1.

Jornal de Negócios - - A MINHA ECONOMIA -

Já te­nho 35 anos de car­rei­ra. É mui­to tem­po. E fa­ço 54 es­te ano. A partir de certa fa­se da vi­da, dei­xa de fa­zer sen­ti­do fa­zer as coi­sas por fa­zer. Ca­da tra­ba­lho que fa­ço, per­gun­to-me: qual é a in­ten­ção? O que vou fa­zer? Porquê?

Te­nho fei­to uma co­re­o­gra­fia por ano. Na ver­da­de, es­tou sem­pre a co­re­o­gra­far: a ler, a pes­qui­sar... Uma pe­ça, re­al­men­te, le­va-me um ano a fa­zer. Assim é que é bom: ter tem­po pa­ra fa­zer as coi­sas. Se­não, uma pes­soa aca­ba por se re­pe­tir e, nes­se ca­so, mais va­le não cha­mar co­re­o­gra­fia, mas re­po­si­ção.

Es­te es­pec­tá­cu­lo [“Cromeleque”] par­te de um so­lo, “Di Mi pâ Nhós”, que ti­nha fei­to an­te­ri­or­men­te co­mo uma ho­me­na­gem aos meus pais, e de um ou­tro es­pec­tá­cu­lo pa­ra as­si­na­lar os 225 anos da mor­te de Mo­zart [em 2016], em que ti­nha de­ci­di­do tra­ba­lhar o Re­qui­em.

Des­ta vez, te­nho ou­tros bai­la­ri­nos. Eu es­tou lá co­mo que a so­nhar tu­do is­to. E eles es­tão a ma­te­ri­a­li­zar.

É um es­pec­tá­cu­lo que fa­la do fim de um ci­clo, que é on­de eu es­tou: aca­bou a dan­ça, aca­bou es­te mo­men­to, o Ben­vin­do bai­la­ri­no aca­bou. Mas es­ta­mos sem­pre a aca­bar. A vi­da é mes­mo assim: to­dos os di­as nós aca­ba­mos e re­co­me­ça­mos.

O es­pec­tá­cu­lo tam­bém é uma celebração da vi­da, por­que eu ce­le­bro tu­do, até por­que não dou na­da por ga­ran­ti­do. Já per­di mui­to ou­tras ve­zes.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.