“VAI TRABALHAR, PALHAÇO.” E FOI

Pes­qui­sam, cons­tro­em per­so­na­gens, ide­a­li­zam ce­ná­ri­os, cos­tu­ram fi­gu­ri­nos, pin­tam a ca­ra e o cor­po. Ocu­pam a rua, um pal­co imen­so e li­vre. De pe­dra e cal. Im­pro­vi­sam e emo­ci­o­nam pla­tei­as. Re­sis­tem e per­sis­tem pe­lo amor à ar­te. Com um bri­lho­zi­nho nos olhos.

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - Sumário # 1370 - POR Sa­ra Di­as Oli­vei­ra

Aqui faz-se ani­ma­ção urbana. O chapéu ou a “cai­xi­nha do or­de­na­do” são obri­ga­tó­ri­os, mas não há coi­ta­di­nhos. A jor­na­lis­ta Sa­ra Di­as Oli­vei­ra co­nhe­ceu ar­tis­tas de rua de nor­te a sul do país.

Ser palhaço na Rua Au­gus­ta, em Lis­boa, em 1998, ti­nha a sua ar­te. Pro­ble­mas com as au­to­ri­da­des, ir às es­qua­dras re­cu­pe­rar ma­te­ri­al, ou­vir cons­tan­te­men­te “vai trabalhar palhaço”. “De­pen­dia mui­to do po­lí­cia, se es­ta­va bem-dis­pos­to na­que­le dia. Os po­lí­ci­as di­zi­am-me que eu acu­mu­la­va mui­ta gen­te e que os car­tei­ris­tas apro­vei­ta­vam para rou­bar. Res­pon­dia-lhes que en­tão es­ta­va a fa­ci­li­tar-lhes o tra­ba­lho.” “Ar­tis­ta de rua não era con­si­de­ra­da uma pro­fis­são, co­mo ain­da ho­je não o é”, diz Ena­no, palhaço pro­fis­si­o­nal há 20 anos. Não de­sis­tiu. Con­ti­nua na rua com o na­riz ver­me­lho. E de chapéu na mão.

No fi­nal dos es­pe­tá­cu­los, com mui­ta im­pro­vi­sa­ção à mis­tu­ra, Ena­no faz um dis­cur­so. Fa­la do seu amor à pro­fis­são, de co­mo é fe­liz co­mo ar­tis­ta de rua e que, tal co­mo to­dos gos­tam de re­ce­ber no fi­nal do mês, tam­bém ele gos­ta que o pa­trão re­co­nhe­ça o seu tra­ba­lho. O seu pa­trão é o pú­bli­co. “Aí mos­tro o ho­mem que sou, que amo a mi­nha pro­fis­são, que sou mui­to fe­liz.” Co­lo­ca-se em ci­ma de uma ma­la com

o chapéu na mão à es­pe­ra da re­com­pen­sa pe­la sua en­tre­ga, de co­ra­ção cheio pe­la ar­te que lhe dá sus- ten­to o ano in­tei­ro. Cos­tu­ma cor­rer bem.

Os pri­mei­ros tem­pos não fo­ram fá­ceis. De­ci­diu vi­a­jar para ab­sor­ver téc­ni­cas, ver o que fun­ci­o­na­va. Ga­nhou au­to­es­ti­ma, não se aca­nhou, per­ce­beu que va­lia a pe­na. Ga­nhou es­ta­tu­to e ho­je che­ga a ter uma mul­ti­dão ao re­dor. Tem outras con­di­ções, já lhe co­lo­cam ele­tri­ci­da­de nos lo­cais on­de atua e in­sis­te que os po­lí­ti­cos têm de per­ce­ber a ma­gia das ar­tes de rua. “Lis­boa, Por­to, Coim­bra ou Fa­ro são ci­da­des com po­ten­ci­al ar­tís­ti­co para trabalhar na rua. Não sei co­mo as câ­ma­ras não per­ce­bem que a ar­te de rua traz cul­tu­ra ao po­vo e aos tu­ris­tas”, co­men­ta.

