Os vi­nhos do Pi­co e o pe­ri­go do gli­fu­sa­to

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Ter­cei­ra se­ma­na de Ju­nho, ilha do Pi­co, pou­cas nu­vens no céu, mui­to ca­lor e hu­mi­da­de al­ta. Vis­tas des­de o avião, as vinhas pa­re­cem hi­e­ró­gli­fos. Nun­ca ti­nha re­pa­ra­do. As vá­ri­as for­mas das cur­ra­le­tas (os mu­ros de pe­dra que pro­te­gem as vi­dei­ras), umas mais rec­ti­lí­ne­as, ou­tras mais cur­vas, umas mais al­tas, ou­tras mais pe­que­nas, umas vi­ra­das a nascente, ou­tras a po­en­te, ga­nham a na­tu­re­za de símbolos ou fi­gu­ras. É uma “es­cri­ta” fei­ta na la­va, de uma ex­ten­são co­los­sal, e cu­jo sig­ni­fi­ca­do só se de­ci­fra em ter­ra, quan­do se per­cor­re aque­le la­bi­rin­to de cur­ra­le­tas e se vêem meia dú­zia de vi­dei­ras ou me­nos a re­ver­de­cer no in­te­ri­or de ca­da qua­drí­cu­la de pe­dra ne­gra.

São de­ma­si­a­dos mu­ros pa­ra tão pou­cas vi­dei­ras. É de­ma­si­a­do tra­ba­lho pa­ra uma colheita tão in­cer­ta. In­sis­tir em fa­zer vi­nho nos la­ji­dos do Pi­co, por mais apoi­os que ha­ja, tem al­go de tei­mo­sia, he­roís­mo e aven­tu­ra. No ano pas­sa­do, a pro­du­ção foi tão bai­xa que as uvas ven­de­ram­se a mais de qua­tro eu­ros o qui­lo. Nem em Co­la­res va­lem tan­to. Em lu­ga­res as­sim, os vi­nhos têm que ser ca­ros. Em lu­ga­res as­sim, tão ex­tre­mos, tam­bém não de­via ha­ver vi­nhos ba­nais, a cheirar e a sa­ber ao mes­mo de ou­tros bran­cos de mai­or vo­lu­me pro­du­zi­dos no con­ti­nen­te — e há al­guns, in­fe­liz­men­te. Quem os faz não me­re­ce aque­las vinhas, mes­mo que as te­nha com­pra­do.

No Pi­co, ca­da li­tro de vi­nho im­pli­ca um en­fren­ta­men­to com a du­re­za da pe­dra, a in­cons­tân­cia do cli­ma e a fúria do mar. Só por is­so, mes­mo a vi­nha mais mo­des­ta de­via ser en­ca­ra­da co­mo um lu­gar re­li­gi­o­so, que não po­de ser pro­fa­na­do, em res­pei­to por to­dos os que aju­da­ram a er­guer aque­la ex­tra­or­di­ná­ria pai­sa­gem. Há mui­tos pi­ca­ro­tos que tra­tam as su­as vinhas co­mo se fos­sem tem­plos. Conheço al­guns. Mes­mo ten­do ou­tros afa­ze­res, não pas­sam um dia sem ir uma ou du­as ve­zes à vi­nha. Diz o po­vo que “a vi­nha pre­ci­sa de ver o do­no”. No Pi­co, o do­no pre­ci­sa mes­mo de ver a vi­nha, sob pe­na de a per­der em pou­co tem­po. As chu­vas e a hu­mi­da­de obri­gam a cons­tan­tes tra­ta­men­tos con­tra o míl­dio e o oí­dio e a re­sis­tên­cia das er­vas da­ni­nhas, das fai­as e dos in­cen­sos é um cal­vá­rio. Es­tão sem­pre a des­pon­tar e a dis­pu­tar a pou­ca ter­ra fér­til com as vi­dei­ras. O re­sul­ta­do é uma tra­gé­dia.

Cus­ta-me ter que es­cre­ver o que vou es­cre­ver. Na ge­o­gra­fia por­tu­gue­sa, há três lu­ga­res es­pe­ci­ais pa­ra mim: o Douro, Trás-os-Mon­tes e o Pi­co. Co­mo po­de­mos fa­lar dos lu­ga­res de que mais gos­ta­mos e on­de so­mos fe­li­zes, mes­mo re­gres­san­do lá uma e ou­tra vez? Gos­ta­va de só ter pa­la­vras bo­as pa­ra fa­lar de­les, mas não é pos­sí­vel fe­char os olhos à for­ma qua­se do­en­tia co­mo no Pi­co — não é só no Pi­co, in­fe­liz­men­te — se usam her­bi­ci­das, tan­to nos es­pa­ços pú­bli­cos co­mo nas vinhas. Os pi­ca­ro­tos pa­re­cem vi­ci­a­dos em her­bi­ci­das. Es­ta­mos sem­pre a tro­pe­çar em al­guém com um pul­ve­ri­za­dor às cos­tas a bor­ri­far er­vas.

