Jornal de Notícias

Balões carregados de desejos encheram céus do São João numa noite de regresso à folia

Portuenses ajudaram turistas a lançar balões e houve ainda quem fizesse novas amizades Marcelo Rebelo de Sousa festejou na Invicta, onde a festa do santo popular “é mais forte”

- Adriana Castro adriana.castro@jn.pt

FESTA Já ia bem alto, mas o olhar de Sheila Schoenbeck não se desviou do balão. Suspirou e pediu um desejo. Qual foi não sabemos. Se nos dissesse, não se realizaria, justificou. A alemã, de 40 anos, está no Porto, com a família, pela primeira vez. A estrearem-se na noite de São João, não podia faltar o balão. Mas como lançá-lo? “Vamos ajudá-los, anda”, ouve-se de um grupo de portuguese­s no meio da multidão que descia a Sé.

Miguel Simões, “o mestre”, como lhe chamam os amigos, revela o segredo: “Primeiro é preciso acreditar que ele sobe. Depois, muita paciência e mantê-lo próximo ao chão para não entrar ar frio”.

Enquanto Mira, de seis anos, segurava uma ponta do balão, os portuguese­s faziam o resto. O isqueiro deu chama à acendalha e fez-se silêncio. Um só erro podia incendiar o papel, desperdiça­ndo-se o desejo da mãe de Mira. O balão começa a encher. Enche, enche. “Podem largar”, ouve-se. E sobe. Missão cumprida.

“É TRADIÇÃO”

Em festejo, o grupo de amigos, de martelos e copos na mão, desce do Miradouro da Rua das Aldas para o Largo da Pena Ventosa. Preparam-se para lançar o segundo balão da noite. “É tradição. Lançamos todos os anos. Com ou sem pandemia”, revela de imediato Adriana Gravato. Depressa chama Jorge Correia. “Ele é que gosta de falar”, brinca.

“Ai, o JN, que a minha avó leu até morrer”, exclama Jorge de imediato, no meio da música alta de Toy, que se fez ouvir durante “toda a noite” pelos bailaricos.

“Peço sempre um desejo. Ainda há bocado estava a dizer aos alemães que eles não sabiam”, conta Jorge. Claudino Moura também pede sempre. “Eu só não pedi porque não acreditei que o balão fosse subir”, diz Odília Queirós, quase que a desculpar-se. “Mas ainda vou a tempo. Vou pedir no próximo”, promete.

Ainda faltava ao grupo lançar mais um balão. Entre o fumo dos assadores, Jorge aponta para Miguel Simões. “Ele é o mestre. Este é que nos lança os balões. Chega, põe a mão em cima e abençoa o balão”, brinca.

E Miguel revela outro segredo: “Os balões que se vendem nos chineses são mais fáceis. A abertura é maior. A dos portuguese­s é mais estreita”.

Quem também esteve pela Sé a festejar a noite de São João foi Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente da República chegou ao jantar, organizado pela Câmara do Porto, por volta das 21 horas. Este ano, o chefe de Estado confessou que “tinha de vir” ao São João no Porto. “Depois de dois anos fechados, é o desconfina­mento, é o voltar a vibrar com o São João onde ele é mais forte em Portugal, que é realmente no Porto”, observou.

“SOU ALFACINHA”

“Tenho memória de todos os anos lançar um balão em

honra da minha filha falecida”, confessa Filipa Ventura. “Ó menina”, clama o pai, Jorge, “não leve a mal, mas era uma cadela”. A família ri, mas a mãe Ângela confirma: “Era mesmo”.

Ao miradouro da igreja de São Lourenço chega João Barriga. Numa mão traz o balão ainda no plástico e na outra o filho, de nove anos, com um amigo. “Podem ajudar-me?”, perguntou o lisboeta, a viver há quatro anos na Maia. Aquilino Pereira, cunhado de Filipa, não perde tempo: “Claro”.

Os dois abrem o balão, enquanto Aquilino explica como lançá-lo. Mas à medida que a conversa avança, o portuense pergunta: “Tu não és daqui, pois não?”. João ri: “Não, sou alfacinha”. “Ah, eu logo vi”, responde Aquilino.

Depois de um atribulado lançamento do balão – nos primeiros minutos parecia que ia incendiar-se –, a conversa entre os dois estendeu-se. No fim, considerar­am-se “amigos”.

Seguiu-se, à meia-noite, o tão esperado fogo de artifício. Pelas contas do presidente da República, durou “13 minutos e 40 segundos”. “Houve um fogo mais curto, e bem, concentrad­o. Muito variado, muito bonito. Filmei mais de metade porque, de facto, saiu muito bem”, afirmou Marcelo.

À saída do Seminário da Sé, onde jantou, uma multidão esperava o chefe de Estado, que distribuiu selfies e marteladas. A noite ainda era uma criança.

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3 Grupo de amigos ajudou família alemã a lançar balão de papel. Miguel Simões, “o mestre”, à direita, de polo vermelho 4 Fogo de artifício na noite de São João foi lançado do rio Douro por causa das obras na ponte Luís I. Durou cerca de 13 minutos
2 Autarcas do Porto e Gaia, Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, selaram cumpriment­o na ponte Luís I 3 Grupo de amigos ajudou família alemã a lançar balão de papel. Miguel Simões, “o mestre”, à direita, de polo vermelho 4 Fogo de artifício na noite de São João foi lançado do rio Douro por causa das obras na ponte Luís I. Durou cerca de 13 minutos
 ?? ?? 6 Bailaricos e arraiais encheram as ruas do Centro Histórico do Porto durante toda a noite
6 Bailaricos e arraiais encheram as ruas do Centro Histórico do Porto durante toda a noite
 ?? ?? 5 Mira, de seis anos, segura uma ponta do balão. Foi o seu primeiro São João. Regressa a casa depois de amanhã
5 Mira, de seis anos, segura uma ponta do balão. Foi o seu primeiro São João. Regressa a casa depois de amanhã
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República, Marcelo Rebelo de Sousa, assistiu a espetáculo com Rui Moreira e Luís Montenegro
1 Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assistiu a espetáculo com Rui Moreira e Luís Montenegro
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FOTO: ANDRÉ ROLO / GLOBAL IMAGENS REGATA CANCELADA Milhares de pessoas juntaram-se ontem nas margens do rio Douro para assistir à regata de barcos rabelo do dia de São João. Por falta de vento, os barcos foram rebocados da Alfândega até ao Cais de Gaia e o evento foi cancelado.

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