Em agosto, an­da pe­la cos­ta alen­te­ja­na – Zam­bu­jei­ra do Mar, Vi­la Nova de Mil­fon­tes, Por­to Co­vo – com es­pe­tá­cu­los de­pois do jan­tar. A sua ten­da de cir­co não tem te­to, as per­for­man­ces são fei­tas ao ar li­vre, de­bai­xo do céu e das es­tre­las. Cha­ma-lhe “te­a­tro da li­ber­da­de”. Ca­da um é li­vre de ir ou fi­car. “O palhaço não tem obri­ga­ção de fa­zer rir, tem a obri­ga­ção de emo­ci­o­nar. Aju­do a cri­ar um ou­tro am­bi­en­te para que as pes­so­as vol­tem a ser cri­an­ças. É co­mo se se ati­ras­sem para uma pis­ci­na sem sa­ber se há água ou não.”

Ena­no sig­ni­fi­ca anão e é o no­me ar­tís­ti­co de Jo­sé Tor­res, al­cu­nha de cri­an­ça. Tem 43 anos. Já tra­ba­lhou em 43 paí­ses de to­dos os con­ti­nen­tes, em 205 ci­da­des, há di­as es­te­ve na Si­bé­ria, em ju­lho pas­sou pe­la Ale­ma­nha, Fran­ça, Ro­mé­nia, Re­pú­bli­ca Che­ca, Po­ló­nia. Dá mas­ter­clas­ses, cur­sos de clown, clown co­a­ch para em­pre­sas, é pre­si­den­te e fun­da­dor da as­so­ci­a­ção Re­mé­di­os do Ri­so, dou­to­res pa­lha­ços de na­ri­zes ver­des que an­dam por hos­pi­tais de Se­tú­bal, Évo­ra e Fa­ro.

Es­tá co­le­ta­do nas fi­nan­ças co­mo ar­tis­ta de cir­co. Pa­ga im­pos­tos e Se­gu­ran­ça So­ci­al. Che­gou a Por­tu­gal em se­tem­bro de 1997, à bo­leia de um ca­mi­o­nis­ta por­tu­guês que o dei­xou em Évo­ra no mo­men­to em que a ci­da­de alen­te­ja­na re­ce­bia um en­con­tro ibé­ri­co de ex­pres­sões cir­cen­ses. Sou­be que ha­via uma es­co­la de cir­co, o Cha­pitô, em Lis­boa. Can­di­da­tou-se, en­trou, es­tu­dou du­ran­te dois anos.

Con­ti­nua apai­xo­na­do pe­la sua ar­te. Mo­ra em Tro­vis­cais, al­deia de Ode­mi­ra, o seu re­fú­gio, on­de o tem­po pá­ra. Quando saiu de Cá­dis, no sul de Es­pa­nha, on­de nas­ceu, dis­se à mãe que não sa­bia quando vol­ta­ria, que ia à pro­cu­ra do fu­tu­ro. Com o cur­so de Tra­ba­lho So­ci­al na Uni­ver­si­da­de de Se­vi­lha, tra­ba­lha­va num bair­ro so­ci­al de et­nia ci­ga­na, an­da­va de por­ta em por­ta a per­gun­tar quais as cri­an­ças que iam e não iam à es­co­la. Che­ga­va ao es­cri­tó­rio e es­cre­via os nú­me­ros num pa­pel. “Fa­zia es­ta­tís­ti­cas e per­ce­bia que não ser­vi­am de na­da. Eram só es­ta­tís­ti­cas, não ha­via so­lu­ção. Não era o fu­tu­ro que que­ria. Eu que­ria mu­dar o mun­do.” E na rua en­con­trou o pal­co per­fei­to

