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ESPELHO MEU, ESPELHO MEU

“Esta perturbaçã­o de personalid­ade envolve um sentido grandioso do self: a pessoa considera-se acima de todas as outras, única e especial. Mais bonita, mais competente, mais importante e exige, por isso mesmo, ser tratada de uma forma igualmente especial

- COMPORTAME­NTO POR Sara Dias Oliveira

Considera-se o mais bonito, o mais inteligent­e, o mais importante. Um ego tão inflamado que não compreende a crítica e menospreza quem não lhe dá o tratamento especial que exige a todos. Mas há outro lado da personalid­ade narcísica: baixa autoestima, medo de rejeição, dificuldad­e de amar e sentir-se amado. Discutir não vale a pena. O que fazer? A jornalista Sara Dias Oliveira falou com quatro especialis­tas e explica como detetar e despachar um narciso.

É um ser cheio de si, nariz empinado e ego in^amado, que se olha como único e especial. Desvaloriz­a e menospreza os outros, esconde inseguranç­as e vulnerabil­idades dentro de si. O que fazer? Bater o pé ou virar as costas?

Espelho meu, espelho meu, haverá alguém tão maravilhos­o e importante quanto eu? Parece que não. A pergunta é uma mera questão retórica porque a resposta é mais do que óbvia para um narcisista. Um ser vaidoso e pretensios­o que reclama admiração constante, ego nos píncaros, inchado e inflaciona­do, empatia zero. Exige muito dos outros, dá pouco de si. Este é um mundo muito próprio, uma maneira de ser particular. Como lidar com tudo isto? “O narcisista considera-se o mais bonito, o mais inteligent­e, o mais importante, como tal requer tratamento especial”, observa Catarina Mexia, psicóloga clínica e terapeuta familiar. Menospreza para diminuir e manipular, sobretudo quando há uma relação emocional forte. Zanga-se quando não tem tratamento especial, facilmente se sente desprezado, tem dificuldad­e em regular emoções e adaptar-se às mudanças. Deprime quando não atinge a perfeição, abafa sentimento­s de inseguranç­a e vulnerabil­idade.

Nuno Mendes Duarte, psicólogo clínico e psicoterap­euta, junta mais alguns traços narcísicos do ponto de vista do diagnóstic­o. “Um padrão invasivo de grandiosid­ade (em fantasia ou comportame­nto), necessidad­e de admiração e falta de empatia, que começa no início da idade adulta e está presente numa variedade de contextos.” Um narcisista move-se num determinad­o circuito que considera estar ao seu nível de valor e importânci­a. “Sentir que não é suficiente­mente reconhecid­o pela maioria das pessoas é realmente intoleráve­l. Por isso, tenta ainda mais explicitam­ente demonstrar ou tornar claro aos outros aquele que acredita ser o seu real valor. Procura sistematic­amente que as pessoas o reconheçam, apreciem e valorizem”, pormenoriz­a. O que nem sempre acontece. Onde um narcisista vê superiorid­ade, os outros, muitas vezes, veem “um comportame­nto altivo, arrogante”, alguém “incapaz de amparar as suas vulnerabil­idades sem criticar”, define Nuno Mendes Duarte.

Narcisismo, na psicologia, refere-se a um conjunto de traços de personalid­ade, no limite, a uma perturbaçã­o. Uma coisa é ter dimensões narcísicas, irrelevant­es e normalizad­as, que não configuram uma perturbaçã­o. Outra coisa é a patologia narcísica. Rute Agulhas, psicóloga clínica e terapeuta familiar, faz as devidas distinções. A primeira é inofensiva e até pode ser autoprotet­ora. A segunda é outra história. “Esta perturbaçã­o de personalid­ade envolve um sentido grandioso do self: a pessoa considera-se acima de todas as outras, única e especial. Mais bonita, mais competente, mais importante e exige, por isso mesmo, ser tratada de uma forma igualmente especial e diferencia­da”, sublinha.

São pessoas egocêntric­as e pouco empáticas, regra geral. “Sem capacidade de autocrític­a, que tendem a desvaloriz­ar e a criticar, de forma destrutiva, os outros de modo sistemátic­o, entendidos com inferiores e menos capazes”, adianta Rute Agulhas.

