UMA INVESTIGADORA INCANSÁVEL

Máxima - - Feminae -

Cientista, investigadora e pro­fes­so­ra ca­te­drá­ti­ca, ELVIRA FORTUNATO é es­pe­ci­a­lis­ta pi­o­nei­ra na elec­tró­ni­ca de pa­pel a ní­vel mun­di­al. Com uma voz prag­má­ti­ca e um dis­cur­so cla­ro, le­mos-lhe no ros­to a res­pon­sa­bi­li­da­de dos mi­lhões que an­ga­ria pa­ra a Ci­ên­cia. Le­mos-lhe, tam­bém, o imen­so or­gu­lho e a fe­li­ci­da­de que tem no seu tra­ba­lho.

Na­tu­ral de Al­ma­da e li­cen­ci­a­da em En­ge­nha­ria Fí­si­ca e dos Ma­te­ri­ais, em 1987, Elvira Fortunato é uma das ci­en­tis­tas por­tu­gue­sas mais pre­mi­a­das. Nas­ci­da em 1964, Elvira é ac­tu­al­men­te vi­ce-rei­to­ra da Uni­ver­si­da­de No­va de Lis­boa, on­de tam­bém lec­ci­o­na. À fren­te do Cen­tro de In­ves­ti­ga­ção de Ma­te­ri­ais per­ten­cen­te ao La­bo­ra­tó­rio As­so­ci­a­do i3n, ga­nhou a bol­sa do Con­se­lho Eu­ro­peu de In­ves­ti­ga­ção (com o va­lor má­xi­mo de 3,5 mi­lhões de eu­ros) atri­buí­da pe­la pri­mei­ra vez em Por­tu­gal, em Abril des­te ano. Tra­ta-se de um pro­jec­to re­la­ci­o­na­do com a uti­li­za­ção de ma­te­ri­ais e de tec­no­lo­gi­as sus­ten­tá­veis, um dos te­mas mais dis­cu­ti­dos no mun­do, na ac­tu­a­li­da­de, da­da a ur­gên­cia da pro­ble­má­ti­ca am­bi­en­tal. Na li­nha da fren­te da re­vo­lu­ção elec­tró­ni­ca do pa­pel, Elvira Fortunato cri­ou com o ma­ri­do, o cientista Ro­dri­go Mar­tins, o pri­mei­ro tran­sís­tor de pa­pel. Em 2010 foi dis­tin­gui­da com o Gran­de Co­lar da Or­dem do In­fan­te D. Hen­ri­que pe­lo Pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca de­vi­do às su­as con­quis­tas ci­en­tí­fi­cas. En­tre os vá­ri­os pré­mi­os que já re­ce­beu des­ta­ca-se a Me­da­lha Blai­se Pas­cal pa­ra a Ci­ên­cia dos Ma­te­ri­ais, atri­buí­da pe­la Aca­de­mia Eu­ro­peia de Ci­ên­ci­as em 2016.

O que a le­vou a es­tu­dar En­ge­nha­ria dos Ma­te­ri­ais, al­go pou­co co­mum en­tre as mu­lhe­res?

Eu sem­pre quis ser en­ge­nhei­ra, mas exis­ti­ram vá­ri­as coin­ci­dên­ci­as. [O cur­so de] En­ge­nha­ria de Ma­te­ri­ais era uma en­ge­nha­ria no­va qu­an­do eu en­trei pa­ra a Uni­ver­si­da­de. Era um cur­so que ti­nha ape­nas um ou dois anos e sim­bo­li­za­va o fu­tu­ro. Se pen­sar­mos bem, os ma­te­ri­ais são a ba­se de tu­do, ho­je em dia.

O cur­so foi aqui­lo que es­pe­ra­va?

Sur­pre­en­deu-me pe­la po­si­ti­va. Por is­so, ain­da lá es­tou. Há mui­tos ti­pos de ma­te­ri­ais… Es­tu­da-se des­de os ma­te­ri­ais po­li­mé­ri­cos aos plás­ti­cos, me­tá­li­cos, ce­râ­mi­cos… Fi­ca-se com uma abran­gên­cia gran­de de to­dos os ti­pos de ma­te­ri­ais. Con­tu­do, a mi­nha área de es­pe­ci­a­li­za­ção foi mais na par­te da Mi­cro­e­lec­tró­ni­ca e dos ma­te­ri­ais se­mi­con­du­to­res apli­ca­dos a es­sa área.

O que a ca­ti­vou na elec­tró­ni­ca de pa­pel em que se tor­nou uma es­pe­ci­a­lis­ta pi­o­nei­ra a ní­vel mun­di­al?

A ba­se do la­bo­ra­tó­rio [on­de in­ves­ti­go] é a apli­ca­ção de ma­te­ri­ais. Tra­ba­lhá­va­mos mui­to em elec­tró­ni­ca fle­xí­vel, de bai­xo cus­to. Ora, o pa­pel é um ma­te­ri­al fle­xí­vel e que po­de­mos adap­tar. Ten­do nós tec­no­lo­gi­as ami­gas do Am­bi­en­te e fa­zen­do es­tes ma­te­ri­ais à tem­pe­ra­tu­ra, o pro­ces­so era com­pa­tí­vel com a uti­li­za­ção de pa­pel. Por­que não uti­li­zá-lo co­mo um ma­te­ri­al de elec­tró­ni­ca? Fi­ze­mos o pri­mei­ro tran­sís­tor de pa­pel. Te­mos ti­do imen­sos pro­jec­tos, vi­si­bi­li­da­de e o nú­me­ro de apli­ca­ções é mui­to gran­de, no­me­a­da­men­te nas em­ba­la­gens in­te­li­gen­tes.

