na­das, a equi­pa da Cons­ti­tui­ção so­mou 23 uni­da­des (dez vi­tó­ri­as e três em­pa­tes). O Sporting ( 22) e o Benfica ( 21) che­ga­ram lo­go atrás. Na épo­ca se­guin­te, a de 1939- 40, as estrelas azuis e bran­cas, trei­na­das pe­lo hún­ga­ro Mi­kaly “Mi­guel” Sis­ka, vol­ta­ram a ga­nhar o cam­pe­o­na­to. Foi, tam­bém, a con­sa­gra­ção de­fi­ni­ti­va de Ar­tur de Sousa “Pin­ga”, con­si­de­ra­do o me­lhor jo­ga­dor português da épo­ca, e a re­ve­la­ção de um gran­de go­le­a­dor, o cro­a­ta Slav­ko Ko­drn­ja, me­lhor mar­ca­dor do cam­pe­o­na­to, com 29 go­los, a par de Pey­ro­teo, ou­tro cra­que imor­tal, que bri­lha­va com a camisola do Sporting.

Em 1940-41, o F. C. Por­to ini­ci­ou uma pe­no­sa tra­ves­sia do de­ser­to, que nin­guém adi­vi­nha­va e mui­to me­nos que du­ras­se... 16 anos! Nes­se pe­río­do, os clubes de Lis­boa do­mi­na­ram os pe­la­dos e os rel­va­dos e tam­bém os ga­bi­ne­tes, ini­ci­an­do-se o que des­de o Por­to se de­nun­ci­a­va co­mo uma cer­ta teia BSB, Benfica, Sporting, Be­le­nen­ses, que se re­ve­za­vam na con­quis­ta dos tí­tu­los e tam­bém na no­me­a­ção e con­tro­lo dos dirigentes de to­dos os ór­gãos do fu­te­bol português, so­bre­tu­do os da ar­bi­tra­gem. Os por­tis­tas só vol­ta­ri­am a ser cam­peões em 1956 e 1959, não sem te­rem de ven­cer os po­de­res do si­tu­a­ci­o­nis­mo e o que fi­cou ce­le­bri­za­do co­mo “ca­so Ca­la­bo­te”, as­sim co­nhe­ci­do des­de o fi­nal da tar­de de 22 de mar­ço de 1959, quan­do os jo­ga­do­res do F. C. Por­to, de­pois de te­rem ga­nho ao Tor­re­en­se, em Tor­res Ve­dras, por 3-0, na úl­ti­ma jor­na­da do cam­pe­o­na­to, ti­ve­ram de es­pe­rar pe­lo des­fe­cho do jogo Benfica- CUF, de­li­be­ra­da­men­te atra­sa­do e que só aca­bou qua­se um quar­to de ho­ra de­pois, com o re­sul­ta­do em 7-1 a fa­vor do Benfica e com uma ar­bi­tra­gem tão ca­sei­ra que, mais do que um es­cân­da­lo, cri­ou uma len­da no fu­te­bol português. Fi­nal­men­te, com to­dos os ou­vi­dos co­la­dos à rá­dio, aca­bou o sus­pen­se e o F. C. Por­to lá pô­de fes­te­jar o tí­tu­lo. Por um go­lo!

Fa­ma e pro­vei­to

Ora, se ti­nham a fa­ma, os em­ble­mas da ca­pi­tal tam­bém ti­ve­ram o pro­vei­to. O F. C. Por­to ber­ra­va na su­bal­ter­ni­da­de, de­nun­ci­a­va os cor­re­do­res da bo­la e tam­bém o su­pos­to cen­tra­lis­mo da Fe­de­ra­ção, nu­ma gri­ta­ria que mui­tas vezes in- gres­sou no do­mí­nio da po­lí­ti­ca e que foi vis­ta co­mo uma afron­ta ao pró­prio re­gi­me do Es­ta­do No­vo. Cer­to é que os “an­dra­des”, co­mo en­tão os ri­vais des­de­nha­vam os por­tis­tas, fo­ram, so­bre­tu­do, ví­ti­mas de uma gran­de equi­pa do Sporting, que do­mi­nou qua­se sem par­ti­lha. Em 15 anos, en­tre 1940 e 1955, o Sporting fes­te­jou no­ve vezes. Foi tri­cam­peão ( 1947- 49) e te­tra­cam­peão (1951-54).

Tu­do co­me­çou nos tem­pos do “Cin­co Vi­o­li­nos”, um dia des­cri­tos co­mo a or­ques­tra mais va­li­o­sa da his­tó­ria do fu­te­bol português. Eram os cin­co avan­ça­dos le­o­ni­nos – Fer­nan­do Pey­ro­teo, Vas­ques, Al­ba­no, Je­sus Cor­reia e Jo­sé Tra­vas­sos –, um quin­te­to de in­com­pa­rá­veis in­tér­pre­tes, que jo­ga­vam com a har­mo­nia das gran­des sin­fo­ni­as, nu­ma ver­ti­gi­no­sa su­ces­são de fu­te­bol ata­can­te. Uma má­qui­na vo­raz, com go­los atrás de go­los, fun­ção em que se es­pe­ci­a­li­zou Pey­ro­teo. En­tre 1937 e 1949, em 526 jo­gos pe­lo Sporting, o ata­can­te nas­ci­do em An­go­la e re­cru­ta­do pe­lo clu­be de Al­va­la­de a ou­tro Sporting, o de Lu­an­da, fa­tu­rou qual­quer coi­sa co­mo 526 go­los.