para mis­tu­rar tra­ba­lho so­ci­al com tra­ba­lho ar­tís­ti­co. A nor­te, Ma­ria Flor pre­pa­ra-se para a sua per­for­man­ce na Rua de San­ta Ca­ta­ri­na, no Por­to. Pin­ta o ros­to de ver­de com pin­ce­la­das dou­ra­das, de­pois de ins­ta­lar um jar­dim com rel­va, flo­res e bor­bo­le­tas. Mú­si­ca am­bi­en­te, bo­li­nhas de sa­bão e trans­for­ma-se num jar­dim flo­ri­do, nu­ma bai­la­ri­na que dan­ça de­li­ca­da e gra­ci­o­sa­men­te. Com um jar­ro de on­de sai água sem parar. No chão, uma cai­xa ver­de. “É a cai­xi­nha do or­de­na­do”, ex­pli­ca. A fon­te de ren­di­men­to.

Tro­cou Lis­boa pe­lo Por­to, com uma pas­sa­gem por Ames­ter­dão. Não con­se­guiu re­cu­pe­rar a li­cen­ça na Rua Au­gus­ta, can­sou-se das vol­tas, mu­dou-se para o nor­te. “Lis­boa tem uma ges­tão ine­fi­ci­en­te. O Por­to é uma zo­na cin­zen­ta, não exis­te re­gu­la­men­ta­ção”, re­fe­re Ma­ria Flor com for­ma­ção em dan­ça con­tem­po­râ­nea e ori­en­tal, uma cur­ta pas­sa­gem pe­las Ar­tes do Es­pe­tá­cu­lo e um cur­so de Pro­du­ção.

É ar­tis­ta de rua há três anos. “É o que per­mi­te sus­ten­tar-me, con­ti­nu­ar a ser ar­tis­ta e fa­zer os meus pro­je­tos.” Nem sem­pre é fá­cil. “No in­ver­no, há di­as maus. No ve­rão, es­tá mui­to de­pen­den­te do ti­po de tu­ris­mo.” Se man­das­se, sa­bia o que fa­zer. “Tor­na­va a ar­te de rua pri­o­ri­tá­ria. Afi­nal, é a pri­mei­ra ar­te com que os tu­ris­tas têm con­tac­to quando che­gam a Por­tu­gal.” E in­cen­ti­va­ria in­ter­câm­bi­os cul­tu­rais en­tre ar­tis­tas na­ci­o­nais e es­tran­gei­ros.

CO­LO­CA-SE EM CI­MA DE UMA MA­LA COM O CHAPÉU NA MÃO À ES­PE­RA DA RE­COM­PEN­SA PE­LA SUA EN­TRE­GA, DE CO­RA­ÇÃO CHEIO PE­LA AR­TE QUE LHE DÁ SUSTENTO O ANO IN­TEI­RO. COS­TU­MA COR­RER BEM

Ma­ria Flor, ves­ti­da de ver­de-mus­go, cap­ta a aten­ção de quem pas­sa. Bai­la sem ti­rar os pés do seu jar­dim, ati­ra bei­jos, pis­ca o olho. “É um tra­ba­lho te­ra­pêu­ti­co. Gos­to mui­to des­ta mi­nha re­la­ção com as pes­so­as.” Lur­des Al­ves co­lo­ca um eu­ro na cai­xa da “me­ni­na da fon­te”. “Mui­to bo­ni­to. É sim­pá­ti­ca, uma ter­nu­ri­nha, me­re­ce mes­mo”, fri­sa.

