O que é is­so de ser um ma­cho

Jornal de Negócios - Weekend (negocios) - - CINCO SENTIDOS - MARCO ALVES

É o pri­mei­ro de três vo­lu­mes de en­sai­os que tra­çam a iden­ti­da­de mas­cu­li­na des­de os gre­gos até ho­je. “His­tó­ria da Vi­ri­li­da­de” es­tá ape­nas a co­me­çar.

Aqui­lo a que se cha­ma “a edu­ca­ção do ma­cho” abre uma das obras mais ori­gi­nais pu­bli­ca­das re­cen­te­men­te em Por­tu­gal. Es­te “ma­cho” ini­ci­al era ain­da o do tem­po dos gre­gos e a vi­a­gem por es­ta “His­tó­ria da Vi­ri­li­da­de” es­tá ape­nas a co­me­çar. Ha­ve­re­mos de pas­sar por Es­par­ta, por Ro­ma, pe­los bár­ba­ros (eis uma pa­la­vra vi­ril), pe­la longa Ida­de Mé­dia, pe­los Des­co­bri­men­tos e pe­las Lu­zes.

E tam­bém por­que se tra­ta de uma obra nas­ci­da em Fran­ça, o rei Luís XIV(1638-1715) tem di­rei­to a um ca­pí­tu­lo, ou não en­car­nas­se ele “um mo­de­lo de vi­ri­li­da­de pa­ra to­do o Gran­de Sé­cu­lo”. As­sim co­mo ve­re­mos a vi­ri­li­da­de ou, por ve­zes, a au­sên­cia de­la nos clé­ri­gos, nos mi­li­ta­res, nos “sel­va­gens” des­co­ber­tos pe­los eu­ro­peus a par­tir de qua­tro­cen­tos e nas per­so­na­gens de ro­man­ces e pe­ças de te­a­tro.

A“His­tó­ria da Vi­ri­li­da­de” es­tá di­vi­di­da em três vo­lu­mes, de que foi tra­du­zi­do ago­ra em Por­tu­gal o pri­mei­ro. É di­ri­gi­do pe­lo his­to­ri­a­dor e so­ció­lo­go fran­cês Ge­or­ges Vi­ga­rel­lo e vai da An­ti­gui­da­de até ao Ilu­mi­nis­mo. O se­gun­do vo­lu­me te­rá co­mo te­ma “O Triun­fo da Vi­ri­li­da­de: o sé­cu­lo XIX” (di­ri­gi­do por Alain Cor­bin) e o ter­cei­ro “A Vi­ri­li­da­de em Cri­se? Sé­cu­los XX-XXI” (sob di­re­ção de Je­anJac­ques Cour­ti­ne).

Es­tes três aca­dé­mi­cos são tam­bém os au- to­res de “His­tó­ria do Cor­po”, lan­ça­do em Por­tu­gal no Cír­cu­lo de Lei­to­res em seis vo­lu­mes. Aliás, foi a par­tir des­sa obra que sur­giu a ideia de um no­vo pro­je­to fo­ca­do ape­nas na vi­ri­li­da­de ao lon­go dos tem­pos – vi­ri­li­da­de, es­sa, que sem­pre se sim­bo­li­zou mui­to nos atri­bu­tos e pro­e­zas cor­po­rais (atlé­ti­cas, guer­rei­ras, se­xu­ais).

No to­tal des­te pri­mei­ro vo­lu­me so­bre o que tem si­do ao lon­go dos sé­cu­los es­sa ideia do “com­por­ta-te co­mo um ho­mem“, es­cre­vem 17 au­to­res, al­guns de­les fi­gu­ras bem co­nhe­ci­das do meio cul­tu­ral e académico fran­cês. Ape­nas três são mu­lhe­res, das quais a his­to­ri­a­do­ra Ar­let­te Far­ge se­rá a mais co­nhe­ci­da.

É uma longa vi­a­gem pe­la iden­ti­fi­ca­ção – que foi va­ri­an­do ao lon­go dos tem­pos e dos lu­ga­res – do que de­ve ser um ma­cho. A edu­ca­ção, a mo­ral, a au­to­ri­da­de so­bre a mu­lher, os jo­gos, as pin­tu­ras, as es­tá­tu­as (a co­me­çar nos deu­ses gre­gos re­pre­sen­ta­dos sem rou­pa “mais pa­ra exal­tar a be­le­za do cor­po mas­cu­li­no do que pa­ra evi­den­ci­ar uma qu­al­quer vir­tu­de di­vi­na”, p. 46) as his­tó­ri­as orais, as ba­ta­lhas, as ca­ça­das, as rou­pas, o mo­do de fa­lar, o com­por­ta­men­to se­xu­al (leia-se, por exem­plo, p. 86: “Em Ro­ma, o ho­mem é aque­le que pe­ne­tra se­xu­al­men­te o seu par­cei­ro, se­ja qual for o mo­do de pe­ne­tra­ção e se­ja qual for o par­cei­ro pe­ne­tra­do”), a pos­tu­ra cor­po­ral, o que co­me es­te ho­mem, o que be­be, on­de se di­ver­te e com quem.

Co­mo os au­to­res apon­tam, é uma “ex­pec­ta­ti­va de per­fei­ção, um mo­de­lo de as­cen­dên­cia e de do­mi­na­ção”, que nos tem­pos atu­ais – em­bo­ra ain­da per­sis­ta – “ten­de a per­der o seu sen­ti­do”. Mes­mo quan­do as Lu­zes vi­e­ram re­for­mu­lar a vi­ri­li­da­de no sé­cu­lo XVIII, sol­tan­do-a de cer­ta for­ma das amar­ras das tra­di­ções e das ins­ti­tui­ções, não hou­ve ne­nhu­ma al­te­ra­ção no es­ta­tu­to fe­mi­ni­no. “Es­sa vi­ri­li­da­de em vi­as de for­mu­la­ção não é pro­cu­ra­da num diá­lo­go com a mu­lher. As per­so­na­gens fe­mi­ni­nas es­tão es­tra­nha­men­te au­sen­tes ou são pas­si­vas nas pin­tu­ras de Greu­ze, nos ro­man­ces de Vol­tai­re ou nas pe­ças de Di­de­rot. Os ques­ti­o­na­men­tos não vêm de­las, mas de uma no­va vi­são do po­der.”

G EO RG ES VI GARE LLO (DI R.) His­tó­ria da Vi­ri­li­da­de - Li­vro 1: A In­ven­ção da Vi­ri­li­da­de. Da An­ti­gui­da­de às Lu­zesOr­feu Ne­gro, 6 0 8 pá­gi­nas, 2 018

J E N NY E RPE N BEC KEu vou, tu vais, ele vai Re­ló­gio d’Água, 28 0 pá­gi­nas, 2 018

U MBERTO ECOAos om­bros de gi­gan­tes Gra­di­va, 44 0 pá­gi­nas, 2 018

MARGARET DRABLESo­be a ma­ré ne­gra Qu­et­zal, 36 0 pá­gi­nas, 2 019

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