A he­ge­mo­nia le­o­ni­na só foi que­bra­da com a che­ga­da a Por­tu­gal de ou­tro gran­de go­le­a­dor oriun­do das co­ló­ni­as, no ca­so de Moçambique, que até es­ta­va pa­ra in­gres­sar no Sporting mas que, à úl­ti­ma ho­ra, foi des­vi­a­do pa­ra o ri­val Benfica. Eu­sé­bio da Sil­va Ferreira, é de­le que se tra­ta, gui­ou o clu­be da Luz à im­po­si­ção de uma no­va or­dem, até in­ter­na­ci­o­nal.

Che­ga o “pan­te­ra ne­gra”

Pa­tri­mó­nio do Benfica e do fu­te­bol, sím­bo­lo de uma cer­ta por­tu­ga­li­da­de ul­tra­ma­ri­na e da gran­de­za co­lo­ni­al per­di­da, Eu­sé­bio foi, além de um pro­di­gi­o­so jo­ga­dor de fu­te­bol, o emblema de um de­ter­mi­na­do tem­po, o do Por­tu­gal uno, plu­ri­con­ti­nen­tal e in­di­vi­sí­vel, que fez do na­ti­vo de Lou­ren­ço Mar­ques, um ne­gro, em­bai­xa­dor po­lí­ti­co da in­te­gra­ção co­lo­ni­al, pre­ten­di­da se­re­na e pa­cí­fi­ca. Herói dos es­tá­di­os, o futebolista ge­ni­al tam­bém res­ta­rá co­mo es­pe­lho des­sa as­si­mi­la­ção in­ter­con­ti­nen­tal, nu­ma épo­ca em que a co­mu­ni­da­de in­ter­na­ci­o­nal aper­ta­va o re­gi­me de Sa­la­zar por via da ques­tão co­lo­ni­al.

Do patrício de Moçambique, fa­le­ci­do em janeiro de 2014, aos 71 anos, so­bra tam­bém um ba­nho de lá­gri­mas,

no pran­to da eli­mi­na­ção da se­le­ção por­tu­gue­sa nas mei­as-fi­nais do Mun­di­al de 1966. Nos pri­mór­di­os das trans­mis­sões da Eu­ro­vi­são e na pro­fu­são de an­te­nas gi­gan­tes nos ca­fés de to­dos os can­tos de Por­tu­gal, o país as­sis­tiu, em di­re­to, a es­sa di­men­são de hu­ma­ni­da­de de um gran­de herói, a do mes­mo me­ni­no que, aos 18 anos, num dia de ve­rão de 1960, dei­xou o Sporting de Lou­ren­ço Mar­ques pa­ra jo­gar no... Sporting Clu­be de Por­tu­gal! O des­ti­no ha­via de lhe pre­gar uma par­ti­da: à che­ga­da à Por­te­la, lo­go à saí­da do avião, foi “rap­ta­do” e des­vi­a­do pa­ra o Benfica.

Nes­te se­ques­tro, ini­ci­ou-se, afi­nal, uma si­na ver­ti­gi­no­sa. A mesma alu­ci­nan­te sequên­cia de cor­re­ri­as, de fin­tas e de go­los ma­gis­trais que cons­truiu a car­rei­ra da­que­le que, um dia, o pró­prio Sa­la­zar clas­si­fi­cou co­mo “Pa­tri­mó­nio do Es­ta­do”, ina­li­e­ná­vel, o que per­mi­tiu ao Benfica pre­ser­var o cra­que da co­bi­ça dos gran­des clubes eu­ro­peus, do Re­al Ma­drid ao In­ter, do Bar­ce­lo­na ao Mi­lan.

Após 15 anos de águia ao pei­to, com a qual co­le­ci­o­nou, en­tre mui­to ou­tros, 11 tí­tu­los de cam­peão na­ci­o­nal e um de cam­peão da Eu­ro­pa de clubes, em 1962 (não jo­gou na épo­ca an­te­ri­or, que deu ao Benfica o pri­mei­ro tí­tu­lo con­ti­nen­tal), ao ca­bo de 557 jo­gos e 596 go­los, Eu­sé­bio dei­xou as águias de Lis­boa. No ve­rão quen­te de 1975, aos 33 anos, o Pan­te­ra Ne­gra pô­de, en­tão, co­mo ou­tras estrelas con­tem­po­râ­ne­as em fi­nal de car­rei­ra, in­gres­sar no “soc­cer” ame­ri­ca­no e ca­na­di­a­no. Pe­lo meio, jo­gou um ano no Mon­ter­rey, do Mé­xi­co, an­tes de vol­tar a Por­tu­gal, pa­ra se apo­sen­tar, no Bei­ra- Mar ( 1976/ 77) e no União de To­mar (1977/78).

Uma no­va era em Por­tu­gal

Nes­sas épo­cas da re­ti­ra­da dos rel­va­dos, nos anos es­cal­dan­tes que se se­gui­ram ao 25 de Abril, Eu­sé­bio ain­da pô­de tes­te­mu­nhar o iní­cio de uma no­va era no fu­te­bol português, do­mi­na­da pe­lo F. C. Por­to. A Re­vo­lu­ção dos Cra­vos tam­bém me­xeu com o des­por­to e, por mai­o­ria de ra­zão, com o fu­te­bol, que pas­sou a ter o prin­ci­pal ei­xo na As­so­ci­a­ção de Fu­te­bol do Por­to, a mai­or, a mais re­pre­sen­ta­ti­va e, por is­so mes­mo, por ra­zão de­mo­crá­ti­ca, a de­ten­to­ra de mai­or po­der. Por es­sa al­tu­ra, nos ven­tos de li­ber­da­de, no iní­cio das len­das do go­le­a­dor Fer­nan­do Go- mes e do ge­ni­al ata­can­te An­tó­nio Oli­vei­ra, tam­bém o de­par­ta­men­to de fu­te­bol do F. C. Por­to era já li­de­ra­do pe­lo ho­mem que es­te­ve na fun­da­ção de um im­pé­rio desportivo.

