MARIZA DA SUA TER­RA

Máxima - - Feminae -

MA­RI­SA DOS REIS NUNES. Tal­vez, à par­ti­da, não as­so­cie es­te no­me a ca­ra al­gu­ma. É, na ver­da­de, o no­me de nas­cen­ça de Mariza, uma das mais acla­ma­das vo­zes do fa­do, aplau­di­da no mun­do. É a voz de Ó Gen­te da Mi­nha Ter­ra, um fa­do com­pos­to pa­ra a fa­dis­ta por Ti­a­go Ma­cha­do pa­ra acom­pa­nhar um po­e­ma de Amália Ro­dri­gues, e que se tor­nou o seu pri­mei­ro sin­gle. Não foi ape­nas um êxi­to que a ca­ta­pul­tou pa­ra o su­ces­so: es­se fa­do tra­çou o seu.

Nas­ci­da em 1973, em Ma­pu­to, foi ao co­lo dos pais que che­gou a Por­tu­gal, com ape­nas três anos. A ter­ra na­tal não lhe dei­xou me­mó­ri­as. Ape­nas aos 18 anos vi­ria a des­co­brir as su­as ori­gens. Cri­a­da no bair­ro da Mou­ra­ria, Mariza co­me­çou por can­ta­ro­lar fa­dos no rés-do-chão do pré­dio on­de vi­via com os pais, co­mo uma brin­ca­dei­ra que nun­ca jul­gou vir a tor­nar-se ca­mi­nho pro­fis­si­o­nal (co­mo re­ve­la nu­ma en­tre­vis­ta à re­vis­ta Sá­ba­do, em Mar­ço de 2016). Mas ca­so a vi­da ti­ves­se to­ma­do ou­tro ru­mo que não o de uma in­tér­pre­te do Fa­do, Mariza po­de­ria ter-se tor­na­do mo­de­lo, pois aos 13 anos de­ci­diu ti­rar o cur­so na Es­co­la de Ma­ne­quins de Lis­boa. Em 2001, pu­bli­cou o ál­bum de es­treia, Fa­do em Mim, ao qual se se­gui­ram oi­to. Em 2018, lan­çou o seu oi­ta­vo, Mariza, on­de can­ta Ora­ção, um fa­do es­cri­to pe­la pró­pria, pe­la pri­mei­ra vez. Pas­sou por gran­des pal­cos mun­di­ais, co­mo o The Royal Al­bert Hall, em Lon­dres, ou o Car­ne­gie Hall, em No­va Ior­que. Mas nun­ca dei­xou de can­tar nos lo­cais on­de deu os pri­mei­ros pas­sos, co­mo o Se­nhor Vi­nho, a Tas­ca do Chi­co ou o Clu­be de Fa­do, em Lis­boa. Em 2005, re­ce­beu o Pré­mio de Me­lhor Ar­tis­ta da Fun­da­ção Amália Ro­dri­gues e foi elei­ta Em­bai­xa­do­ra da Boa Von­ta­de da UNICEF.

Nas­ceu em Lou­ren­ço Mar­ques. Gu­ar­da al­gu­mas me­mó­ri­as des­sa in­fân­cia, ain­da que só te­nha lá vi­vi­do até aos três anos?

As mi­nhas pri­mei­ras me­mó­ri­as são de Por­tu­gal, on­de vi­vi du­ran­te a mi­nha in­fân­cia e a ado­les­cên­cia. Des­de os 18 anos que eu vou a Mo­çam­bi­que e que sin­to es­se país co­mo [se fos­se a] mi­nha ca­sa, tal co­mo Por­tu­gal. Aliás, se me pe­dis­sem pa­ra es­co­lher, is­so tor­nar-se-ia mui­to di­fí­cil. Am­bos [os paí­ses] são im­por­tan­tes. Qu­an­do eu ti­nha 18 anos, o meu pai de­ci­diu que eu de­ve­ria re­gres­sar à ter­ra que me viu nas­cer pa­ra que de­ci­dis­se a na­ci­o­na­li­da­de que qu­e­ria ter. Es­co­lhi por­tu­gue­sa por­que tu­do me li­ga a Por­tu­gal, mas sin­to-me mui­to afri­ca­na. Pe­la edu­ca­ção e por tu­do o que se vi­ve em mi­nha ca­sa.

Cres­ceu em ple­na Mou­ra­ria… O res­tau­ran­te dos seus pais, o Za­la­la, foi um ber­ço dos pri­mei­ros fa­dos?

Sim, to­da a gen­te sa­be que tu­do co­me­çou por aí. Eu não te­nho re­cor­da­ções [do mo­men­to] em que co­me­cei a can­tar por­que pa­ra mim ti­nha ló­gi­ca can­tar. To­da a gen­te can­ta­va. Eu ou­via gen­te can­tar fa­do na rua… Ho­je em dia na Mou­ra­ria não é na­da as­sim…não tem na­da a ver com a Mou­ra­ria da mi­nha in­fân­cia.

O que mu­dou?

As pes­so­as que cres­ce­ram co­mi­go já lá não vi­vem. Fi­ca­ram as pes­so­as mais an­ti­gas que eram figuras in­con­tor­ná­veis. Eu con­ti­nuo a ir à Mou­ra­ria, on­de os meus pais ain­da têm a ca­sa, e à pro­cis­são de Nos­sa Se­nho­ra da Saú­de.

