Jornal Madeira

A lição das árvores (quando é preciso o deserto)

- PALAVRAS APENAS Graça Alves gracaleono­r@hotmail.com

Falam em segredo, as árvores. Precisam de silêncio para que o vento toque as cordas das vozes. Às vezes, é o assobio dos pássaros que lhes pauta a poesia. São poetas, as árvores. Tocam o centro de nós, sempre que nos sentamos no chão que nos oferecem e nos dispomos a escutar. Apenas a escutar.

Fui um destes dias, ilha adentro, à procura de um momento assim. Precisava de esvaziar o mundo que habita em mim, para – por algum tempo – permitir que as vozes das árvores fizessem morada nas feridas que os dias vão deixando. De farnel e pés (nem sempre) firmes, juntei-me a quem precisava do mesmo e fui. Sem sair da nossa terra, fui à procura de me encontrar.

Devo confessar que é difícil calar os pensamento­s e ficar presente perante nós próprios, com o único objetivo de aprender com as árvores. Presas ao chão, elas crescem para o céu e vão abraçando outras árvores pelo caminho. Como se, juntas, fossem mais fortes. Como se, juntas, nos ensinassem a vida. E a generosida­de: coam a força do sol, amparam a violência das tempestade­s, deixam passar a sombra e a luz na têmpera certa; são a casa dos pássaros e acolhem-lhes os ninhos, guardam os tesouros das aves que vêm doutras paragens e bordam uma renda no céu que só vê quem tem tempo.

As árvores dão(-se) até depois do fim. Sei disso, porque me plantei num tronco que a mão do homem cortou, porque a árvore tinha morrido de pé. Sei disso, porque os meus pés me contaram que, no chão que eu pisava, havia um manto de alimento para outras árvores que estavam a nascer. Sei disso, porque, ao alcance do meu olhar, havia tocos prontos para aquecer alguém ou para cozer o pão que me lembra a infância. Sei disso, porque escrevo nos papéis em que as árvores se transforma­ram.

Devo confessar que é difícil calar os pensamento­s e ficar presente perante nós próprios, com o único objetivo de aprender com as árvores.

As árvores ensinam-nos o desprendim­ento. E, para que isso aconteça, temos de aprender o deserto. E o silêncio.

Depois, depois retomamos os dias. E os dias ficam mais fáceis.

Graça Alves escreve ao sábado, de 4 em 4 semanas

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