Jor­ge Nu­no Pin­to da Cos­ta foi es­se di­ri­gen­te que trans­for­mou o clu­be de pro­vín­cia nu­ma mar­ca uni­ver­sal, que li­ber­tou os “an­dra­des” do com­ple­xo da pon­te, que in­cu­bou os dra­gões e que os res­ga­tou da in­su­por­tá­vel su­bal­ter­ni­da­de, ao pon­to de su­pe­ra­rem os ri­vais de Lis­boa. An­tes de­le, em no­ve dé­ca­das de vi­da, o F.C. Por­to ti­nha ga­nho se­te cam­pe­o­na­tos, dois pa­res de ta­ças, pa­ra amos­tra, e tam­bém a fa­ma de clu­be sim­pá­ti­co, que se su­jei­ta­va, gen­til­men­te, ao do­mí­nio dos ri­vais de Lis­boa. Com ele, em 35 anos na pre­si­dên­cia, des­de 1982, o clu­be das An­tas e do Dra­gão ga­nhou 20 cam­pe­o­na­tos, en­tre eles cin­co se­gui­dos, um his­tó­ri­co e iné­di­to “pen­ta” (1995-99). E, ain­da, ou­tros dois tí­tu­los de cam­peão na­ci­o­nal (1978 e 1979), que con­quis­tou quan­do era di­re­tor do De­par­ta­men­to de Fu­te­bol, a

par do ami­go Jo­sé Ma­ria Pe­dro­to, após um lon­go je­jum tri­pei­ro de 19 anos.

À he­ge­mo­nia in­ter­na Pin­to da Cos­ta so­mou a gran­de epo­peia além-fron­tei­ras, que fez do Dra­gão o clu­be português de mais resplendor in­ter­na­ci­o­nal e um dos em­ble­mas mais res­pei­ta­dos do pla­ne­ta fu­te­bol. Uma fi­nal da Ta­ça das Ta­ças, in­glo­ri­a­men­te per­di­da pa­ra a Ju­ven­tus (1-2), em Ba­si­leia, em 1984, dei­xou ao dra­gão uma ir­re­pri­mí­vel von­ta­de de des­for­ra, que ha­via de sur­gir três anos de­pois, em Vi­e­na, on­de se ce­le­brou o pri­mei­ro gran­de triun­fo in­ter­na­ci­o­nal do F. C. Por­to, o tí­tu­lo de cam­peão eu­ro­peu de 1987, à cus­ta da so­ber­ba do Bayern de Mu­ni­que, der­ro­ta­do (2-1) pe­la cé­le­bre “ta­lon­na­de” de Mad­jer e pe­lo go­lo li­ber­ta­dor de Ju­ary.

Na sa­nha ne­o­li­be­ral que se se­guiu e na des­re­gu­la­ção com­ple­ta do fu­te­bol, que ins­ta­lou de vez o po­de­rio ine­lu­tá­vel dos gran­des cam­pe­o­na­tos es­tran­gei­ros, não se es­ta­va a ver com qual­quer equi­pa por­tu­gue­sa pu­des­se vol­tar

PIN­TO DA COS­TA FEZ DO DRA­GÃO O CLU­BE PORTUGUÊS DE MAIS RESPLENDOR IN­TER­NA­CI­O­NAL

a er­guer a ta­ça do mai­or tor­neio con­ti­nen­tal de clubes. Mas es­ta­va es­cri­to que a “ore­lhu­da”, co­mo é co­nhe­ci­do o mais co­bi­ça­do tro­féu da UEFA, ha­via de vol­tar pa­ra o mu­seu do F. C. Por­to, 17 anos de­pois, gra­ças a uma equi­pa trei­na­da por Jo­sé Mou­ri­nho, que, um ano an­tes de ga­nhar es­sa fi­nal de 2004 ( 3- 0 ao Mó­na­co, em Gen­sel­kir­chen), já ti­nha ga­nho a Ta­ça UEFA, an­te­ces­so­ra da atu­al Li­ga Eu­ro­pa, com mais uma gran­de de­mons­tra­ção de for­ça (3-2 ao Cel­tic, na fi­nal de Se­vi­lha).

Fo­ram du­as épo­cas de far­tu­ra e de gló­ria dos dra­gões, tam­bém no ca­mi­nho da con­sa­gra­ção ab­so­lu­ta do di­ri­gen­te com mais tí­tu­los na his­tó­ria do fu­te­bol mun­di­al: uma Ta­ça dos Cam­peões Eu­ro­peus, uma Li­ga dos Cam­peões, uma Ta­ça UEFA, uma Li­ga Eu­ro­pa, uma Su­per­ta­ça da Eu­ro­pa, du­as Ta­ças In­ter­con­ti­nen­tais (de cam­peão do Mun­do!), 20 cam­pe­o­na­tos (fo­ra os dois ga­nhos co­mo di­re­tor do de­par­ta­men­to de fu­te­bol), 12 ta­ças de Por­tu­gal e 19 su­per­ta­ças. Um pal­ma­rés de ton­tu­ra, que ge­rou mui­to des­dém alheio e que aju­dou a cri­ar ao 31.º pre­si­den­te da his­tó­ria por­tis­ta a ima­gem de uma personalidade en­xo­fra­da, ain­da mais na sequên­cia do Api­to Dou­ra­do, pro­ces­so por su­pos­tas re­la­ções pe­ri­go­sas com o mun­do da ar­bi­tra­gem e que pro­vo­cou des­gas­te na re­pu­ta­ção do clu­be, mas na­da que lhe des­truís­se os pi­la­res. Pe­lo con­trá­rio.

