“SEM ACOR­DO, E COM UMA SAÍ­DA À FOR­ÇA, GRITAMOS TO­DOS ‘MAMMA MIA’!”

The­re­sa May acre­di­ta que o fac­to de o do­cu­men­to do aban­do­no do Rei­no Uni­do da União Eu­ro­peia ter 585 pá­gi­nas – uma ca­pi­cua – vai dar sor­te e fa­rá com que o Bre­xit te­nha um fi­nal fe­liz. A pri­mei­ra-mi­nis­tra bri­tâ­ni­ca re­ve­la ain­da um trun­fo de­ci­si­vo: quan­do

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - ALMANAQUE - João Qua­dros POR

Es­ta se­ma­na a nos­sa con­vi­da­da nas en­tre­vis­tas que nun­ca fiz é a pri­mei­ra-mi­nis­tra do Rei­no Uni­do (ago­ra, bas­tan­te de­su­ni­do), The­re­sa May. Te­nho aqui co­mi­go o do­cu­men­to que, su­pos­ta­men­te, ofi­ci­a­li­za o acor­do de saí­da do Rei­no Uni­do da União Eu­ro­peia. É um gran­de ca­lha­ma­ço com 585 pá­gi­nas.

585 é uma ca­pi­cua. Po­de ser que dê sor­te, que bem pre­ci­sa­mos de­la.

Ver­da­de. Por ou­tro la­do, os cer­ca de 44 bi­liões de li­bras que vão ter de pa­gar pa­ra aban­do­nar a União Eu­ro­peia tam­bém é uma ca­pi­cua, mas não é um nú­me­ro agra­dá­vel. Aliás, uma ca­pi­cua é um pa­lín­dro­mo, uma pa­la­vra que vem do gre­go – pa­lin – que sig­ni­fi­ca "pa­ra trás, no­va­men­te" edro­mos "ca­mi­nho, rua". Não sei se não se­rá is­so que vai acon­te­cer ao Rei­no Uni­do – per­cor­rer um ca­mi­nho que o vai fa­zer vol­tar pa­ra trás.

Ain­da bem que fa­la nos gre­gos, acho que a Gré­cia é um bom exem­plo por­que a mai­o­ria dos in­gle­ses vo­tou “sim” no re­fe­ren­do do Bre­xit. A União Eu­ro­peia não tem mui­to res­pei­to pe­las na­ções que de­la fa­zem par­te.

Mas, se ca­lhar, se ago­ra hou­ves­se um no­vo re­fe­ren­do tam­bém vol­ta­vam pa­ra trás. Eu sin­to que o re­fe­ren­do do Bre­xit foi um bo­ca­do co­mo aque­le pro­gra­ma da SIC, o Ca­sa­dos à Pri­mei­ra Vis­ta: as pes­so­as não fa­zi­am ideia no que se es­ta­vam a me­ter e ago­ra an­da tu­do à ba­ta­ta­da e nin­guém se en­ten­de e já co­me­çam a ver que se me­te­ram nu­ma gran­de alha­da. O Bre­xit foi uma es­pé­cie de Di­vór­cio à Pri­mei­ra Vis­ta.

Eu sou con­tra um no­vo re­fe­ren­do, o po­vo vo­tou es­tá vo­ta­do.

Tem to­da a ra­zão. Na re­a­li­da­de a úni­ca coi­sa em que o po­vo não vo­tou mes­mo foi em si pa­ra pri­mei­ra-mi­nis­tra. Mas eu, aqui há uns tem­pos, vi-a a en­trar no con­gres­so do seu par­ti­do a dan­çar o “Dan­cing-qu­e­en” dos Ab­ba. Não tem re­ceio que es­te acor­do po­nha a União Eu­ro­peia a can­tar o “The Win­ner Ta­kes It All”?

Se quer ir pe­lo ca­mi­nho dos tro­ca­di­lhos com mú­si­cas dos Ab­ba, o que eu acho é que sem acor­do, e com uma saí­da à for­ça, gritamos to­dos “Mamma Mia”!

Tam­bém po­de dar-se o ca­so dis­to aca­bar por ser o seu “Wa­ter­loo”. Mas no Wa­ter­loo os in­gle­ses ven­ce­ram.

Rai­os, a se­nho­ra tem sem­pre uma res­pos­ta de­bai­xo da lín­gua. Se con­se­guir so­bre­vi­ver a is­to e fa­zer do Bre­xit um su­ces­so, a Mar­ga­ret That­cher, com­pa­ra­da con­si­go, vai pa­re­cer a Da­ma de... plas­ti­ci­na. Sen­te-se pron­ta pa­ra se reu­nir com o pre­si­den­te da Co­mis­são Eu­ro­peia, Je­an-clau­de Junc­ker, pa­ra dis­cu­tir a de­cla­ra­ção so­bre os ter­mos da fu­tu­ra re­la­ção do Rei­no Uni­do com a UE? Cla­ro que sim.

Acha que o vai con­ven­cer? Vai apos­tar tu­do nas su­as qua­li­da­des di­plo­má­ti­cas?

Sim, mas, não ar­ris­can­do, vou le­var du­as gar­ra­fas de aguar­den­te.

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