UM OLHAR SO­BRE VICTORIA

Máxima - - Feminae -

Tal co­mo mui­tas das per­so­na­gens que in­ter­pre­ta, VICTORIA GUERRA é di­fí­cil de de­ci­frar. Nes­ta ac­triz que pa­ra nós re­pre­sen­ta o fu­tu­ro na sua pro­fis­são, res­sal­tam uma be­le­za re­fi­na­da, os olhos cla­ros e o sor­ri­so ocul­to. É o seu la­do tí­mi­do que nos cau­sa es­tra­nhe­za, num pri­mei­ro mo­men­to, por a sa­ber­mos uma ac­triz “fe­roz” de tão ca­ma­leó­ni­ca que é. Do­ta­da de uma sua sub­til de­li­ca­de­za, evi­den­te no dis­cur­so e nos ges­tos, lon­ge das câ­ma­ras Victoria é, afi­nal, uma mu­lher re­ser­va­da.

Per­ce­be­mos, des­de lo­go, que se a fa­ma e a ex­po­si­ção dei­xam Victoria Guerra des­con­cer­ta­da, as câ­ma­ras fa­zem-na sen­tir co­mo “um pei­xe na água”, tan­to no pe­que­no co­mo no gran­de ecrã. Nas­ci­da em Fa­ro, em 1989, fi­lha de pai por­tu­guês e de mãe in­gle­sa, e a mais ve­lha de qua­tro ir­mãos, Victoria é ho­je uma das ac­tri­zes mais re­pu­ta­das da sua ge­ra­ção. Vi­veu até à sua ado­les­cên­cia em Lou­lé mas, aos 15 anos, mu­dou-se pa­ra Lis­boa, es­sa que diz ser a sua ca­sa, alo­jan­do-se num dor­mi­tó­rio ge­ri­do por frei­ras. Ho­je, com 29 anos, Victoria tem no cur­rí­cu­lo de­sem­pe­nhos exem­pla­res em te­le­no­ve­las co­mo Mar de Pai­xão (2010-2011), Sol de In­ver­no (2013-2014) ou Amor Mai­or (2016-2017). Mas foi em 2012, no fil­me de Va­le­ria Sar­mi­en­to, Li­nhas de Wel­ling­ton, que John Mal­ko­vi­ch (tam­bém no elen­co) a des­co­briu e não mais a per­deu de vis­ta. Se­guiu-se o pa­pel de Sophie em Va­ri­a­ções de Ca­sa­no­va (2014) e de Saf­fron em The Wil­de Wed­ding (2017), uma co­mé­dia ame­ri­ca­na, on­de além de John Mal­ko­vi­ch, Victoria con­tra­ce­na com Glenn Clo­se, Pa­trick Stewart e Min­nie Dri­ver. Pe­lo meio, bri­lhou no pa­pel de Le­na, em Cos­mos (2015), do po­la­co An­dr­zej Zu­laws­ki, e foi di­ri­gi­da pe­lo fran­cês Be­noît Jac­quot em Até Nun­ca (2016). De ma­las fei­tas pa­ra o Bra­sil, não nos re­ve­la que pro­jec­to se se­gue, mas sa­be­mos que, em 2019, es­trei­am três fil­mes: Va­ri­a­ções, de João Maia; A Her­da­de, de Ti­a­go Gu­e­des; e Pe­dro, da re­a­li­za­do­ra bra­si­lei­ra Laís Bo­danzky. Já ar­re­ca­dou dois Glo­bos de Ou­ro: o pri­mei­ro co­mo Re­ve­la­ção do Ano de 2013 e o se­gun­do co­mo Me­lhor Ac­triz, em 2016, pe­la pres­ta­ção no fil­me de An­tó­nio-pe­dro Vas­con­ce­los, Amor Im­pos­sí­vel, que tam­bém lhe va­leu o Pré­mio Sophia de Me­lhor Ac­triz.

De on­de nas­ce a am­bi­ção da re­pre­sen­ta­ção?

Eu não te­nho re­fe­rên­ci­as ar­tís­ti­cas na fa­mí­lia, sen­do que cres­ci a ir mui­to ao ci­ne­ma. Lem­bro-me de ir ao ci­ne­ma em Lou­lé, qu­an­do a sa­la abria, e em Vi­la­mou­ra. Ia ver dois a três fil­mes por fim-de-se­ma­na com a mi­nha mãe. Tam­bém me re­cor­do do fe­nó­me­no Block­bus­ter, ou se­ja, ir qua­se to­dos os sá­ba­dos alu­gar cas­se­tes pa­ra a fa­mí­lia ver no fim-de-se­ma­na. Tam­bém me re­cor­do da pri­mei­ra vez que abriu um ci­ne­ma com vá­ri­as sa­las [no Al­gar­ve].

Qual foi a por­ta de en­tra­da pa­ra a pro­fis­são?