Em tem­pos de mu­dan­ça, e na pró­pria en­co­men­da da al­ma do “be­au­ti­ful ga­me”, quan­do o Tra­ta­do da União Eu­ro­peia de­ter­mi­nou que o fu­te­bol “é uma ati­vi­da­de eco­nó­mi­ca”, Pin­to da Cos­ta já nem se dei­xou sur­pre­en­der pe­lo ad­ven­to da Lei Bos­man, co­mo fi­cou co­nhe­ci­do o acór­dão do Tri­bu­nal de Jus­ti­ça da União Eu­ro­peia, que li­be­ra­li­zou de vez o mer­ca­do de jo­ga­do­res. O F. C. Por­to po­si­ci­o­nou- se em for­ça, afir­mou- se co­mo cam­peão mun­di­al do im­port-ex­port e ci­men­tou a li­de­ran­ça in­ter­na. Só o Benfica, en­tre 2014 e 2017, com a con­quis­ta de um inau­di­to “te­tra” pa­ra os la­dos da Luz, con­se­guiu con­tes­tar o do­mí­nio dos dra­gões. Mas não sem con­tro­vér­sia, por­que, da mesma ma­nei­ra que sem­pre acu­sou o ri­val tri­pei­ro de ga­nhar com in­fluên­ci­as dos bas­ti­do­res, tam­bém ago­ra, qual efei­to ri­co­che­te, se vê acu­sa­do do mes­mo pe­lo F. C. Por­to, na sequên­cia do cha­ma­do “ca­so emails”, sus­ci­ta­do após a divulgação de correio ele­tró­ni­co com te­or mui­to com­pro­me­te­dor pa­ra o emblema lis­bo­e­ta.

A equi­pa de to­dos nós

Nes­te brio tão as­sa­nha­do, es­tá pa­ra che­gar o dia em que o cam­peão se­ja aplau­di­do pe­lo ri­vais. Ti­ran­do as en­tor­ses es­ta­tís­ti­cas que fo­ram os tí­tu­los ga­nhos pe­lo Be­le­nen­ses ( 1946) e pe­lo Bo­a­vis­ta (2001), ra­ra­men­te ao cam­peão é atri­buí­do mé­ri­to, de­vi­do à in­sa­ná­vel in­com­pa­ti­bi­li­da­de dos mai­o­res clãs da bo­la. A tri­bo por­tu­gue­sa do fu­te­bol só se en­ten­de quan­do en­tra em cam­po a se­le­ção na­ci­o­nal. E mes­mo as­sim...

Ain­da as­sim, “A equi­pa de to­dos nós”, co­mo lhe cha­mou Ri­car­do Or­ne­las, jor­na­lis­ta que até foi trei­na­dor da se­le­ção na­ci­o­nal no Jo­gos Olím­pi­cos de 1928, é o úni­co es­pa­ço de con­ci­li­a­ção pos­sí­vel. Ou­tro jor­na­lis­ta, Cân­di­do de Oli­vei­ra, foi o ca­pi­tão do pri­mei­ro jogo da se­le­ção, dis­pu­ta­do e per­di­do, em Ma­drid, com a con­gé­ne­re es­pa­nho­la, por 3-1. Nes­se de­sa­fio, em 1921, Al­ber­to Au­gus­to en­trou pa­ra a his­tó­ria co­mo au­tor do pri­mei­ro go­lo da se­le­ção por­tu­gue­sa. O re­ma­te do ata­can­te do Benfica nem foi pa­ra os re­gis­tos ofi­ci­ais, por­que Por­tu­gal ain­da de­mo­rou a in­gres­sar na FI­FA (1923) e ain­da le­vou mais se­te anos sem­pre a jo­gar em par­ti­das par­ti­cu­la­res. A estreia ofi­ci­al foi no tor­neio olím­pi­co de Ames­ter­dão1928, on­de ou­tro ben­fi­quis­ta, o ata­can­te Vítor Sil­va, mar­cou o pri­mei­ro go­lo ofi­ci­al da se­le­ção por­tu­gue­sa, no triun­fo so­bre o Chi­le (4-2). Se­guiu-se mais uma vi­tó­ria (2-1 à Ju­gos­lá­via), an­tes da eli­mi­na­ção, nos quar­tos de fi­nal, às mãos do Egi­to (1-2).

A dois anos do que se­ria a pri­mei­ra edi­ção do Mun­di­al, or­ga­ni­za­do e ga­nho pe­lo Uru­guai, em 1930, a se­le­ção por­tu­gue­sa ain­da te­ve de aguar­dar até 1966 pa­ra che­gar a uma gran­de com­pe­ti­ção, o Mun­di­al de In­gla­ter­ra. Nes­se lon­go in­ter­reg­no de 38 anos, a equi­pa das “qui­nas” an­dou sem­pre em jo­gos e tor­neio par­ti­cu­la­res ou em qua­li­fi­ca­ções fa­lha­das, mas nes­sa al­tu­ra o fu­te­bol era já, de lon­ge, o des­por­to mais po­pu­lar. E a se­le­ção de­pres­sa se viu cap­tu­ra­da por po­lí­ti­cas e ide­o­lo­gi­as su­pos­ta­men­te pa­trió­ti­cas.

