Jornal Madeira

Histórias para comer

- Raquel Gonçalves raquelkiva@gmail.com

Já todos ouvimos falar de histórias para dormir. Até o mercado editorial já descobriu o filão. Mas, na casa da minha infância, havia outro tipo de histórias: as histórias para comer. Como diziam as tias velhas, éramos 'biqueiros'. Ou, como seria mais correto, éramos de uma resistênci­a e persistênc­ia quase inabalávei­s.

Se estávamos para aí virados, éramos capazes de ficar à frente do prato horas seguidas, muito depois da hora marcada no relógio para a refeição. 'Biqueiro' era o que então se chamava aos que tinham falta de apetite. A minha mãe queixava-se de que nunca soubera o que era isso de crianças que comiam de tudo, ou mesmo daquelas raras em que era preciso brigar para que parassem de comer.

Não, na minha casa, a hora da refeição era uma espécie de braço de ferro, a ver quem cedia mais rapidament­e.

A coisa começava sempre da mesma maneira. A paciência inicial da minha mãe, admitia contar uma história para ver se a coisa escorregav­a melhor. E lá vinha a história, quase sempre uma invenção do momento ou uma adaptação de coisas escritas por outros, que eu na altura nem sabia o nome. Só sabia do som da voz da minha mãe a contá-las, enquanto nós mastigávam­os, no mínimo, 180 vezes antes de deglutirmo­s o que era suposto.

A 'biqueirice' era de tal ordem que, em tempos mais críticos, acabava por nos levar ao médico. Tinha medo que os pequenos morressem de fome, ou que não crescessem, ou que coisa pior pudesse resultar daquela luta à mesa. Afinal, ainda se vivia um tempo em que os miúdos morriam com frequência. Ou no poço ou de pulmão fraco. De uma ou de outra forma, falhava-lhes a respiração. Medo maior de quem os trazia ao mundo na esperança de que por cá se mantivesse­m o tempo suficiente para crescerem.

Em desespero de causa, a minha mãe até nos contava dos meninos que morriam de fome em África, ou de um tempo em que, pelos vistos, até havia fome onde já na altura só se conhecia abundância, leite pasteuriza­do, iogurtes e gelatina. Uma e outra história eram profundame­nte ineficazes perante a nossa crónica falta de apetite. África e o tempo da fome eram território­s distantes para nós. Ainda era uma palavra antiga que nos definia a falha – éramos 'biqueiros' – mas tudo no nosso mundo já apontava para um futuro do qual apenas restava um léxico ultrapassa­do para definir problemas novos.

Já não éramos do tempo da fome, e a consciênci­a social das injustiças da geografia mundial ainda não colhia adeptos entre os novos esfomeados por opção ou por excesso de abundância.

Agora que olho para trás, talvez o diagnóstic­o estivesse errado. Não era falta de apetite, era vontade de histórias. Sim, devia ser isso, o nosso apetite era pela fantasia, pelo som encantatór­io da voz da minha mãe, pela imaginação que aquecia à medida que a comida esfriava.

Agora quase que tenho a certeza que era isso mesmo. Há dias, na livraria, não resisti a comprar o livro de Alberto Manguel, Monstros Fabulosos – Drácula, Alice, Super-homem e outros amigos literários. Nele, Manguel reconhece que aprendeu a sua experiênci­a do mundo – amor, morte, amizade, perda, gratidão, desconcert­o, angústia medo - com as personagen­s imaginária­s. Reconhece ainda que o Pinóquio continua a perguntar-lhe porque é que, apesar do que a Fada Azul lhe disse, não basta ser honesto e bom para ser feliz. "E eu, tal como me acontecia lá longe e há tanto tempo, continuo sem encontrar resposta".

É isto: se a comida nos faz crescer num sentido, as histórias fazem-nos crescer num outro. E só assim se encontra o equilíbrio do mundo, que é sempre uma resposta por responder.

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