UM APOIO DEMOCRÁTICO

A rua tam­bém é o lo­cal de tra­ba­lho de Mar­ta Fa­ria, que cons­trói as su­as per­so­na­gens do iní­cio ao fim. Ho­ras de pes­qui­sa, di­as de tra­ba­lho. Ves­te-se de mulheres ins­pi­ra­das no es­ti­lo bar­ro­co, cor­po pin­ta­do de bron­ze ou dou­ra­do. Ves­tiu-se de nin­fa do Mon­de­go no úl­ti­mo en­con­tro de es­tá­tu­as em Coim­bra, no iní­cio do mês. Tem 37 anos, é mu­lher-es­tá­tua há no­ve, tem al­guns pré­mi­os na ar­te, pre­sen­ças em vá­ri­os fes­ti­vais in­ter­na­ci­o­nais. Co­me­çou no Por­to, mu­dou-se para Lis­boa, es­te­ve na Rua Au­gus­ta, es­tá ago­ra no Chi­a­do, per­to da Rua do Car­mo.

Nun­ca te­ve pro­ble­mas com a po­lí­cia, nun­ca cor­reu atrás de quem lhe ti­ra fo­to­gra­fi­as e não dei­xa mo­e­da no chapéu. Não tem si­do fá­cil para que lhe mu­dem a li­cen­ça para o lo­cal que ago­ra ocu­pa. Che­gou a pa­gar 200 eu­ros por mês, ago­ra são 80 por se­mes­tre. Quer fa­zer as coi­sas di­rei­ti­nhas. “Há uns anos, pa­ga­va-se bas­tan­te di­nhei­ro”, re­cor­da. Em Lis­boa, a ocu­pa­ção do es­pa­ço pú­bli­co de­pen­de das jun­tas de fre­gue­sia e do re­gu­la­men­to de ca­da uma. Va­ria de lo­cal para lo­cal. No Por­to, não há re­gu­la­men­ta­ção es­pe­cí­fi­ca e é a câ­ma­ra que ava­lia os pro­je­tos ca­so a ca­so, qual o valor por me­tro qua­dra­do. Ocu­par o es­pa­ço pú­bli­co im­pli­ca um pe­di­do de in­for­ma­ção com uma ex­po­si­ção do pro­je­to ar­tís­ti­co, pe­ri­o­di­ci­da­de e ob­je­ti­vos, com fo­to­gra­fi­as se pos­sí­vel, co­mo um pe­di­do de in­for­ma­ção que pas­sa­rá pe­lo de­par­ta­men­to de re­cei­tas, fi­nan­ças e pa­tri­mó­nio. Quem es­ti­ver na rua sem li­cen­ça, po­de ser apa­nha­do nu­ma fis­ca­li­za­ção, o ma­te­ri­al po­de ser apre­en­di- do e para re­a­vê-lo é pre­ci­so pa­gar uma mul­ta que po­de pas­sar os mil eu­ros.

Mar­ta vi­ve da sua ar­te, es­tá co­le­ta­da co­mo “ou­tros ar­tis­tas” e ir­ri­ta-se quando ou­ve al­guém di­zer aos ar­tis­tas de rua para irem trabalhar. Ser mu­lher-es­tá­tua é o seu tra­ba­lho. A rua é o seu ga­nha-pão, re­jei­ta qu­al­quer ró­tu­lo de coi­ta­di­nha. “Te­nho mui­to mais tra­ba­lho do que mui­ta gen­te. O pro­ces­so para che­gar a uma per­so­na­gem é de­mo­ra­do, ca­da fi­gu­ri­no cus­ta per­to de 500 eu­ros, mui­ta gen­te não tem no­ção dis­so”, des­ta­ca. Não há ho­rá­ri­os es­ta­be­le­ci­dos, há me­ses em que não há fol­gas ao fim de se­ma­na.

O gos­to pe­las ar­tes per­for­ma­ti­vas co­me­çou ce­do. Aos 15 anos, já fa­zia te­a­tro, no li­ceu es­tu­dou Ar­tes Vi­su­ais, fez ani­ma­ção cir­cen­se, foi ani­ma­do­ra de rua. Em 2010, era es­tá­tua vi­va no Por­to. “Ex­pe­ri­men­tei e

o bi­chi­nho fi­cou ins­ta­la­do.” In­ves­te na for­ma­ção. Tem vá­ri­os cur­sos de te­a­tro com com­pa­nhi­as pro­fis­si­o­nais. Ago­ra, de­di­ca-se mais à dan­ça e ao te­a­tro fí­si­co.