Co­mo um pou­co por to­da a Eu­ro­pa – da Itá­lia de Mus­so­li­ni à Es­pa­nha de Fran­co ou até à Fran­ça ocu­pa­da, on­de o fu­te­bol se tor­nou num de­sa­fio ide­o­ló­gi­co –, tam­bém em Por­tu­gal o Es­ta­do No­vo se apo­de­rou dos es­tá­di­os co­mo pal­cos de pro­pa­gan­da. Mas com características mui­to pe­cu­li­a­res. En­quan­to Fran­co e Mus­so­li­ni apos­ta­vam no des­por­to e no fu­te­bol co­mo meio de im­por a pro­pa­la­da su­pe­ri­o­ri­da­de cos­mo­po­li­ta da ra­ça, por cá, o re­gi­me de Sa­la­zar ti­nha uma con­ce­ção mais ru­ra­lis­ta do mun­do e via no des­por­to ape­nas um meio de dis­ci­pli­na e de or­dem so­ci­al, em res­pei­to pe­la lei e pe­la hi­e­rar­quia. As vi­tó­ri­as des­por­ti­vas fi­ca­vam pa­ra se­gun­do plano. E o pro­fis­si­o­na­lis­mo no fu­te­bol até foi proi­bi­do pe­lo re­gi­me.

Já em 1938, no au­ge de to­das as ten­sões que su­ce­de­ram à Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la e que an­te­ce­de­ram a II Guer­ra Mun­di­al, quan­do o fas­cis­mo alas­tra­va por to­da a Eu­ro­pa e Por­tu­gal não era ex­ce­ção, tam­bém a se­le­ção por­tu­gue­sa de fu­te­bol, co­mo tan­tas ou­tras, te­ve o seu in­ci­den­te mai­or com o re­gi­me, num de­sa­fio dis­pu­ta­do com a Es­pa­nha, em Lis­boa. No Cam­po das Sa­lé­si­as, Por­tu­gal ob­te­ve um triun­fo de pres­tí­gio (1-0), o pri­mei­ro so­bre o ri­val ibé­ri­co, com um go­lo do por­tis­ta Pin­ga, mas o que mais so­brou des­sa par­ti­da ocor­reu an­tes de a bo­la co­me­çar a pin­char.

Nes­sa épo­ca, man­da­va o ri­tu­al que os jo­ga­do­res fi­zes­sem a sau­da­ção fas­cis­ta pa­ra a tri­bu­na, ain­da pa­ra mais, co­mo na­que­la tar­de, quan­do es­ta­vam pre­sen­tes o pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca, Ós­car Car­mo­na, e al­tos dirigentes dos re­gi­mes es­pa­nhol e ale­mão. Só que três por­tu­gue­ses, to­dos do Be­le­nen­ses, fu­ra­ram o pro­to­co­lo: Jo­sé Si­mões e Ma­ri­a­no Ama­ro le­van­ta­ram o bra­ço, mas cer­ra­ram os pu­nhos; Ar­tur Qu­a­res­ma nem se me­xeu. A bronca, cla­ro, não pas­sou im­pu­ne.

Em “Des­por­to com Po­lí­ti­ca”, o jor­na­lis­ta An­tó­nio Si­mões con­ta que, ao in­ter­va­lo, ain­da hou­ve qu­em in­ter­ce­des­se pe­los jo­ga­do­res, mas, mal aca­bou o de­sa­fio, o trio de “agi­ta­do­res” foi de­ti­do pe­la PIDE. E se um de­les, Ar­tur Qu­a­res­ma, es­ca­pou com to­da a sim­pli­ci­da­de (“Não dei por na­da, es­ta­va dis­traí­do”), os ou­tros dois fo­ram pre­sos du­ran­te 15 dias. Cu­ri­o­so foi ve­ri­fi­car co­mo a Cen­su­ra já dis­pu­nha de mei­os de edi­ção tão van­guar­dis­tas: a re­vis­ta “Sta­dium” con­se­guiu a pro­e­za téc­ni­ca de pu­bli­car uma fo­to com Si­mões e Ama­ro a fa­ze­rem a sau­da­ção fas­cis­ta com a mão bem aber­ta...

Pal­cos de con­tes­ta­ção

Do­ra­van­te, os es­tá­di­os pas­sa­vam tam­bém a ser pal­cos pri­vi­le­gi­a­dos de

con­tes­ta­ção po­lí­ti­ca, até na di­fi­cul­da­de dos re­gi­mes con­tro­la­rem ou pre­ve­rem os mo­vi­men­tos das gran­des mul­ti­dões. E se se con­tam pe­los de­dos os pro­tes­tos de gran­de en­ver­ga­du­ra, hou­ve um que fi­cou in­de­le­vel­men­te mar­ca­do pa­ra a his­tó­ria do fu­te­bol português. Foi a 22 de ju­nho de 1969, na fi­nal da Ta­ça, que opôs o Benfica à Aca­dé­mi­ca e que fez do Es­tá­dio Na­ci­o­nal, no Ja­mor, um imen­so co­mí­cio de con­tes­ta­ção ao re­gi­me, or­ga­ni­za­do pe­la As­so­ci­a­ção Aca­dé­mi­ca de Coim­bra. A re­vol­ta es­tu­dan­til só não te­ve mais im­pac­to por­que o Go­ver­no não foi apa­nha­do des­pre­ve­ni­do e man­dou sus­pen­der a trans­mis­são do jogo pe­la TV.

