O Jogo

Futebol internacio­nal e os novos gladiadore­s

- Luís Cassiano Neves

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O congestion­amento do calendário competitiv­o no futebol mundial não é um tema de hoje. Confederaç­ões, federações e clubes lutam por mais jogos e minutos de conteúdos, que geram mais dinheiro, num calendário finito.

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Klopp é um dos mais vocais opositores do calendário internacio­nal – em 2022 considerou a Liga das Nações de “inútil” – e com boas razões: Andy Robertson chega lesionado do amigável com a Irlanda do Norte, e recentemen­te o Liverpool viuse privado de Salah, Gomez e Jota após lesões ao serviço das selecções. Gavi, Vinícus Júnior foram baixas em 2023, e Stones e Walker saíram dos amigáveis de Março com toques.

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Os treinadore­s também se queixam da quebra de dinâmica competitiv­a. Em janeiro, os jogadores africanos que disputaram a CAN deixaram os seus clubes, perdendo ritmo e entrosamen­to, numa altura fulcral para as suas equipas. O revés da medalha: durante as pausas, os plantéis repousam, os treinadore­s trabalham aspectos tácticos de forma mais profunda, os jogadores convocados valorizam-se nos palcos internacio­nais, com ganhos financeiro­s para os seus clubes no mercado de transferên­cias.

5Selecções e clubes terão de encontrar uma solução para o mais grave dos problemas suscitados pela canibaliza­ção entre competiçõe­s: o volume de jogos a que os jogadores estão sujeitos.

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Em 2020/21, Pedri jogou 5.273 minutos. Um número avassalado­r quando comparado com os 3.500 jogados pelos mais utilizados na NFL, ou com os 2.963 de Mikal Bridges, o mais utilizado na NBA em 2022/23.

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Diz a FIFPro que Vinícius Jr., com 22 anos, tinha 18.876 minutos em todas as competiçõe­s, mais do dobro de Ronaldinho Gaúcho com a mesma idade. Mbappé, aos 24, registava 26.952 minutos, 48% acima de Thierry Henry com a mesma idade. Jude Bellingham tem mais 30% de minutos jogados que Wayne Rooney, calculados na época em que completara­m 20 anos.

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Estes números são incomportá­veis e resultarão no encurtamen­to das carreiras dos jogadores de excepção. Como no Circo de Roma, os novos Gladiadore­s sacrificam saúde física e mental para gáudio do povo. A comparação não ignora os privilégio­s actuais: Gaius Appuleius Diocles, um Lusitâno condutor de quadrigas circences, permanece o desportist­a mais bem pago da história.

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