Há qua­tro anos, Mar­cus Vuil­la­me saiu de Fran­ça e ins­ta­lou-se em Por­tu­gal. Desde en­tão, os ve­rões e os fins de se­ma­nas são pas­sa­dos na Rua das Flo­res, no Por­to, por on­de cir­cu­lam mui­tos tu­ris­tas. To­ca re­a­le­jo, ins­tru­men­to de on­de sa­em me­lo­di­as quando dá à ma­ni­ve­la. Pa­re­ce um ce­ná­rio saí­do de um li­vro de ou­tros tem­pos. Uma bo­ne­ca-ma­ri­o­ne­ta, um ta­bu­lei­ro de xa­drez em pon­to pequeno, uma ga­li­nha do Ja- pão vi­va, uma ma­la de on­de sa­em as pau­tas pi­co­ta­das que co­lo­ca no re­a­le­jo, um chapéu de pa­no para re­ce­ber mo­e­das. Ao la­do, o fi­lho Mer­lin com um pás­sa­ro vi­vo no om­bro. De­ze­nas de pes­so­as pa­ram para es­cu­tar, ti­rar fo­to­gra­fi­as.

“É uma for­ma de vi­da um pou­co di­fe­ren­te. So­mos uma fa­mí­lia de três cri­an­ças. So­mos ho­nes­tos de co­ra­ção e es­ta é nos­sa vi­da, um pou­co atrás des­te sis­te­ma ca­pi­ta­lis­ta”, ar­gu­men­ta. Mar­cus des­cen­de de ar­tis­tas de rua, a ar­te já cor­ria nas vei­as dos an­te­pas­sa­dos. A fa­mí­lia mo­ra nu­ma quin­ta per­to de São Pe­dro do Sul. De­di­ca-se à ter­ra e à ar­te de rua – e para is­so alu­ga um quar­to no Por­to. Não tem com­pu­ta­dor, te­le­vi­são, ta­blets. “Vi­ver co­la­do à tec­no­lo­gia é uma vi­da sem vi­da, sem subs­tân­cia. A vi­da de ver­da­de é a vi­da de ex­pe­ri­ên­ci­as, de en­con­tro com outras pes­so­as. Te­mos um so­nho de au­to­no­mia de vi­da”, con­cre­ti­za Mar­cus, um ar­tis­ta de rua.

“ANI­MA­ÇÃO URBANA DE ALTO EFEITO”

An­tó­nio San­tos tem vá­ri­os re­cor­des no Guin­ness, três co­mo es­tá­tua e um ou­tro de ve­lo­ci­da­de, em mar­cha, por ter per­cor­ri­do 150 me­tros sem parar em oi­to ho­ras. Ga­ran­te que é a pri­mei­ra es­tá­tua vi­va do mun­do fo­ra do ci­ne­ma e do te­a­tro. Es­tá na rua há 31 anos com o chapéu no chão. Foi de­ti­do vá­ri­as ve­zes em Por­tu­gal e no es­tran­gei­ro. “Nun­ca ti­ve­ram co­ra­gem de

me jul­gar”, afir­ma. Con­fes­sa a cu­ri­o­si­da­de para sa­ber

o que te­ria acon­te­ci­do se fos­se obri­ga­do a sen­tar-se no ban­co dos réus.