Pre­ci­sa­men­te, o Es­tá­dio Na­ci­o­nal por si só já re­pre­sen­ta­va a pró­pria ideia do re­gi­me. Pro­je­ta­do “à gre­ga”, em 1933, e inau­gu­ra­do em 1944, nas­ceu pa­ra ce­le­bri­zar o Es­ta­do No­vo, na ins­pi­ra­ção do Es­tá­dio Olím­pi­co de Ber­lim. Po­dia ser a ca­sa da se­le­ção, mas a obra de ilu­mi­na­ção fas­cis­ta foi mais usa­da pa­ra as ce­le­bra­ções do re­gi­me e pa­ra as fes­tas anu­ais da fi­nal da Ta­ça de Por­tu­gal.

Ti­ran­do uma ou­tra vi­si­ta à pro­vín­cia, a “Equi­pa de to­dos nós” jo­gou qua­se sem­pre em Lis­boa, en­tre os Es­tá­di­os da Luz e de Al­va­la­de, e foi aqui que se pro­du­zi­ram al­guns dos mai­o­res fei­tos e que tam­bém nas­ceu a len­da dos “Ma­gri­ços”, a da se­le­ção por­tu­gue­sa que foi ter­cei­ra clas­si­fi­ca­da do Mun­di­al de In­gla­ter­ra e que já nem es­pan­tou o fu­te­bol. De­cal­ca­da da equi­pa do Benfica que nes­sa dé­ca­da já ti­nha dis­pu­ta­do qu­a­tro fi­nais da Ta­ça dos Cam­peões Eu­ro­peus e ven­ci­do dois tro­féus con­ti­nen­tais, a se­le­ção por­tu­gue­sa con­quis­tou o ter­cei­ro lu­gar e as fa­ça­nhas de Coluna, de Si­mões, de ou­tros Tor­res e do in­con­tor­ná­vel Eu­sé­bio só con­fir­ma­ram a emer­gên­cia de uma gran­de na­ção do fu­te­bol.

De­fi­ni­ti­va­men­te, Por­tu­gal dei­xa­ra de ocu­par uma po­si­ção pe­ri­fé­ri­ca no fu­te­bol eu­ro­peu. Além do Benfica, bi­cam­peão con­ti­nen­tal, tam­bém o Sporting ga­nhou a Ta­ça das Ta­ças de 1964, que pas­sou à his­tó­ria com o cé­le­bre

Can­ti­nho do Mo­rais. Ou­tras gran­des equi­pas de Por­tu­gal se su­ce­de­ram à dos “Ma­gri­ços”, mas foi pre­ci­so es­pe­rar mais 18 anos pa­ra que a se­le­ção vol­tas­se a jo­gar a fa­se fi­nal de um tor­neio in­ter­na­ci­o­nal. Foi no Eu­ro­peu de 1984, em Fran­ça, on­de bri­lhou uma equi­pa tras­la­da­da de ou­tra de clu­be, no ca­so a do F. C. Por­to que um mês an­tes ti­nha en­can­ta­do a Eu­ro­pa, ape­sar da der­ro­ta na fi­nal da Ta­ça das Ta­ças, com a Ju­ven­tus. Aque­la ba­se por­tis­ta, acres­ci­da do guar­da-re­des Ben­to e dos ata­can­tes Cha­la­na e Jor­dão, do Benfica, compôs um “on­ze” que só caiu nas mei­as-fi­nais, às mãos da fu­tu­ra cam­peã, a Fran­ça de Pla­ti­ni. Uma fa­ça­nha que nin­guém adi­vi­nha­va, até pe­la de- so­ri­en­ta­ção da Fe­de­ra­ção, que no­me­ou pa­ra o tor­neio um qua­drun­vi­ra­to de se­le­ci­o­na­do­res (Fer­nan­do Ca­bri­ta, To­ni, An­tó­nio Mo­rais e Jo­sé Au­gus­to) e ne­nhum sem or­dem de co­man­do so­bre os ou­tros...

Des­sa vez, a ge­rin­gon­ça de trei­na­do­res cor­reu bem, mas era já o sinal que anun­ci­a­va bronca, dois anos de­pois, em 1986, no Mun­di­al do Mé­xi­co. O “ca­so Sal­til­lo”, as­sim ba­ti­za­do, com o no­me da ci­da­de me­xi­ca­na on­de se alo­jou a se­le­ção por­tu­gue­sa, foi a re­be­lião dos jo­ga­do­res, com gre­ve aos trei­nos e tu­do. Tu­do por cau­sa dos pré­mi­os. Na­da até que ti­ves­se per­tur­ba­do a estreia no tor­neio, com uma vi­tó­ria so­bre a In­gla­ter­ra ( 1- 0, go­lo de Car­los Ma­nu­el). O pi­or veio de­pois: as der­ro­tas com a Po­ló­nia ( 0- 1) e com Mar­ro­cos (1-3) apres­sa­ram a eli­mi­na­ção e o re­gres­so a ca­sa, que foi tu­do me­nos pa­cí­fi­co.

