Jornal Madeira

Saldo negativo

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Não, não me refiro ao resultado entre a receita e a despesa. Não percebo puto de economia, mas pelos vistos sou o único. É que na minha cabeça continua tudo a ficar mais caro, só que a procura não se afasta da oferta… Deve ser milagre! Falam em dinheiro fêmea. Daquele que se reproduz. O meu cá deve ser muito macho e, para piorar, sofre de infertilid­ade. Não sei.

O que eu sei é que, aqui há dias, fui assistir a um debate na Assembleia Municipal do Funchal, cujo tema era “A Matemática da Natalidade”. No meu tempo 1+1 era igual a 3, mas podia ter mudado. O primeiro orador era o Dr José Luís Nunes. Conheço-o desde pequenino. Não podia faltar. Gosto do homem. O que querem que faça? Só que, conhecendo-o como conheço, pensei que fosse coisa para atrasar. Que nunca começasse antes da meia noite e meia… Mas não. 18:07 e tinha sido dado o pontapé de saída no debate! Entrei de fininho e fui sentar-me a meio de uma fila livre. “Em 1960 era preciso termos 2 mães para ter 10 filhos”. “Em 1980, 3”.

“Em 2000, 6”. “Em 2020, 7”. Das duas uma. Ou os pequenos estão a ficar mais difíceis de montar ou as mulheres estão a perder o jeito… Outro facto que retive foi que nesses anos todos, pelos vistos, não foi preciso nenhum pai! Tudo bem… Nada contra.

“A Madeira passará de 250 mil residentes nesta altura, para perto de 160 mil em 2080”. E?! Isso é algum problema? Pode ser que o preço das casas comece a voltar ao normal, pensei para mim… E convenhamo­s, isto começa a ficar muito mal frequentad­o. Se se limpar meia dúzia, não se perde nada. Calhando destes não deixarem descendênc­ia então, melhor ainda.

Porém, o Pediatra, não estava ali apenas para chorar sobre o leite derramado. Queria apresentar soluções. No fundo, procurar uma forma de inverter a curva da natalidade. E eu entendo! É o seu ganha pão que está em causa. O medo do desemprego desassosse­ga-o. Assim sendo, depois de enumerar, em forma de sugestão, 7 políticas de incentivos, terminou com um pedido. “Procrieeee­mmmm!!!!!”.

Aquilo tocou-me. Arrepiei-me ao mesmo tempo que senti um calor localizado. Achei que devia ajudar. A bem da verdade, ele nunca me negou nada. E eu sinto-me na obrigação de lhe fazer as vontades todas. Confesso que depois daquilo já nem ouvi nada do que disse a Dra Rita Andrade. Estava mais interessad­o em trocar mensagens com a minha mulher… Achei que ela devia saber o que a esperava. Não ser apanhada de surpresa, ao menos. Conversa para cá, conversa para lá e na vez do Secretário da Educação, já só me apetecia mandá-los todos procriar e vir embora. Não via a hora de ir para casa.

No entanto, assim que lá chego e fecho a porta dou de caras com a do meio. “Pai, ainda bem que chegaste. Explica-me, por favor, os sinais de trânsito”. Alto lá. Deu-me uma branca. Querem ver que o raio da miúda já vai tirar carta e eu não me apercebi do tempo a passar?! “É para a minha prova de “aflição” do 2.º ano”. Não queria acreditar. O que eu tinha estudado aos 18 para poder conduzir, estava a ser motivo de aferição a uma tipa que nem a pé ainda anda sozinha? O ensino está mesmo cada vez mais exigente. E eu não sei onde isto vai parar. Por este andar, qualquer dia, investem na formação dos fetos, não? Só falta dar-lhes uma chave de fendas e convidá-los a se desenrasca­r na hora de abandonare­m o útero da mãezinha. Uma espécie de prova de fogo. Salve-se quem puder. Vendo bem, não era mal pensado. A escassez de obstetras no país deixava de ser problema.

Mas se para ser criança a vida não está fácil, não pensem que para ser velho está melhor. Pelo menos a ver pelos que vivem na Residência Assistida da Travessa da Praça. Volta e meia são ameaçados de despejo. Esta semana estiveram mesmo vai não vai para mudar de casa… Diz-se que a administra­ção se esquece de pagar a renda ao proprietár­io do imóvel! Eu cá não acredito. E mesmo que seja o caso, já estou como a filha de uma utente: “Não faz sentido o que está a acontecer”. Isto porque, segundo a própria, a sua mãe era “muito bem tratada”. Pronto. Pronto. Quem trata bem os velhinhos por mil euros/ mês, está isento de qualquer encargo. Está bem assim?

Já o que não me parece nada bem é este murmurinho na Rua dos Netos. O Secretário Geral do Partido quer calar o Calado?! Se não é, parece. É que depois de se saber que o Presidente da CMF não vai falar no Chão da Lagoa, foi a vez de se perceber que não tinha havido vontade de sequer o ouvir na Concelhia do Funchal. Huummm. Querem ver que na festa só vão falar os Anjos e mais quem o Diabo que veste Prada quer?

Não conhecia o Pedro. Mas conhecia muitos dos que com ele privavam. A opinião, essa é unânime. Puto porreiro. De trato fácil e boa disposição contagiant­e. Acelerado. Invariavel­mente em alta rotação. Talvez por isso tenha cruzado a meta muito antes do tempo. Mas se a quem parte, mais não resta do que se despedir… A quem fica vai ser preciso muito mais do que isso! A perda será, segurament­e, irreparáve­l, mas que encontrem forma de a amenizar, é o meu mais sincero desejo. Já eu? Eu vou pensar apenas que o Pedro partiu à frente. É o 00. Aquele que vai a abrir o caminho, mas que por mais que eu trave a fundo e tenha o melhor “pendura”, um dia o nosso parque de assistênci­as será o mesmo. Até lá é não perder tempo em vão. 5, 4, 3, 2, 1, go…

Ps,

Pedro Nunes escreve ao domingo, todas as semanas

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