A ar­te de rua engloba vá­ri­as ex­pres­sões, não há uma legislação única, as au­tar­qui­as têm a úl­ti­ma palavra para decidir quan­to um ar­tis­ta de rua tem de pa­gar para ocu­par a via pú­bli­ca. Os re­ci­bos ver­des não têm uma de­sig­na­ção es­pe­cí­fi­ca, já foi en­qua­dra­do co­mo ou­tros ar­tis­tas, ar­tis­ta plás­ti­co, e até lhe su­ge­ri­ram atle­ta de al­ta com­pe­ti­ção. An­tó­nio San­tos can­sou-se de lu­tar con­tra a cor­ren­te. De lu­tar pe­lo re­co­nhe­ci­men­to e va­lo­ri­za­ção da ar­te nos cir­cui­tos for­mais e ofi­ci­ais. “Não in­sis­to mais, de­sis­ti.” Mas nin­guém lhe ti­ra a tei­mo­sia. Con­ti­nua a ocu­par as ru­as por­tu­gue­sas, co­mo sem­pre quis, ape­sar dos con­vi­tes para se ins­ta­lar no es­tran­gei­ro. “Ape­sar de tu­do, foi pos­sí­vel.” E, ape­sar de tu­do, há as­pe­tos po­si­ti­vos, mais fes­ti­vais de ar­tes de rua, mais en­con­tros de es­tá­tu­as vi­vas no país. Afi­nal, su­bli­nha, “é uma ani­ma­ção urbana de alto efeito.” Di­na­mi­za ru­as, emo­ci­o­na pla­tei­as, atrai os que an­dam de olhos no chão, tu­ris­tas e não só. E o chapéu faz par­te. “É uma ar­te as­so­ci­a­da ao chapéu. Mas há uma men­ta­li­da­de la­ti­na que, no ge­ral, as­so­cia mui­to o ga­nhar na rua à men­di­ci­da­de.” Pe­din­tes e ar­tis­tas no mes­mo sa­co. E o tem­po não es­ba­te es­se pen­sa­men­to. “Em com­pa­ra­ção com a evo­lu­ção so­ci­al até

tem ha­vi­do re­tro­ces­so”, con­si­de­ra. “Na Ex­po 98, ti­ve­mos ar­te de rua de qua­li­da­de, hou­ve um res­pei­to mai­or, mas de­pois ador­me­ceu.”

An­tó­nio San­tos, 56 anos fei­tos nes­te mês, tor­nou-se es­tá­tua de­pois de lhe ter si­do di­ag­nos­ti­ca­da uma neu­ro­der­ma­ti­te, do­en­ça gra­ve, que o obri­gou a es­tar mui­to tem­po pa­ra­do e a pro­cu­rar um cen­tro zen em Fran­ça para re­cu­pe­rar. Ti­nha 25 anos e era sub­che­fe de ser­vi­ço num hos­pi­tal em Coim­bra. Re­cu­pe­rou e, na al­tu­ra, o bre­ak dan­ce es­ta­va na mo­da. “Ti­rei as pi­lhas ao robô.” Trei­nou para es­tar qui­e­to e tor­nou-se

ho­mem-es­tá­tua. O mais co­nhe­ci­do do país. Quando era pequeno, Ti­a­go Fon­se­ca ti­nha imen­sa ener­gia, não pa­ra­va qui­e­to. Os adul­tos acha­vam pi­a­da. Quando de­ci­diu ser ar­tis­ta, a fa­mí­lia apoi­ou-o in­con­di­ci­o­nal­men­te. Fez par­te de um gru­po de te­a­tro ama­dor em Al­ver­ca, no 10.º ano es­tu­dou ani­ma­ção so­ci­o­cul­tu­ral, re­cu­ou uns anos nos es­tu­dos e aos 16 anos en­tra­va no Cha­pitô. Em Lon­dres, li­cen­ci­ou-se em cir­co. Tor­nou-se palhaço, acro­ba­ta, ma­la­ba­ris­ta. Ho­je, aos 32 anos, mo­vi­men­ta-se ha­bi­tu­al­men­te por Lon­dres, Ber­lim, Düs­sel­dorf, on­de co­la­bo­ra com a ópera. Fez rua in­ten­sa­men­te du­ran­te três anos, ho­je es­tá na or­ga­ni­za­ção do Cha­péus na Rua – Fes­ti­val In­ter­na­ci­o­nal de Cir­co e Ar­tes de Rua. A ter­cei­ra edi­ção acon­te­ce de 14 a 16 de se­tem­bro no bair­ro do In­ten­den­te, no Cam­po das Ce­bo­las, no Cha­pitô. Com ar­tis­tas na­ci­o­nais e in­ter­na­ci­o­nais. Tem cor­ri­do bem. “É um ape­lo di­re­to à cul­tu­ra.” Com cha­péus na rua. Li­te­ral­men­te.