Se cho­ra­va o des­per­dí­cio de tan­to ta­len­to, co­mo o de Fu­tre, que des­pon­ta­va na se­le­ção, e de tan­tos ou­tros jo­ga­do­res con­sa­gra­dos (João Pin­to, Iná­cio, Jai­me Ma­ga­lhães, Jai­me Pa­che­co, An­dré, Sousa e ou­tros Go­mes) – to­dos cam­peões eu­ro­peus no ano se­guin­te, pe­lo F.C. Por­to -, Por­tu­gal ha­via de ce­le­brar ra­pi­da­men­te a con­quis­ta dois tí­tu­los mun­di­ais, em 1989 e 1991, nos es­ca­lão sub- 20. Sob o co­man­do de Car­los Qu­ei­roz, um jo­vem trei­na­dor da no­va va­ga, re­ve­lou-se en­tão aque­la que fi­cou co­nhe­ci­da por “ge­ra­ção de ou­ro”, com jo­ga­do­res co­mo Fer­nan­do Cou­to, Jor­ge Cos­ta, Pau­lo Sousa, Peixe, Rui Cos­ta, Fi­go, Ca­pu­cho, João Vieira Pin­to e ou­tros cra­ques, mais ou me­nos con­tem­po­râ­ne­os, co­mo Vítor Baía, Pau­lo Fu­tre, Sér­gio Con­cei­ção ou Pau­le­ta.

A se­le­ção na­ci­o­nal es­ta­va ou­tra vez ser­vi­da por uma ges­ta ex­tra­or­di­ná­ria, mas vol­tou a fa­lhar as gran­des com­pe­ti­ções que se se­gui­ram, in­cluin­do o Mun­di­al de 1994, quan­do a “ge­ra­ção de ou­ro” es­ta­va qua­se na ple­ni­tu­de dos seus re­cur­sos. Foi en­tão que Car­los Qu­ei­roz de­nun­ci­ou a pro­ver­bi­al de­sor­ga­ni­za­ção na­ci­o­nal: “É pre­ci­so lim­par a por­ca­ria da Fe­de­ra­ção”, qu­ei­xou-se o selecionador, de­pois de ve­ri­fi­ca­da mais uma eli­mi­na­ção.

Se se pro­ce­deu ou não à lim­pe­za, cer­to é que dois anos de­pois, Por­tu­gal con­se­guiu o apu­ra­men­to pa­ra o Eu­ro1996. Mas o selecionador já não era Qu­ei­roz. Era An­tó­nio Oli­vei­ra, que co­man­dou uma equi­pa de gran­de ca­te­go­ria e que aca­ba­ria por cair aos quar­tos de fi­nal, ví­ti­ma de um cé­le­bre “cha­péu” do che­co Po­borsky a Baía. De­pois de mais um es­tron­do­so falhanço no apu­ra­men­to pa­ra o Mun­di­al1998, Oli­vei­ra vol­tou a to­mar as ré­de­as da se­le­ção pa­ra o Mun­di­al de 2002 (Japão e Co­reia do Sul) e da­que­le que te­rá si­do o me­lhor com­bi­na­do da his­tó­ria do fu­te­bol português, com to­dos os cra­ques no au­ge das su­as car­rei­ra. Luís Fi­go, a es­tre­la mai­or de uma vas­ta

cons­te­la­ção, foi Bo­la de Ou­ro de 2000 e tam­bém elei­to me­lhor jo­ga­dor do Mun­do em 2001. Uma gran­de ar­ma­da a qu­em es­ta­va pro­me­ti­da a gló­ria su­pre­ma mas que, no Eu­ro­peu de 2000, com Hum­ber­to Coelho aos co­man­dos, vol­tou a fa­lhar a con­sa­gra­ção, com a der­ro­ta nas mei­as- fi­nais ( 1- 2, após pro­lon­ga­men­to), an­te a Fran­ça de Zi­ne­di­ne Zi­da­ne, fu­tu­ra cam­peã ( 2- 1 à Itá­lia, na fi­nal).

Dois anos de­pois, no Japão e na Co­reia, a mesma equi­pa de gran­des ta­len­tos, ain­da mais ama­du­re­ci­da, des­per­ta­va ain­da mais ilu­são. E a de­si­lu­são foi ain­da mai­or: a go­le­a­da à Po­ló­nia (4-0) não che­gou pa­ra evi­tar a eli­mi­na­ção na fa­se de gru­pos, sen­ten­ci­a­da pe­las der­ro­tas an­te os Es­ta­dos Uni­dos (2-3) e a Co­reia do Sul (0-1). Mais uma vez, o re­gres­so a ca­sa não foi pa­cí­fi­co. Na che­ga­da a Lis­boa, o selecionador e mui­tos jo­ga­do­res saí­ram por por­tas tra­ves­sas do ae­ro­por­to.

Da de­si­lu­são à apo­te­o­se

O tem­po cu­rou tu­do e bas­ta­ram dois anos pa­ra ser res­ta­be­le­ci­do o or­gu­lho na se­le­ção. Nes­se ano de 2004, o Eu­ro­peu foi or­ga­ni­za­do em Por­tu­gal, num país bê­ba­do com a opu­lên­cia do cré­di­to e com as ban­dei­ras que Sco­la­ri man­dou pen­du­rar em to­do o la­do. In­cha­do co­mo nun­ca, o ego na­ci­o­nal, so­freu mais uma enor­me de­ce­ção: com al­gu­mas estrelas já no oca­so, co­mo Rui Cos­ta ou Fi­go, mas co­mo ou­tras a des­per­tar, en­tre elas Pau­lo Ferreira, Ri­car­do Carvalho, Ma­ni­che e De­co (que gui­a­ram o F.C. Por­to ao tí­tu­lo eu­ro­peu des­se ano de 2004) e tam­bém com Cris­ti­a­no Ro­nal­do, en­tão um me­ni­no de 19 anos, Por­tu­gal ga­nhou to­dos os jo­gos me­nos o pri­mei­ro e o que mais in­te­res­sa­va, o úl­ti­mo, am­bos per­di­dos com a Gré­cia, uma má­qui­na de­fen­si­va me­do­nha, de le­sa-fu­te­bol, mas que er­gueu o tro­féu no Es­tá­dio da Luz. Uma li­ção pa­ra o ma­nei­ris­mo português.