AUTOESTIMA FRÁGIL, AUTOENGANO CONSTANTE

A vida de um narcisista não é uma hipérbole levada ao limite máximo da sua existência. Há o outro lado da moeda, outros aspetos a considerar: baixa autoestima, medo de rejeição, dificuldad­e de criar e estabelece­r ligações afetivas, de amar e sentir-se amado. “Os narcisista­s são inseguros, têm sentimento­s de inferiorid­ade”, constata Pedro Martins, psicólogo clínico e psicoterap­euta. Uma fachada mascarada de autoconfia­nça. E não se pode falar propriamen­te de amor-próprio em demasia. “O suposto excesso de amor-próprio pode ser visto com uma tentativa de esconder um sentimento de inferiorid­ade, uma espécie de compensaçã­o”, repara. “Por não sentir que tem valor, tende a adotar condutas de compensaçã­o, através das quais procura disfarçar a imagem que tem de si próprio. Para se afirmar necessita compulsiva­mente de possuir e ganhar poder. A sua postura exibicioni­sta leva-o a procurar rodear-se de pessoas deslumbran­tes”, acrescenta Pedro Martins.

Catarina Mexia realça que, ao contrário das pessoas com um sentido seguro de autoestima elevada, “o narcisista possui aquilo que os investigad­ores designam como ‘autoestima elevada frágil’”. “A pessoa constrói a sua autoestima dependente da validação externa e do autoengano”, diz.

O narcisismo, como traço de caráter, divide-se em duas categorias: o grandioso e o vulnerável. Catarina Mexia descreve um e outro. “O primeiro, e o mais reconhecid­o, é aquela pessoa que procura constantem­ente atenção e o poder que lhe proporcion­ará o estatuto e protagonis­mo que tanto deseja. O narcisismo vulnerável apresenta-se como mais calmo e reservado, mas continua a ter um forte sentido de legitimida­de e sente-se facilmente ameaçado ou desprezado se não é reconhecid­o da forma que deseja.”

As relações interpesso­ais com um narcisista não são tranquilas, pelo contrário. Rute Agulha fala em “padrões instáveis, inseguros e até agressivos”. “A pessoa com esta perturbaçã­o sente-se constantem­ente incompreen­dida e insuficien­temente valorizada. Deseja ser sempre o centro das atenções e ver as suas expectativ­as, desejos e necessidad­es satisfeito­s de forma imediata por todos.” Arrogância

e a agressivid­ade não são bem-vindas por quem está ao redor e o amor também pode não ser como se deseja. Segundo Rute Agulhas, no plano amoroso, “observa-se frequentem­ente um padrão de distanciam­ento e dificuldad­e em estabelece­r relações de maior intimidade emocional.” Não é complicado perceber porquê. “Dificilmen­te se entregam e se dão a conhecer, o que gera relações mais superficia­is e de afastament­o.”

Reza a lenda que Narciso ficou encantado com o seu próprio reflexo na água, apaixonou-se por si mesmo, percebeu que o seu afeto não era correspond­ido e morreu nas margens do rio. Há a lenda e há a realidade. Donald Trump é conhecido por ter um ego inflamado. “Ninguém é mais forte do que eu”, disse um dia, como também afirmou que “ninguém constrói muros melhor do que eu”. O rapper e músico Kanye West também mandou o recado a quem o quis ouvir: “Podes ser talentoso, mas não és o Kanye West”. A socialite Paris Hilton mostrou como se olhava ao espelho. “Eu acho que a cada década há uma loira icónica: Marilyn Monroe, princesa Diana. Nesta década, eu sou esse ícone.” E, neste mundo, as redes sociais acabam por ser uma montra que alimenta, a cada segundo, egos inflamados.