Qual é o mai­or de­sa­fio de se ser investigadora, em Por­tu­gal?

Sem dú­vi­da, nun­ca de­sis­tir! E tra­ba­lhar mui­to. Pe­lo me­nos é o meu [de­sa­fio]. In­ves­ti­ga e tam­bém lec­ci­o­na na Fa­cul­da­de de Ci­ên­ci­as e Tec­no­lo­gia

da Uni­ver­si­da­de No­va de Lis­boa. Co­mo sur­giu a pai­xão por en­si­nar e pas­sar o seu le­ga­do?

A fun­ção de um pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio é trans­mi­tir o co­nhe­ci­men­to, aci­ma de tu­do aque­le que é emer­gen­te, que es­tá nes­te mo­men­to a ser fei­to em ter­mos in­ter­na­ci­o­nais. Is­so é ex­tre­ma­men­te im­por­tan­te e, por is­so, dá-me imen­so pra­zer dar au­las, trans­mi­tir es­ses co­nhe­ci­men­tos aos meus alu­nos e ten­tar ca­ti­vá-los pa­ra a área da in­ves­ti­ga­ção.

Co­mo são os alu­nos de ho­je?

Mui­to in­for­ma­dos. Po­dem, al­guns de­les, não vir tão bem pre­pa­ra­dos, cla­ro... Um pro­fes­sor tem de che­gar a to­dos eles e de sa­ber en­si­nar os que es­tão pre­pa­ra­dos e os que não es­tão. E, aci­ma de tu­do, mo­ti­vá-los. Ho­je de­ve­mos ti­rar par­ti­do das no­vas tec­no­lo­gi­as e uti­li­zá-las ca­da vez mais no en­si­no por­que não são os alu­nos que vão dei­xar de usar te­le­mó­veis ou ipads… São os pro­fes­so­res que vão ter de se adap­tar e uti­li­zar ou­tras me­to­do­lo­gi­as de en­si­no.

Qual é a mai­or mo­ti­va­ção que se po­de dar aos jo­vens in­ves­ti­ga­do­res, se­ja na área da Saú­de, da Ci­ên­cia ou em qual­quer ou­tra área?

Nun­ca de­sis­ti­rem e se­gui­rem sem­pre os seus so­nhos. E, aci­ma de tu­do, fa­ze­rem sem­pre o que gos­tam. Qu­an­do fa­ze­mos uma coi­sa de que gos­ta­mos é sem­pre mais po­si­ti­vo do que qu­an­do se faz al­go fo­ra da nos­sa vo­ca­ção.

No ano pas­sa­do tor­nou-se vi­ce-rei­to­ra da Uni­ver­si­da­de No­va. Co­mo abra­çou es­ta mis­são?

A mi­nha área na Rei­to­ria é na área da In­ves­ti­ga­ção. Ge­o­gra­fi­ca­men­te, a Uni­ver­si­da­de No­va es­tá em vá­ri­as zo­nas e eu pró­pria des­co­nhe­cia um pou­co a mi­nha uni­ver­si­da­de. Es­tan­do na Rei­to­ria, es­tou a co­nhe­cer mui­to me­lhor a mi­nha “ca­sa” e a ten­tar com que, den­tro da in­ves­ti­ga­ção, áre­as que não se co­nhe­cem se pas­sem a co­nhe­cer. Ho­je, ca­da vez mais a ino­va­ção sur­ge do cru­za­men­to de áre­as di­fe­ren­tes. É im­por­tan­te cru­zar-se a área da Eco­no­mia com a da Saú­de, com a das En­ge­nha­ri­as. Pe­la pri­mei­ra vez, re­a­li­zá­mos o Dia da Ci­ên­cia na No­va [no dia 10 de Se­tem­bro des­te ano], con­vo­can­do to­dos os cen­tros de in­ves­ti­ga­ção pa­ra que os in­ves­ti­ga­do­res fa­las­sem da­qui­lo que fa­zem.

Há ain­da um de­se­qui­lí­brio no re­co­nhe­ci­men­to do pres­tí­gio das mu­lhe­res na in­ves­ti­ga­ção?

Em Por­tu­gal, há mui­tas mu­lhe­res a in­ves­ti­gar. Con­tu­do, aqui­lo que se ve­ri­fi­ca é que as mu­lhe­res, mui­to em­bo­ra exis­tam em mai­or nú­me­ro, não che­gam a po­si­ções de che­fia. A Uni­ver­si­da­de No­va foi con­vi­da­da pa­ra in­te­grar um pro­jec­to eu­ro­peu so­bre igual­da­de de gé­ne­ro. Apre­sen­tá­mos so­lu­ções pa­ra que, pe­lo me­nos nas uni­ver­si­da­des, a igual­da­de de gé­ne­ro se­ja uma re­a­li­da­de. Foi um dos pro­jec­tos que le­vei a ca­bo co­mo vi­ce-rei­to­ra.

Na área da in­ves­ti­ga­ção, qu­ais fo­ram os pro­gres­sos mais de­ci­si­vos dos úl­ti­mos 30 anos?

A In­ter­net, sem qual­quer dú­vi­da. À dis­tân­cia de um cli­que po­de­mos es­tar a par do Co­nhe­ci­men­to, até em re­giões me­nos de­sen­vol­vi­das. Há uma mai­or de­mo­cra­cia da Ci­ên­cia com a uti­li­za­ção da In­ter­net. A in­for­ma­ção é mui­to im­por­tan­te.

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