A der­ra­dei­ra fá­bri­ca de pas­sa­ma­na­ri­as

Jornal de Negócios - Weekend (negocios) - - NEWS - AN­TÓ­NIO MI­RAN­DA

É a der­ra­dei­ra fá­bri­ca de pas­sa­ma­na­ri­as e a última pro­du­to­ra de fi­ta de se­da de “moi­ré”, fei­ta de for­ma ar­te­sa­nal. Ac­ti­va des­de 1980, a em­pre­sa Fran­cis­co So­a­res da Sil­va é a so­bre­vi­ven­te na zo­na ho­je co­nhe­ci­da co­mo Amo­rei­ras e on­de, pou­co de­pois do ter­ra­mo­to de 1755, se ins­ta­lou a Re­al Fá­bri­ca das Se­das. Fru­to da ac­ção de um no­vo in­ves­ti­dor, Mar­co Ga­li­nha, do Gru­po Bel, pre­pa­ra-se para re­nas­cer.

AA se­da te­ve mui­tas ro­tas. E, du­ran­te mi­lé­ni­os, foi um se­gre­do mui­to bem guar­da­do pe­lo im­pé­rio chi­nês. O co­mér­cio trou­xea para Oci­den­te, atra­vés da cé­le­bre Ro­ta da Se­da. A fi­na e su­a­ve se­da con­quis­tou o mun­do. E os por­tu­gue­ses, cla­ro. A sua uti­li­za­ção cri­ou uma in­dús­tria es­pe­ci­a­li­za­da que, em Por­tu­gal, ga­nhou for­ça na zo­na ho­je co­nhe­ci­da co­mo Amo­rei­ras e on­de, pou­co de­pois do ter­ra­mo­to de 1755, se ins­ta­lou a Re­al Fá­bri­ca das Se­das. A ideia fa­zia par­te de um pla­no mais vas­to do Marquês de Pom­bal para in­dus­tri­a­li­zar o país e a plan­ta­ção de amo­rei­ras (que tra­ri­am os bi­chos da se­da). Ou­tras fá­bri­cas fo­ram­se im­plan­tan­do no lo­cal, ao lon­go dos tem­pos.

Uma de­las foi a em­pre­sa Fran­cis­co So­a­res da Sil­va, ac­ti­va des­de 1840. Es­pe­ci­a­lis­ta em Pas­sa­ma­na­ri­as, é a so­bre­vi­ven­te de uma era on­de, no lo­cal, co­a­bi­ta­va com ou­tras fá­bri­cas – de len­ços, de pen­tes, de cha­péus, de bo­tões ou de lou­ças. Re­sis­tiu a to­das as cri­ses, mas foi-se con­fron­tan­do com de­sa­fi­os cres­cen­tes dos no­vos tem­pos. Ago­ra, fru­to da ac­ção de um no­vo in­ves­ti­dor, Mar­co Ga­li­nha, do Gru­po Bel, pre­pa­ra-se para re­nas­cer. É o en­con­tro da tra­di­ção e da mo­der­ni­da­de, da me­mó­ria e das no­vas ló­gi­cas em­pre­sa­ri­ais, para que um sa­ber úni­co não de­sa­pa­re­ça.

UM TESOURO SEM IDA­DE

Per­cor­rer a ve­lha fá­bri­ca, cu­jas má­qui­nas con­ti­nu­am a fun­ci­o­nar, é entrar na gru­ta de um tesouro sem ida­de. Co­mo nos diz Car­los Man­tei­gas, o CEO da em­pre­sa Fran­cis­co So­a­res da Sil­va: “Aqui fa­ze­mos ar­ti­gos que mais nin­guém sa­be fa­zer em to­do o mun­do”. É um sa­ber se­cre­to, tal co­mo foi o da se­da. “Era im­pos­sí­vel dei­xar de­sa­pa­re­cer a em­pre­sa que pro­duz, em Por­tu­gal, as fi­tas para o Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca ou para as con­de­co­ra­ções

do Go­ver­no”, diz Mar­co Ga­li­nha, que en­ca­ra o de­sa­fio co­mo uma for­ma de man­ter a alma por­tu­gue­sa num mun­do sem fron­tei­ras e, às ve­zes, sem sen­ti­do na­ci­o­nal. “O ofí­cio mais lin­do do mun­do” – co­mo se lhe re­fe­re uma te­ce­dei­ra que che­gou à em­pre­sa na dé­ca­da de 1960 e ali se mantém, para ver no­vas ge­ra­ções se­gui­rem os seus pas­sos – está para con­ti­nu­ar.