Não de­ve ha­ver vinhas mais quí­mi­cas co­mo as do Pi­co. Uma boa par­te das no­vas vinhas da ilha fo­ram plan­ta­das em cur­ra­le­tas que ha­vi­am si­do aban­do­na­das e que, em pou­cos anos, vi­ra­ram au­tên­ti­cas flo­res­tas de fai­as e in­cen­sos. Ex­tir­par ca­da qua­drí­cu­la de pe­dra des­tas ár­vo­res, mui­tas de gran­de por­te, é uma ta­re­fa du­ra e ca­ra. As ár­vo­res são cor­ta­das pe­lo fun­do, mas as raí­zes per­ma­ne­cem lá, pe­lo que é ne­ces­sá­rio quei­má­las com do­ses for­tes de her­bi­ci­das. Mes­mo as­sim, com o tem­po, a mai­o­ria aca­ba por re­ben­tar. De mo­do que os vi­ti­cul­to­res pas­sam a vi­da a eli­mi­nar es­ses re­ben­tos e to­das as er­vas que vão nas­cen­do. Ao mes­mo tem­po, pa­ra sal­va­rem a pro­du­ção, vão fa­zen­do

São de­ma­si­a­dos mu­ros pa­ra tão pou­cas vi­dei­ras. É de­ma­si­a­do tra­ba­lho pa­ra uma colheita tão in­cer­ta. Fa­zer vi­nho no Pi­co tem al­go de tei­mo­sia

tra­ta­men­tos fún­gi­cos qua­se to­das as se­ma­nas.

Pa­ra te­rem as su­as vi­nhas­tem­plos co­mo jar­dins e ga­ran­ti­rem o vin­ga­men­to das uvas, os vi­ti­cul­to­res do Pi­co gas­tam for­tu­nas em quí­mi­cos que vão con­ta­mi­nan­do os so­los e as li­nhas de água. Mas co­mo po­de­mos cri­ti­cá-los? O cli­ma não per­mi­te ser ne­gli­gen­te no com­ba­te às do­en­ças da vi­nha e lim­par as vinhas à mão é uma em­prei­ta­da pe­sa­da e dis­pen­di­o­sa.

En­tão não há al­ter­na­ti­va? Há sem­pre al­ter­na­ti­va. Só de­pen­de do que se quer gas­tar e dos ris­cos que se es­tá dis­pos­to a cor­rer. Com al­gu­mas prá­ti­cas mais or­gâ­ni­cas, con­se­gue-se re­du­zir o uso de fun­gi­ci­das; e, com­bi­nan­do o uso de mão-de-obra com a apli­ca­ção de al­guns co­ber­tos, ti­po palha, se­ria pos­sí­vel re­du­zir ou mes­mo eli­mi­nar os her­bi­ci­das.

Mas, pa­ra is­so, é ne­ces­sá­rio mu­dar pri­mei­ro as men­tes dos res­pon­sá­veis re­gi­o­nais. Até ago­ra, a es­tra­té­gia tem pri­vi­le­gi­a­do a atri­bui­ção de ge­ne­ro­sos (mas jus­ti­fi­ca­dos) sub­sí­di­os pa­ra a plan­ta­ção de no­vas vinhas e a sua ma­nu­ten­ção.

A área de vi­nha qua­se du­pli­cou e den­tro de dois anos é ex­pec­tá­vel que a pro­du­ção de uvas sa­tis­fa­ça as ne­ces­si­da­des de vi­nho ac­tu­ais. No en­tan­to, tal­vez es­te­ja na ho­ra de co­me­çar a in­de­xar os apoi­os, me­lho­ran­do-os se for ca­so dis­so, a prá­ti­cas ca­da vez mais ami­gas do am­bi­en­te. Que adi­an­ta ter vinhas de uma be­le­za ex­tra­or­di­ná­ria e fa­zer vi­nhos sin­gu­la­res se o pre­ço a pa­gar é o re­cur­so mas­si­vo a pro­du­tos quí­mi­cos? Ha­ve­rá sem­pre quem be­ba sem se pre­o­cu­par em sa­ber o per­cur­so do vi­nho até che­gar ao co­po, mas quem se dis­põe a pa­gar um pre­ço al­to por uma gar­ra­fa de vi­nho — e os vi­nhos do Pi­co são obri­ga­to­ri­a­men­te ca­ros — quer sa­ber um pou­co mais so­bre o que vai be­ber. Es­se con­su­mi­dor não es­tá ape­nas a com­prar vi­nho, es­tá tam­bém a com­prar uma ex­pe­ri­ên­cia, um bem cul­tu­ral, um tes­te­mu­nho de uma pai­sa­gem e de um po­vo. Re­gar tu­do is­to com gli­fu­sa­to não é uma boa ideia.

MI­GUEL MANSO

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