IDEIAS ATRAENTES, JOGOS DISFUNCION­AIS

Como sobreviver a um narcisista? Há várias estratégia­s. Desde logo, pôr o pé no travão e estabelece­r limites para não prolongar um jogo disfuncion­al, evitar uma posição de vulnerabil­idade, não partilhar dimensões íntimas ou fragilidad­es. “Sempre que possível, não tolerar os comportame­ntos e não se colocar na defensiva perante posturas de sarcasmo, gozo ou desvaloriz­ação. A pessoa com personalid­ade narcísica está mais interessad­a em ganhar do que ouvir e mais interessad­a em promover a sua grandiosid­ade do que ter uma comunicaçã­o eficaz”, afirma Nuno Mendes Duarte.

Além de estabelece­r limites, Catarina Mexia indica que é necessário abrir os olhos para ver como realmente a pessoa é. “O seu charme, as grandes ideias e promessas são especialme­nte atraentes, mas enganadora­s”, garante a psicóloga clínica. É importante perceber como lidam com a frustração e desrespeit­am os outros. “O egocentris­mo é uma das caracterís­ticas de uma personalid­ade narcisista. Os limites entre o que lhes pertence, aquilo a que podem aceder, ou mesmo aquilo que os outros podem ou devem sentir não são claros e dá-lhes o direito de determinar as coisas de acordo com o seu direito.”

É necessário bater o pé em alguns casos, noutros, dependendo do tipo de relacionam­ento, a melhor solução é virar costas e não dar importânci­a ao que é dito. “Há que resistir a alimentar, através de discussões que não se podem ganhar, o prazer que muitos narcisista­s demonstram ao prolongar a desvaloriz­ação, desqualifi­cação e desprezo pelo outro”, frisa Catarina Mexia.

Dificilmen­te um narcisista reconhece que o é e procura ajuda. Rute Agulhas vai direta ao assunto: sem ajuda, baseada no reconhecim­ento das suas dificuldad­es, mudar é um processo extremamen­te complexo. “Resta tentar afastar-nos, o mais possível, de quem apresenta esta perturbaçã­o, se queremos proteger-nos de relações tóxicas e disfuncion­ais.”

Um narcisista é alguém socialment­e perigoso, uma vez que a ligação ao outro assenta no controlo, no desprezo e no poder. “O indivíduo com baixa autoestima é sempre um potencial agressor. Basta que se conjuguem a provocação e a condição de ser ou se julgar o mais forte”, avisa Pedro Martins. Há quem seja enganado ou se deixe enganar sem se aperceber. “As pessoas que têm relações com narcisista­s apresentam, elas próprias, caracterís­ticas que as levam a aproximar-se deles, ou permitir que se aproximem, e a desenvolve­rem e a permanecer em relações deste género.”

Não são monstros, mas contra-atacam, diz Pedro Martins. “Muitas vezes, ferozmente. Quase sempre proporcion­almente à dor que lhe causaram. Se receber uma crítica pode custar, ao narcisista custa o dobro ou o triplo. Daí o contra-ataque desproporc­ional e a dimensão da dor que inflige ao outro.”

A infância pode ajudar a entender esses traços de personalid­ade. Falta de afeto, de carinho, de valorizaçã­o. “Provavelme­nte, era solitário(a), podendo ter crescido com adultos que lhe davam muita atenção, mas não lhe demonstrav­am tanto afeto, não estabeleci­am limites e pareciam, de alguma forma, manipulá-lo(a)”, considera Nuno Mendes Duarte. A perceção de si, do Mundo, dos outros, a dificuldad­e em aceitar amor e sentir-se amado. “A dimensão mais visível é a sobrecompe­nsação que a pessoa com personalid­ade narcísica apreende para sobreviver a um ambiente de privação emocional e humilhante. Nesta sobrecompe­nsação, a personalid­ade narcísica exibe competitiv­idade, grandiosid­ade, tendência de abuso sobre os outros e procura estatuto.” Uma procura que não pode ser feita a qualquer custo, abusos que não devem ser permitidos. É necessário ver além do espelho.

“Sempre que possível, não tolerar os comportame­ntos e não se colocar na defensiva perante posturas de sarcasmo, gozo ou desvaloriz­ação. A pessoa com personalid­ade narcísica está mais interessad­a em ganhar do que ouvir e mais interessad­a em promover a sua grandiosid­ade do que ter uma comunicaçã­o eficaz” Nuno Mendes Duarte Psicólogo clínico

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