A Fran­cis­co So­a­res da Sil­va in­te­gra o pro­jec­to da Câ­ma­ra Mu­ni­ci­pal de Lisboa, Lo­jas com His­tó­ria. Nes­se âm­bi­to, há o com­pro­mis­so de ga­ran­tir a es­tru­tu­ra do edi­fí­cio e a ma­qui­na­ria his­tó­ri­ca, co­mo o enor­me te­ar me­câ­ni­co de 140 anos, da Mul­ler, e de que só exis­tem dois exem­pla­res no mun­do, um de­les nas ins­ta­la­ções da em­pre­sa. Ou­tra má­qui­na re­al­ça a ri­que­za his­tó­ri­ca da fá­bri­ca: uma má­qui­na de “moi­ré”, que na al­tu­ra foi in­ven­ta­da em ter­ras por­tu­gue­sas, mais con­cre­ta­men­te na me­ta­lúr­gi­ca Nery, de Torres No­vas. Vem do tem­po do fun­da­dor da Fran­cis­co So­a­res da Sil­va e fun­ci­o­na para apli­car um efei­to mar­mo­re­a­do às fi­tas, al­go que per­mi­te dis­tin­guir es­tas de to­das as ou­tras. É um va­lor acres­cen­ta­do que ga­ran­te a dis­tin­ção e ex­clu­si­vi­da­de do que ali é fa­bri­ca­do.

A fá­bri­ca é o que res­ta do an­ti­go com­ple­xo fa­bril ide­a­li­za­do pe­lo Marquês de Pom­bal para a no­va Lisboa que nas­ce­ria após o ter­ra­mo­to. O Jar­dim das Amo­rei­ras aco­lhe mais de 300 amo­rei­ras que, jun­to à fá­bri­ca de se­das, se­ria o la­bo­ra­tó­rio para a cri­a­ção da in­dús­tria de se­da na­ci­o­nal. Na an­ti­ga Re­al Fá­bri­ca das Se­das está ho­je ins­ta­la­da a Fun­da­ção Ar­pád Sze­nes-Vieira da Sil­va. E, jun­to a ela, está, qua­se sem se re­pa­rar, a Fran­cis­co So­a­res da Sil­va SA. Pa­ra­a­lém de ser ader­ra­dei­ra­fá­bri­ca­de pas­sa­ma­na­ri­as, é tam­bém a última pro­du­to­ra de fi­ta de se­da de “moi­ré”, fei­ta de for­ma ar­te­sa­nal. Es­ta é uti­li­za­da so­bre­tu­do pe­las uni­ver­si­da­des nos di- plo­mas e con­de­co­ra­ções. Mas as pro­pos­tas ar­te­sa­nais da fá­bri­ca abar­cam ou­tras pos­si­bi­li­da­des de pro­du­ção ar­te­sa­nal: fi­tas de se­da, de al­go­dão e de ce­tim, de con­de­co­ra­ção (para di­plo­ma­tas ou atle­tas, por exem­plo), vel­cro, li­nhas de co­ser e bor­dar, en­tre ou­tras. A per­so­na­li­za­ção das fi­tas e cor­dões tam­bém é uma pos­si­bi­li­da­de. Da­li sa­em ain­da­as fi­tas de se­da­pa­ra­as me­da­lhas e con­de­co­ra­ções con­fe­ri­das pe­lo Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca e pe­lo Go­ver­no.

Nos úl­ti­mos anos, a em­pre­sa de­fron­tou-se com a con­cor­rên­cia de pro­du­tos de qua­li­da­de mais re­du­zi­da (mas tam­bém de mais bai­xos preços) e co­me­çou a en­fren­tar pro­ble­mas de di­fí­cil re­so­lu­ção. Os tem­pos em que “cho­vi­am en­co­men­das”, co­mo diz Car­los Man­tei­gas, de 90 anos e que li­de­ra a em­pre­sa há três dé­ca­das, foi-se es­fu­man­do. As re­cei­tas dei­xa­ram de po­der “ali­men­tar” as três famílias que vi­vi­am das ven­das e o nú­me­ro de ope­rá­ri­os foi di­mi­nuin­do. O tú­nel es­cu­ro ga­nhou ago­ra uma luz, com a che­ga­da do in­ves­ti­dor am­bi­ci­o­na­do.

