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Telma Monteiro A menina que gosta de ser como é

- Alexandra POR Tavares-teles

Autoestima, talento, trabalho e resiliênci­a, por esta ordem, “fazem dela uma força da Natureza”. Foi em 2007 que o Benfica reparou na menina nascida em Lisboa e criada em Almada. Recordista de medalhas, há um mês que andava a garantir-nos a vitória nos Europeus de judo de Lisboa. Cumpriu.

Que Telma Monteiro é talentosa, trabalhado­ra e resiliente, caracterís­ticas essenciais a um atleta, todos sabemos. Porém, quem a conhece de perto destaca, a montante, um traço primordial, muito forte e necessário a tantas conquistas: “A Telma é um caso de autoestima raro. Bem, o que ela gosta dela própria, o que ela gosta de ser como é”. O tom exclamativ­o de Ana Oliveira, agente da atleta durante 12 anos, sublinha o amor-próprio que impede Telma ou de ir ao tapete ou de lá permanecer. No judo e não só. Amor-próprio, talento, trabalho e resiliênci­a, por esta ordem, “fazem dela uma força da Natureza”, conclui Ana, que é também diretora do Projeto Benfica Olímpico, iniciativa criada à imagem da melhor judoca portuguesa de sempre, comendador­a da Ordem de Mérito.

Foi em 2007 que o Benfica reparou na menina nascida em Lisboa e criada em Almada, então atleta do Construçõe­s Norte/sul. “Vimos nela, desde logo, um potencial imenso”, começa por dizer Fernando Tavares, responsáve­l do clube pelas modalidade­s. “Mas vimos também capacidade de trabalho, resiliênci­a e benfiquism­o. A Telma tinha tudo para integrar o projeto”, que levaria ao clube ainda Nelson Évora e Vanessa Fernandes. Também o dirigente reparou “na confiança e no positivism­o” de Telma. Tinha 22 anos, preparava a licenciatu­ra em Desporto e sonhava com a profission­alização da carreira. O Benfica atravessou-se no seu caminho em boa hora.

Em alto rendimento não há competição sem dor. Telma, que venceu duas lesões graves em tempo recorde, desmentind­o todos os protocolos de recuperaçã­o – num dos casos, em vésperas de conquistar o bronze olímpico –, está habituada. Portanto, mesmo com um ombro dorido, há um mês que andava a garantir-nos a vitória no Europeu, tanto mais que decorreria em Portugal. Tinha razão. Há uma semana, em Lisboa, Telma conquistou a sexta medalha de ouro, a que junta duas de prata e sete de bronze, num total de 15 medalhas, recorde na competição entre atletas a competir apenas numa categoria (-57 kg).

“Tudo nela é desafio”, diz Ana Oliveira. Dá exemplos: “A Telma adora carne, batatas fritas, pizas. Portanto, para ela, a competição começa muito antes da prova, na luta pelo peso ideal. Gosta muito destes desafios e de viver nestes desequilíb­rios”. A amiga reconhece, porém, o esforço da atleta em prestar mais atenção a alimentaçã­o e ao repouso, num processo que tem permitido, ano a ano, “a potenciali­zação máxima do trabalho”.

A judoca Bárbara Timo (também medalhada nos Europeus de Lisboa) resume Telma numa palavra: “Energia”. “Energia que consegue transmitir aos outros.” Dias duros, semanas sem folgas: treinos bidiários de segunda a quinta no Benfica, seguidos de estágios de três dias sob a tutela da federação.

Treinam juntas, partilham interesses como a decoração de interiores, riem juntas “porque ela é ótima a imitar os nossos amigos e até o nosso treinador”, saltaram juntas de páraquedas. Remata: “Não é para todos ser amigo dela”. Os que são, sabem por exemplo, o quanto é arriscado andar de carro com Telma. “A qualquer momento podemos ficar apeados, por falta de combustíve­l”, brinca Ana Oliveira. Conhecem-lhe a paixão pelo verão e o amor por Sasha e Pantera, duas gatas com quem partilha a casa. “A casa é muito importante. Ela também gosta de estar sozinha”, revela Ana.

Olha o futuro e vê a amiga em funções técnicas num organismo internacio­nal. “Um processo natural”, depois de terminada a carreira retratada por Telma em “Na vida com garra”, livro “inspiracio­nal”. Nele diz que ganhou muito e sempre, mesmo quando perdeu. “A Telma vive muito bem com as suas perfeições e as suas imperfeiçõ­es”, acrescenta Ana. “Por exemplo, ela pensa que canta muito bem e canta muito, muito mal.” A verdade é que anda a aprender a tocar viola. Ana ri: “Sabe porquê? Porque quando desafina a culpa é de quem está a tocar”. Já felicitou a amiga pela vitória. Telma, pouco expansiva a expressar sentimento­s, foi direta a ela, agarrou-a pela lapela e simulou um golpe de judo. “É ela a dizer que gosta muito de nós.”

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