O Jogo

Notícias frescas dos bárbaros

- Álvaro Magalhães O autor optou por escrever na ortografia antiga

Onovo equipament­o principal da selecção inglesa tem sido muito contestado por ter a cor da cruz de São Jorge, um símbolo nacional, em tons de azul e roxo, em vez do tradiciona­l vermelho e branco. Ergueuse um coro de protestos que inclui ex-jogadores, como Seaman, Shilton e Souness, muitos adeptos (há uma petição pública que já vai em mais de 20.000 assinatura­s), até o primeiro-ministro, Rishi Sunak, que disse: «Não deveriam brincar com bandeiras, porque são uma questão de orgulho, de identidade, e são perfeitas como são». E é assim mesmo: as coisas sagradas caracteriz­am-se justamente pela sua imutabilid­ade, não lhes podemos tocar. No entanto, a Nike já fez saber que não vai corrigir nada. Os seus designers é que decidem de que cor são as cruzes sagradas e os equipament­os e símbolos de selecções e clubes. Dizemos e escrevemos «os encarnados» ou «os azuis e brancos», mas olhamos para o televisor e os encarnados e os azuis e brancos estão a usar camisolas amarelas, roxas, verdes. Algumas, matizadas, de autor, nem se sabe de que cor são. O que se sabe é que essas camisolas não representa­m, nem significam, só servem para serem bonitas (e nem isso são, na maioria dos casos) e serem vendidas por um preço exorbitant­e (a inglesa da polémica custa 150 euros). Graças a esta

barbárie, os adeptos já não sabem de que cor são as camisolas do seu clube. Na verdade, têm as cores que os designers da Nike, da Puma, da New Balance e da Adidas quiserem. Como se já não bastasse estarem conspurcad­as pela publicidad­e e serem autênticos cartazes ambulantes. É isto: primeiro perdemos o amor à camisola, que já só se encontra nas histórias românticas do

passado, agora perdemos a camisola. Já não temos mais nada a perder.

Este surto de avidez comercial com aparência de modernidad­e leva mesmo alguns clubes a caírem no pecado da actualizaç­ão dos seus emblemas, como foi o caso da Juventus, que tem agora um mais estilizado, só com duas letras, de uma absoluta nudez simbólica. Não é um emblema, mas o logótipo de uma marca qualquer. Ou seja, o clube deixou de ter um verdadeiro emblema. E para quê tudo isso se mesmo os emblemas mais feios, como o do FC Porto, por exemplo, que foi desenhado por um jogador, Simplício, em 1922, foram embelezado­s pela afeição de sucessivas gerações de adeptos, tornaram-se «perfeitos como são», para usar a expressão do primeiro-ministro inglês? E agora, uma reflexão final: esta contestaçã­o em massa

dos ingleses significa que está a nascer uma revolta, uma corrente defensora dos símbolos sagrados dos clubes e selecções? Não. Já não há retrocesso possível. Os responsáve­is da Nike, aliás, foram explícitos: quem não gostar da cruz azul e roxa ou da nova camisola do seu clube que olhe para outro lado. Os novos bárbaros do negócio e do dinheiro são os donos disto tudo, fazem o que lhes apetece. Como disse Souness, «a seguir vão trocar os três leões da bandeira inglesa por três gatos». O futebol dos nossos dias, que decorre no interior de um infernal presídio mercantil, tem todas as cores e tons da avidez e da ganância.

O futebol dos nossos dias, que decorre no interior de um infernal presídio mercantil, tem todas as cores e tons de avidez e da ganância

Aos domingos - Este espaço é ocupado, alternadam­ente, por Carlos Tê e Álvaro Magalhães

 ?? ?? Camisola de Inglaterra motiva acesa polémica e coloca valores históricos em causa
Camisola de Inglaterra motiva acesa polémica e coloca valores históricos em causa
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Visto do Sofá

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