Na me­mó­ria, há so­bre­tu­do bo­as ex­pe­ri­ên­ci­as. Mas, um dia, um ven­de­dor de ba­lões ten­tou ex­pul­sá-lo com o ar­gu­men­to de que aque­la rua de Lis­boa era sua. Não de­sis­tiu. A ar­te de rua tem o dom de abran­dar o rit­mo das pes­so­as que pas­sam e pro­por­ci­o­nar mo­men­tos di­fe­ren­tes. O chapéu faz par­te. “O chapéu é uma maneira de qu­al­quer um con­tri­buir e de o ar­tis­ta ser pa­go pe­lo seu tra­ba­lho. É um apoio democrático, ca­da um dá o que tem.”

Um es­ta­tu­to pro­fis­si­o­nal e a cri­a­ção de um sin­di­ca­to se­ri­am bem-vin­dos. Nem tu­do é mau. “Ain­da não há 1% para a cul­tu­ra, mas, se ca­lhar, ca­mi­nha­mos para is­so.” Não há “coi­ta­di­nhos”, mes­mo que a ideia não des­pe­gue. “Há quem pen­se que é um ar­tis­ta que es­tá ali por­que não tem mais na­da para fa­zer e não por­que é bom e es­tá a fa­zer o seu tra­ba­lho.” É uma ar­te que re­sis­te. Ti­a­go an­da a sal­ti­tar de país. Com gos­to e pai­xão. “A ar­te de rua é para to­da a gen­te, para to­dos os gé­ne­ros so­ci­ais, não tem bar­rei­ras.” E as­sim con­ti­nua. ●m

A AR­TE DE RUA ENGLOBA VÁ­RI­AS EX­PRES­SÕES, NÃO HÁ UMA LEGISLAÇÃO ÚNICA, AS AU­TAR­QUI­AS TÊM A ÚL­TI­MA PALAVRA PARA DECIDIR QUAN­TO UM AR­TIS­TA TEM DE PA­GAR PARA OCU­PAR A VIA PÚ­BLI­CA

6 Ma­ria Flor, bai­la­ri­na, tro­cou Lis­boa pe­lo Por­to. É um jar­dim flo­ri­do, uma fon­te vi­va, na Rua de San­ta Ca­ta­ri­na. Tem 26 anos

M An­tó­nio San­tos, ho­mem-es­tá­tua re­co­nhe­ci­do in­ter­na­ci­o­nal­men­te, es­tá na rua há 31 anos. Já foi de­ti­do, mas nun­ca jul­ga­do M Ti­a­go Fon­se­ca é palhaço, acro­ba­ta e ma­la­ba­ris­ta. Li­cen­ci­ou-se em cir­co em Lon­dres. An­da por Por­tu­gal, Ale­ma­nha e In­gla­ter­ra

6 Mar­cus Vuil­la­me, fran­cês, to­ca re­a­le­jo na Rua das Flo­res, no Por­to. Uma fi­lo­so­fia de vi­da, uma for­ma de sustento da fa­mí­lia

M Mar­ta Fa­ria é mu­lher-es­tá­tua há no­ve anos. Co­me­çou no Por­to, mu­dou-se para Lis­boa. Cons­trói as su­as per­so­na­gens dos pés à ca­be­ça

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