Não vou men­tir, foi mes­mo com a sé­rie Mo­ran­gos com Açú­car. Eu ia es­tu­dar Jor­na­lis­mo e qu­e­ria ser jor­na­lis­ta de ar­te, de mo­da ou de mú­si­ca. Qu­an­do fiz a sé­rie di­ver­ti-me mui­tís­si­mo e sen­ti uma li­ber­da­de que eu nun­ca an­tes ti­nha sen­ti­do.

Qu­em fo­ram e qu­em são as su­as re­fe­rên­ci­as na re­pre­sen­ta­ção?

A mi­nha agen­te, a Car­la [Qu­e­lhas], es­tu­dou Ci­ne­ma e sem­pre me aju­dou mui­to. De­pois, os ac­to­res com qu­em fui tra­ba­lhan­do, des­de a Ma­ri­na Mo­ta ao Jú­lio Cé­sar, à Ri­ta Blan­co, ao João Per­ry ou ao Fi­li­pe Var­gas. Eu sou mui­to aten­ta e eles são pes­so­as mui­to ge­ne­ro­sas. De­pois, ob­vi­a­men­te, re­a­li­za­do­res, di­rec­to­res de ac­to­res nas no­ve­las…

Fa­lan­do no re­gis­to ci­ne­ma­to­grá­fi­co. O que é que o Ci­ne­ma tem de mais ca­ti­van­te?

No Ci­ne­ma tu­do é im­por­tan­te. É tem­po e es­pa­ço, no sen­ti­do em que de­ve exis­tir uma gran­de pre­pa­ra­ção na for­ma co­mo se tra­ba­lha. To­das as ce­nas têm a sua im­por­tân­cia e não di­go que nas no­ve­las tam­bém não te­nham, mas nu­ma no­ve­la re­tra­ta-se mais o dia-a-dia. Não con­si­go di­zer se gos­to mais de um re­gis­to que ou­tro, mas o Ci­ne­ma per­mi­te, por exem­plo, um sub­tex­to.

Em Apa­ri­ção, de Fer­nan­do Ven­drell, é So­fia, a pro­ta­go­nis­ta da adap­ta­ção da obra li­te­rá­ria de Ver­gí­lio Fer­rei­ra. Co­mo pre­pa­ra uma per­so­na­gem? De­pen­de do pro­jec­to e da per­so­na­gem. No ca­so do fil­me Apa­ri­ção, por ser uma adap­ta­ção e a Li­te­ra­tu­ra per­mi­tir coi­sas que o Ci­ne­ma não per­mi­te, ter a obra li­te­rá­ria foi sem dú­vi­da uma gran­de aju­da e a fer­ra­men­ta per­fei­ta pa­ra me pre­pa­rar.

Qual foi a per­so­na­gem mais de­sa­fi­an­te, até ho­je?

To­das são de­sa­fi­an­tes à sua ma­nei­ra. É di­fí­cil es­co­lher, mas di­ria a Diana na [no­ve­la] Amor Mai­or, por so­frer de uma per­tur­ba­ção men­tal.

E a que dei­xa sau­da­des?

Ne­nhu­ma dei­xa sau­da­des. As per­so­na­gens fa­zem par­te de nós du­ran­te aque­le tem­po e vi­ve­mos com elas. São as nos­sas me­lho­res ami­gas – o nos­so se­gun­do eu – du­ran­te aque­le pe­río­do de tem­po. Cres­ce­mos com elas, apren­de­mos com elas. De­pois es­ta­mos pron­tas pa­ra a pró­xi­ma. Nós tra­ba­lha­mos ener­gi­as e se de­ter­mi­na­da per­so­na­gem pe­de uma cer­ta “ener­gia”, se ca­lhar du­ran­te es­se pe­río­do eu vou per­ma­ne­cer com es­sa tal ener­gia. Por ve­zes, fi­ca­mos com sau­da­des da equi­pa, mas aca­ba por, no fi­nal, ser uma ca­tar­se.

Que ac­triz a ins­pi­ra?

Ago­ra es­tou apai­xo­na­da pe­la Amy Adams e pe­lo tra­ba­lho in­crí­vel que fez na sé­rie Sharp Ob­jects [2018].

Foi in­cluí­da nas 10 Eu­ro­pe­an Sho­o­ting Stars, uma se­lec­ção de ta­len­tos pro­mis­so­res apre­sen­ta­da na Ber­li­na­le (o Fes­ti­val In­ter­na­ci­o­nal de Ci­ne­ma de Ber­lim). Co­mo re­ce­beu es­sa no­tí­cia?

Foi o ICA [Ins­ti­tu­to do Ci­ne­ma e do Au­di­o­vi­su­al] que me propôs e qu­an­do re­ce­bi o pré­mio fi­quei mui­to fe­liz. Pri­mei­ro, por­que não é um pré­mio que dis­tin­gue [ape­nas] um tra­ba­lho. É um re­co­nhe­ci­men­to do per­cur­so e do tra­ba­lho de vá­ri­os jo­vens na Eu­ro­pa in­tei­ra e is­so é mui­to im­por­tan­te.

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