Jornal Madeira

Deus vai-lhe ajudar

- DO FIM AO INFINITO Duarte Caires duartevelo­sacaires@gmail.com

APat diz que eu conduzo mal e não sei fazer o ponto de embraiagem, pelo que está sempre a apanhar sustos e a gozar das minhas aselhices. Ela vai ao lado e aquilo é gritos ou gargalhada­s. Ainda por cima, o carro é dela. Ou seja, não posso dizer que a culpa é da máquina. Na verdade, eu sempre conduzi mal, sempre. Nunca tive paixão por carros e tirei a carta muito tarde, já com trinta anos. Passei no código à primeira, mas tive de repetir o exame de condução. No entanto, já me sentei ao volante nos dois hemisfério­s, a rodar pela direita e pela esquerda, e nunca tive um acidente grave.

Bati com os nós dos dedos no tablier:

– Não vá o Diabo tecê-las!

Eu estava entalado no parque de estacionam­ento do Anadia há mais de uma hora, o carro na fila sempre no mesmo lugar. Parecia que toda a gente tinha decidido sair ao mesmo tempo, provocando um engarrafam­ento monumental. Os ansiosos e os apressados buzinavam e brigavam uns com os outros, palavrões no ar, mãos e braços a voar, rostos afogueados, mas aquilo não andava nada, não andava mesmo nada.

Eu estava no segundo piso, no rabo da lancha. Não buzinei, mas praguejei bastante. Só para mim, claro. Resondei-me forte e feio por ter escolhido sair precisamen­te na hora de ponta. Raios me partam, puta que pariu, tonto de merda. Depois, pus-me a pensar no bem que me faz andar a pé – é um excelente meio para libertar suor, pensamento e memória.

Buzinas a fundo.

O carro parado na fila.

E eu a pensar: Hei de comprar um carro este ano. Barato e bom, como não há. Mas, de facto, o que não há é dinheiro. Lá carros há muitos.

Esta coisa do dinheiro leva-me ao tempo em que eu não tinha nada, nem sequer um tostão para café e fartava-me de andar a pé, a libertar memória, pensamento e suor em abundância. Como não sou do tipo empreended­or, daqueles que fazem fortuna a partir do zero ou da venda da alma ao Diabo, estar desemprega­do foi um inferno para mim. Em África, nos meus anos de vagabundag­em, safava-me muito bem com pouco, porque tinha jeito para viver na miséria, mas aqui, na Europa, é um absoluto tormento e implica um grande esforço para não descarrila­r.

Às vezes, a falta de dinheiro até me fazia acreditar em Deus e eu rezava, mais ou menos assim: Estou a procurar-te entre escombros, no meio da guerra, no meio da tempestade, tanta dor, tanta tragédia, só para te pedir uma ajuda monetária, um sinal de ti, uma luz, alguma coragem para dar outro passo em frente, mas tu respondes com silêncio e eu vergo-me humildemen­te diante o teu esplendor.

É terrível, não é? Uma pessoa pôr-se a rezar, a gastar tempo nisso, na esperança de que Deus lhe dê dinheiro. Ainda bem que sou ateu, capaz de aceitar e processar a dúvida e a vaidade, o egoísmo e a solidão, porque o resto é apenas silêncio, o imenso silêncio de Deus que precede o amor e o ódio entre os homens.

Finalmente, cheguei à cancela do estacionam­ento.

À frente seguia um casal, com idade na casa dos 70 anos. O homem ia ao volante e teve de parar na rampa de acesso à saída. Eu fiz o mesmo atrás dele. Quando ganhou espaço para prosseguir, não conseguia arrancar. A cada tentativa, a viatura deslizava para trás. Foi então que buzinei, para o alertar.

O senhor deitou a cabeça de fora e disse, um pouco aflito e submisso:

– Amigo, pode fazer o favor de me levar o carro até ali acima?

Fui lá ajudar. Sentei-me ao volante. O carro já tinha uns bons anos e, ao manobrar a alavanca das velocidade­s, não percebia se tinha engatado a primeira, a terceira ou a marcha atrás, e pensei na Pat, quando me diz que não sei fazer o ponto de embraiagem.

– Não estou a perceber isto – disse, em jeito de desabafo.

E a senhora, ao lado, respondeu: – Deus vai-lhe ajudar.

Duarte Caires escreve à sexta-feira, todas as semanas

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