ASSALTO NO DIA DE ANOS

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - Con-tra Levante-se -

Aca­ba­ram as fé­ri­as de Ve­rão e os jo­vens por­tu­gue­ses vol­tam ale­gre­men­te às au­las, ao bullying, à in­ti­mi­da­ção e aos as­sal­tos. Ain­da ago­ra comecei e já me soa a exa­ge­ro, mas te­nho no ou­vi­do umas es­ta­tís­ti­cas so­pra­das há di­as pe­la rá­dio: me­ta­de dos jo­vens no mun­do fo­ram ví­ti­mas de assalto ou de bullying (vi­o­lên­cia e per­se­gui­ção en­tre co­le­gas). Se ou­vi bem, leu bem: me­ta­de dos jo­vens em to­do o pla­ne­ta Ter­ra. Não sei co­mo se che­gou a es­te nú­me­ro, se é ri­go­ro­so, se o es­tu­do in­clui tan­to ul­tra-ri­ca­ços da Ásia co­mo re­me­di­a­dos da Eu­ro­pa e pas­to­ri­nhos em Áfri­ca, mas dá mui­tas cen­te­nas de mi­lhões de trau­mas. E em Por­tu­gal, que de­cer­to não foge a es­ta re­gra (co­mo o ca­so do Zé vai de­mons­trar), ain­da te­mos o fe­nó­me­no de uma es­co­la que, em vez de apos­tar na for­ma­ção de adultos saudáveis, de pes­so­as rec­tas, apos­ta em di­plo­mar cor­cun­das cur­va­dos pe­las mo­chi­las. “Me­di­das pa­ra bai­xar pe­so das mo­chi­las fi­ca­ram na ga­ve­ta”, in­for­mou-nos o JN es­ta se­ma­na. —Eu to­quei nas cos­tas da mi­nha ami­ga pa­ra a avi­sar e ter cui­da­do, que lhe po­di­am ti­rar o te­le­mó­vel, mas ela as­sus­tou-se e fu­giu, pen­sou que a iam rou­bar...

Zé es­tá no tri­bu­nal, em pé, a con­tar o dia dos acon­te­ci­men­tos. Tem 16 anos, é al­to, ma­gro, de ócu­los frá­geis e trans­pa­ren­tes. Não pa­re­ce per­tur­ba­do pe­lo in­ter­ro­ga­tó­rio da juí­za e da pro­cu­ra­do­ra. Às ve­zes en­co­lhe os om­bros. Ele é a ví­ti­ma de mais um ca­so que acon­te­ce nas es­co­las. Pa­re­ce que se es­tá a fa­lar de um fac­to re­cor­ren­te, co­mo di­zer que no In­ver­no cho­ve, na Pri­ma­ve­ra há pó­len e no Ve­rão..., bem, o Ve­rão não du­ra sem­pre. Vol­tou a épo­ca de es­ta­res pre­pa­ra­do pa­ra o que for pre­ci­so, es­tu­dan­te de Por­tu­gal. —Cor­reu en­tre os alu­nos que ha­via por ali um gru­po que an­da­va a as­sal­tar.

Era ver­da­de e ca­lhou-lhe a ele. Mais tar­de al­guém lhe ex­pli­cou que os as­sal­tan­tes pro­cu­ra­vam um al­vo, ti­nham uma re­fe­rên­cia: um ra­paz al­to, de mo­chi­la cre­me (o mes­mo ca­qui do de­ser­to que trou­xe

ao jul­ga­men­to e pôs no chão), e que ti­nha um te­le­mó­vel va­li­o­so. —Al­guém me de­ve ter vis­to a ver as ho­ras, à saí­da.

Zé ti­nha ou­tra ca­rac­te­rís­ti­ca im­por­tan­te que nos ca­lha a to­dos uma vez por ano e que faz de nós ví­ti­mas in­te­res­san­tes (pren­das de fa­mi­li­a­res, di­nhei­ro no bol­so, etc.):

—Eu fa­zia anos na­que­le dia.

—Era o seu ani­ver­sá­rio? —Sim.

A juí­za sus­pi­ra e con­ti­nua o in­ter­ro­ga­tó­rio. —O que é que acon­te­ceu ao cer­to?

—Eu es­ta­va a che­gar per­to da pa­ra­gem do au­to­car­ro quan­do vi três ra­pa­zes que olha­vam pa­ra mim des­de o ou­tro la­do da rua. Ta­pa­ram a ca­be­ça com o ca­puz da ca­mi­so­la e avan­ça­ram.

—Um ca­puz co­mo?

—Da­que­les nor­mais das ca­mi­so­las, que se põem as­sim.

Zé co­lo­ca pa­las com as mãos no fun­do da tes­ta, de­se­nha um ar­co gó­ti­co.

—Não se con­se­guia ver a ca­ra de­les? —Fi­cou meio ta­pa­da.

—E de­pois?

—Avan­ça­ram pa­ra mim e cer­ca­ram-me. Qu­e­ri­am o te­le­mó­vel da mo­chi­la. Mas consegui fu­gir. Quan­do ia a fu­gir, um de­les deu-me um mur­ro nas cos­tas.

Zé, que não cos­tu­ma­va apa­nhar o au­to­car­ro, cor­reu, sal­tou pa­ra um veí­cu­lo e saiu na pa­ra­gem mais à fren­te. Mas de­pois per­ce­beu que os ou­tros o ti­nham se­gui­do.

—Pe­di aju­da a um se­nhor e a uma se­nho­ra que es­ta­vam na pa­ra­gem, que me pro­te­ge­ram.

E as­sim fa­lhou o assalto. Os três aca­ba­ram por ser iden­ti­fi­ca­dos e o rai­de cri­mi­no­so es­tá a ser jul­ga­do ago­ra, me­ses de­pois. São tan­tos os ca­sos que é bom ver­mos que um che­ga a tri­bu­nal. Is­to es­tá sem­pre per­to de nos acon­te­cer, e aos nos­sos fi­lhos. Foi-se mais um te­le­mó­vel, um blu­são, uma car­tei­ra. Já nem se fa­la de­ma­si­a­do des­te pro­ble­ma, fi­cou uma coi­sa tão pró­xi­ma que nem pa­re­ce inad­mis­sí­vel.

Por fa­lar nis­so, co­mo é que os as­sal­tan­tes sa­bi­am que o Zé fa­zia anos? —Um de­les eu até co­nhe­cia. Vi­ve no mes­mo pré­dio de um ami­go meu.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.