Fa­do em Mim, o seu pri­mei­ro ál­bum, edi­ta­do em 2001, mu­dou tu­do. Sen­te que as­cen­deu ra­pi­da­men­te a par­tir des­se mo­men­to? Eu sem­pre can­tei, mas não ti­nha a am­bi­ção de fa­zer dis­cos. O meu pri­mei­ro dis­co sur­giu por­que eu achei que era en­gra­ça­do ofe­re­cer ao meu pai um dis­co on­de can­ta­va fa­do. Eu sem­pre can­tei vá­ri­os gé­ne­ros… Hou­ve um pe­río­do em que dei­xei de can­tar fa­do. Es­ti­ve no Bra­sil e de­pois vol­tei. Es­se pri­mei­ro dis­co foi ou­vi­do pe­lo pre­si­den­te de uma edi­to­ra ho­lan­de­sa que fi­cou mui­to in­te­res­sa­do.

Es­ta­va des­ti­na­da ao Fa­do?

Eu acre­di­to no Des­ti­no e acho que já es­ta­va pro­gra­ma­do as­sim e que não iria acon­te­cer de ou­tra for­ma.

Em Fa­do Tra­di­ci­o­nal (em 2010) re­a­fir­mou, de cer­ta for­ma, o seu amor pe­lo Fa­do. Co­mo se sen­te a can­tar ou­tros re­gis­tos?

Eu não fa­ço dis­cos com o ob­jec­ti­vo de me con­si­de­ra­rem fa­dis­ta. Eu sin­to-me uma in­tér­pre­te e gos­to mui­to qu­an­do al­guém me cha­ma fa­dis­ta por­que é um gran­de elo­gio. Eu sin­to-me, na re­a­li­da­de, uma in­tér­pre­te. Na al­tu­ra em que eu lan­cei es­se dis­co era, jun­ta­men­te com o Car­los do Car­mo, em­bai­xa­do­ra da can­di­da­tu­ra do Fa­do a Pa­tri­mó­nio Ima­te­ri­al da Hu­ma­ni­da­de. Pa­ra mim, fa­zia imen­so sen­ti­do fa­zer um dis­co on­de o fa­do tra­di­ci­o­nal es­ta­va pre­sen­te co­mo for­ma de agra­de­ci­men­to a to­das as vo­zes que, in­cons­ci­en­te­men­te, me en­si­na­ram e fi­ze­ram com que eu che­gas­se até ali.

Foi es­se o ál­bum mais de­sa­fi­an­te da sua car­rei­ra? Acho que to­dos eles são de­sa­fi­an­tes. Eu im­po­nho-me me­tas e li­mi­tes. Sou mui­to exi­gen­te co­mi­go pró­pria, prin­ci­pal­men­te se fa­la­mos de mú­si­ca. Qu­an­do fa­ço os dis­cos é um ac­to egoís­ta por­que não os fa­ço a pen­sar se vão ser co­mer­ci­ais. Em to­dos os meus dis­cos eu pe­ço com­po­si­ções a pes­so­as que co­nhe­ço e fa­ço imen­sa pes­qui­sa poé­ti­ca. Uti­li­zo as pa­la­vras das ou­tras pes­so­as pa­ra mos­trar as mi­nhas emo­ções e is­so tem de ser ver­da­dei­ro.

Que mú­si­ca can­ta­da por si a emo­ci­o­na sem­pre?

To­das. Eu sei o mo­men­to exac­to em que es­co­lhi as mú­si­cas e o porquê de as ter es­co­lhi­do. Se exis­te um te­ma que não pos­so dei­xar de can­tar? Sim, o Ó Gen­te da Mi­nha Ter­ra. As pes­so­as fi­cam zan­ga­das se eu não o can­tar.

Que con­cer­to se tor­nou me­mo­rá­vel?

Pa­ra ser ho­nes­ta, o con­cer­to que mais me mar­cou na vi­da foi o que dei na Tor­re de Be­lém. Eu vi­nha de uma tour­née gi­gan­te… Nes­se ano pen­so que che­guei a dar 300 con­cer­tos e ti­nha aca­ba­do de fa­zer o meu dis­co Trans­pa­ren­te [em 2006]. Nes­se dia re­cor­do-me que cho­via mui­to e que eu ti­nha di­to que não qu­e­ria fa­zer o con­cer­to por­que acha­va que não iria nin­guém. À noi­te, qu­an­do su­bi ao pal­co, tí­nha­mos mais de 25 mil pes­so­as a as­sis­tir e foi mui­to emo­ci­o­nan­te. Qu­an­do can­tei o Ó Gen­te da Mi­nha Ter­ra foi ine­vi­tá­vel que eu cho­ras­se. “Afi­nal gos­tam de mim em ca­sa”, foi o que eu pen­sei.

Que pro­jec­tos se se­guem?

Es­tou mui­to vi­ra­da pa­ra o dis­co que aca­ba de sair e pa­ra as tour­nées que se apro­xi­mam por­que vou apre­sen­tar es­te dis­co nos mer­ca­dos in­ter­na­ci­o­nais. Em Mar­ço [de 2019] vol­to a can­tá-lo em Por­tu­gal. On­de re­gres­so sem­pre.

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