Car­los Man­tei­gas tam­bém faz par­te da his­tó­ria mais re­cen­te da Fran­cis­co So­a­res da Sil­va. Era ami­go da filha do úl­ti­mo ad­mi­nis­tra­dor que ain­da era da fa­mí­lia do fun­da­dor. Na al­tu­ra, ti­nha uma em­pre­sa grá­fi­ca e era di­rec­tor de uma em­pre­sa do sec­tor ci­men­tei­ro que vi­ria a in­te­grar a Cim­por. Vi­nha ape­nas para aju­dar com as con­tas e ba­lan­ce­tes e aca­bou por se tor­nar no só­cio mai­o­ri­tá­rio.

Usou uma tác­ti­ca para con­quis­tar cli­en­tes e fi­de­li­zá-los: foi abrin­do o ca­pi­tal a gra­va- dores de me­da­lhas, a ar­ma­zéns de re­ven­da e re­tro­sa­ri­as e mes­mo a co­la­bo­ra­do­res. Co­mo re­cor­da: “Ca­pi­ta­li­zei tra­ba­lho, au­men­tan­do e trans­for­man­do a em­pre­sa em so­ci­e­da­de anó­ni­ma. Aca­bei por fi­car co­mo pre­si­den­te e a em­pre­sa cres­ceu até re­ben­tar a es­ca­la. Pro­du­zia mui­to, vi­nha ma­te­ri­al da Co­reia, da Chi­na, de Fran­ça, da Itá­lia. Cres­ceu de­mais. Mas era pre­ci­so for­ne­cer o país. In­ves­ti­mos nas má­qui­nas no­vas, al­gu­mas das quais com­pra­das em Pa­ris. Es­tá­va­mos sem­pre a pen­sar no fu­tu­ro”.

Car­los Man­tei­gas apos­tou na im­por­ta­ção, tor­nan­do a em­pre­sa fon­te de pro­du­tos para as re­tro­sa­ri­as de to­do o país. Era, na épo­ca, o mai­or cen­tro de com­pras de Por­tu­gal, nu­ma al­tu­ra em que es­te con­cei­to ain­da não era co­mum, re­fe­re o res­pon­sá­vel da em­pre­sa. Acon­cor­rên­cia chi­ne­sa de­se­qui­li­brou a ló­gi­ca do negócio, li­mi­tan­do a sua ren­ta­bi­li­da­de. “Nós ven­día­mos para os ar­ma­zéns, e de­pois o pro­du­to se­guia para as re­tro­sa­ri­as e a se­guir para o pú­bli­co. Ha­via uma ca­deia de dis­tri­bui­ção. As em­pre­sas chi­ne­sas ven­dem di­rec­ta­men­te ao pú­bli­co. Mes­mo se o pro­du­to não pres­tar, é mais ba­ra­to”. Afac­tu­ra­ção des­ceu para va­lo­res pró­xi­mos do mi­lhão de eu­ros. É nes­te con­tex­to que sur­ge um no­vo ac­ci­o­nis­ta ca­paz de tra­zer uma pers­pec­ti­va mais mo­der­na para o negócio e abrir pers­pec­ti­vas de cres­ci­men­to. É es­te oxi­gé­nio que traz Mar­co Ga­li­nha, que tem in­ves­ti­men­tos em di­fe­ren­tes áre­as de ne­gó­ci­os. O gru­po Bel traz mús­cu­lo fi­nan­cei­ro à em­pre­sa e ja­ne­las para no­vos mer­ca­dos, aque­les que nun­ca fo­ram ex­plo­ra­dos até ho­je pela em­pre­sa. Aba­se é só­li­da, co­mo faz ques­tão de re­for­çar Car­los Man­tei­gas: “As nos­sas fi­tas para con­de­co­ra­ções são úni­cas, não se faz ou­tras des­tas no mun­do”. Não se fa­zem. Nem vão dei­xar de fa­zer. Há me­mó­ri­as e sa­be­do­ri­as que não po­dem es­fu­mar­se com o ven­to.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.