A CAR­TA DESAPARECIDA

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - Contra - * Or­te­ga y Gas­set O AUTOR ESCREVE DE ACOR­DO COM A ANTERIOR ORTOGRAFIA.

Se for pre­ci­so cha­ma-se a am­bu­lân­cia, dis­se a juí­za no iní­cio do jul­ga­men­to, qu­an­do a se­nho­ra co­me­çou a cam­ba­le­ar, com afli­ções, e o ma­ri­do a le­vou da­li pa­ra ir be­ber água. Es­ta­va bran­ca e o su­or es­cor­ria em cas­ca­tas pe­las car­ca­ci­nhas da ca­ra.

— Se­nhor ar­gui­do, po­de aju­dar a sua es­po­sa!

Era um des­ses ca­sos em que se po­de ver um pro­ble­ma me­nor a trans­for­mar-se — “eu sou eu e a mi­nha cir­cuns­tân­cia, e se não a sal­vo a ela, não me sal­vo eu”* — no cen­tro de uma vi­da. A mu­lher as­fi­xi­a­va de me­do e dú­vi­da. Dez mi­nu­tos de­pois vol­tou, co­ra­da co­mo uma tar­te. Era co­zi­nhei­ra e ti­nha nos de­dos mar­cas de le­gu­mes cor­ta­dos pa­ra mi­lha­res de so­pas.

— Já es­tá me­lhor, já es­tá mais cal­ma?

— Sim...

A juí­za pô­de en­tão di­zer que, sen­do ca­sa­da com o ar­gui­do, po­dia re­cu­sar res­pon­der co­mo tes­te­mu­nha. Mas lo­go com is­to fi­cou de sú­bi­to in­ca­paz de se ex­pli­car.

— Pre­ci­sa de in­tér­pre­te?

— Sim.

— Mas es­tá a fa­lar co­mi­go... Qual é a sua lín­gua?

— Ucra­ni­a­no!, gri­tou o ma­ri­do do ban­co dos réus.

— A se­nho­ra per­ce­be o que eu es­tou a di­zer, ou não?

— ... Não.

— Mas con­ti­nua a res­pon­der-me bem. Per­gun­te ao seu ma­ri­do, que ele tra­duz-lhe. Se de­ci­dir que não quer fa­lar, es­cu­sa­mos de mar­car da­ta e gas­tar di­nhei­ro ao Es­ta­do. Por­que eu já per­ce­bi que me es­tá a per­ce­ber... Es­tou a dar-lhe opor­tu­ni­da­de de o seu ma­ri­do lhe di­zer, na sua lín­gua, se quer ou não fa­lar. Se qui­ser fa­lar, vai ju­rar di­zer ver­da­de e, se men­tir, co­me­te um cri­me, per­ce­beu?

E a co­zi­nhei­ra ca­la­da. O ma­ri­do le­van­tou a man­ga da ca­mi­sa en­ro­la­da na coi­sa pe­lu­da que era o seu bra­ço:

— Pos­so?

— Se­nhor ar­gui­do, só nos aju­da­va se o se­nhor con­fes­sas­se...

— Vo­cê fa­la “mui­to rá­pi­da”. Se fa­lar mais de­va­gar, ela per­ce­be tu­do!

— En­tão eu per­gun­to se quer res­pon­der... se-eu-fa­lar-as­sim-mais-de­va­gar? Si­lên­cio ou­tra vez.

— Sim, res­pon­de por fa­vor!, or­de­nou-lhe o ho­mem, e lar­gou pa­la­vras es­la­vas, rís­pi­das.

— Não é o se­nhor que es­tá a res­pon­der!

— Po­de ser em por­tu­guês, sus­sur­rou a mu­lher, en­ro­lan­do os de­dos co­mo nu­ma tran­ça de alhos.

— Aqui é co­mo na Bí­blia, tu di­zes “sim, ju­ro!”, ber­rou Ale­xei, e ba­teu num gros­so li­vro sa­gra­do ima­gi­ná­rio.

— Aqui não há cá Bí­blia! Só tem que di­zer “ju­ro”.

Era o ho­mem que que­ria que a mu­lher fa­las­se, mas não pa­ra di­zer o que sa­bia. Por ela, fu­gia da­li. A solução que en­con­tra­ra pa­ra o seu di­le­ma era fazer de con­ta que não sa­bia nem por­tu­guês, nem a ver­da­de. Mas não sa­bia men­tir. Es­ta­va en­ta­la­da en­tre dois có­di­gos de obe­di­ên­cia. Ale­xei de­fen­de­ra-se em tri­bu­nal di­zen­do nun­ca ter re­ce­bi­do uma car­ta de avi­so das au­to­ri­da­des ro­do­viá­ri­as. Não sou­be­ra, por­tan­to, que ti­nha que de­vol­ver a sua car­ta de con­du­ção por or­dem do tri­bu­nal. Con­ti­nu­ou a con­du­zir (é aju­dan­te de mo­to­ris­ta) co­mo se es­ti­ves­se tu­do igual. Um dia, foi lá a po­lí­cia bus­cá-lo. Mas, e por is­so é que a mu­lher de Ale­xei se via em gran­des as­sa­dos, Ale­xei tam­bém pôs a hi­pó­te­se de a car­ta ter che­ga­do e de a mu­lher a ter ati­ra­do pa­ra o li­xo. A ideia, no en­tan­to, não fa­zia sen­ti­do. E ago­ra a juí­za caía so­bre a des­gra­ça­da co­zi­nhei­ra, ame­a­çan­do fa­zê-la pas­sar pa­ra o ban­co dos réus por fal­so tes­te­mu­nho. Te­ria “al­gum ra­to co­mi­do a car­ta”? Te­ria “ou­tra pes­soa le­va­do a car­ta”? Acha­ria a mu­lher que ati­rar uma car­ta di­ri­gi­da a ou­tra pes­soa pa­ra o li­xo era coi­sa pa­ra se es­que­cer co­mo “on­tem co­mi ar­roz ou co­mi ba­ta­tas”?

— Na sua vi­da, co­mo es­po­sa da­que­le se­nhor, man­dou uma car­ta di­ri­gi­da pa­ra o seu ma­ri­do no li­xo?

— ... Sim. Es­tá. Põe no li­xo. Se não es­tá lá, foi pa­ra o li­xo.

— Ainda es­tá a tempo de di­zer a ver­da­de. Úl­ti­ma opor­tu­ni­da­de. Pôs a car­ta no li­xo de pro­pó­si­to?

— Sim, no li­xo. Es­tá on­de?

Boa per­gun­ta. A mu­lher saiu de no­vo a cam­ba­le­ar. Há um con­to de Ed­gar Al­lan Poe, “A Car­ta Rou­ba­da” (“The Pur­loi­ned Let­ter”), em que uma car­ta pe­ri­go­sa pa­ra o bom-no­me de uma mu­lher cai nas mãos de um chan­ta­gis­ta. A po­lí­cia vas­cu­lha a ca­sa do chan­ta­gis­ta e não en­con­tra a car­ta. Fo­ra es­con­di­da à vis­ta de to­dos, no sí­tio das car­tas.

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