Se­gui­ram-se três cam­pe­o­na­tos do Mun­do e ou­tros dois da Eu­ro­pa com a ha­bi­tu­al si­na por­tu­gue­sa: fan­far­ra à par­ti­da e de­sen­ga­no à che­ga­da, sem hon­ra nem gló­ria. Até que che­gou o completamente ines­pe­ra­do triun­fo no Eu­ro-2016, com uma equi­pa que não era, nem de lon­ge, a me­lhor re­pre­sen­ta­ção da his­tó­ria do fu­te­bol português mas que pe­dia me­ças a to­das as ou­tras em re­a­lis­mo e, já ago­ra, tam­bém com uma com­bi­na­ção de cir­cuns­tân­ci­as ine­lu­tá­veis, a que se cha­ma sor­te. Ou fa­do. Ou “fé, mui­ta fé”, co­mo re­su­miu o selecionador na­ci­o­nal, Fer­nan­do San­tos, ca­tó­li­co con­vic­to e pra­ti­can­te. E foi mes­mo pre­ci­sa mui­ta cren­ça pa­ra er­guer a ta­ça em Pa­ris, pa­ra in­cre­du­li­da­de ge­ral, da Fran­ça, der­ro­ta­da na fi­nal (1-0), e até do pró­prio Éder, o herói im­pro­vá­vel, au­tor do re­ma­te que li­ber­tou os fes­te­jos lu­si­ta­nos.

Em Pa­ris, con­sa­grou-se, tam­bém, o me­lhor desportista português de to­dos os tem­pos. Cris­ti­a­no Ro­nal­do até nem es­te­ve no seu me­lhor plano, ví­ti­ma de uma épo­ca des­gas­tan­te e de inú­me­ras le­sões, a que se jun­tou a con­traí­da no pró­prio de­sa­fio da fi­nal, na sequên­cia de uma en­tra­da na­da ino­cen­te de um tal Di­mi­tri Payet. Mas a saí­da de CR7, a cho­rar, a con­tor­cer­se com do­res na ma­ca, tam­bém foi o to­que a reu­nir con­tra os ba­ta­lhões gau­le­ses, de­mo­li­dos na­que­le ti­ro de Éder. Um des­for­ço pa­ra Por­tu­gal, tan­tas ou­tras vezes tra­ma­dos pe­la Fran­ça, e uma des­for­ra pes­so­al pa­ra CR7. Nes­se mes­mo ano, o “ho­mo spor­ti­vus” lu­si­ta­no con­quis­tou a quar­ta Bo­la de Ou­ro, de me­lhor jo­ga­dor do Mun­do, dis­tin­ção que tam­bém lhe es­ta­va pro­me­ti­da em 2017, pa­ra igua­lar as cin­co de Li­o­nel Mes­si e con­ti­nu­ar o du­e­lo com o argentino pe­lo lu­gar mais al­to da his­tó­ria do jogo.

Ou co­mo, nes­ta pe­ri­fe­ria da Eu­ro­pa, há um país que se queixa de atra­sos en­dé­mi­cos em qua­se to­das as áre­as mas que, a chu­tar à bo­la, es­tá en­tre a eli­te in­ter­na­ci­o­nal. Tem clubes co­mo o F. C. Por­to, o Benfica e o Sporting, que se ba­tem com os me­lho­res do Mun­do, uma no­bre li­nha­gem de cra­ques in­tem­po­rais – “Pin­ga”, Pey­ro­teo, Hi­lá­rio, Ma­ta­teu, Eu­sé­bio, Coluna, Ger­ma­no, Si­mões, Tor­res, Águas, Vítor Da­mas, Ya­zal­de, Fer­nan­do Go­mes, An­tó­nio Oli­vei­ra, Cu­bil­las, Cha­la­na, Rui Bar­ros, Mad­jer, Val­do, Al­dair, Ai­mar, Ca­nig­gia, Ba­la­kov, Kos­ta­di­nov, Vítor Baía, Fer­nan­do Cou­to, Jor­ge Cos­ta, Ri­car­do Carvalho, Fi­go, Fu­tre, Rui Cos­ta, De­co, Jar­del, João Vieira Pin­to, Pau­le­ta, Ri­car­do Qu­a­res­ma, Cris­ti­a­no Ro­nal­do, Hulk, Fal­cao... – e, já ago­ra, tan­tos ou­tros gé­ni­os, de Cân­di­do de Oli­vei­ra a Pin­to da Cos­ta, de Be­la Gut­man a Jo­sé Ma­ria Pe­dro­to, de Yus­tri­ch a Jo­sé Mou­ri­nho ou de Ar­tur Jor­ge a Car­los Qu­ei­roz, a qu­em o fu­te­bol português de­ve a garantia de um fu­tu­ro ri­so­nho.

FES­TA DE PA­RIS CON­SA­GROU O MAI­OR DESPORTISTA PORTUGUÊS DE TO­DOS OS TEM­POS, CRIS­TI­A­NO RO­NAL­DO

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.