A co­zi­nha ver­da­dei­ra­men­te ge­ni­al da Noé­lia é to­dos os di­as aper­fei­ço­a­da por ela

Publico - Fugas - - O GATO DAS BOTAS - Mi­guel Es­te­ves Car­do­so

Num tem­po de me­nos in­jus­ti­ça pa­ra as mu­lhe­res, con­ti­nua a ser gri­tan­te a quan­ti­da­de de chefs que são ho­mens: são qua­se to­dos.

É in­tei­ra­men­te ar­ti­fi­ci­al, es­se do­mí­nio. Per­gun­te-se a es­ses chefs se são os ho­mens ou as mu­lhe­res que co­zi­nham me­lhor e to­dos eles, se fo­rem ho­nes­tos, res­pon­de­rão que são as mu­lhe­res. Ou que não in­te­res­sa se são ho­mens ou mu­lhe­res.

De qual­quer ma­nei­ra, quan­tos des­ses chefs, se­jam por­tu­gue­ses ou de ou­tra na­ci­o­na­li­da­de, se di­zem ins­pi­ra­dos pe­la co­zi­nha do avô ou do pai?

Os chefs-ho­mens tam­bém têm a ma­nia de in­di­car os no­mes dos res­tau­ran­tes de ou­tros chefsho­mens on­de tra­ba­lha­ram pa­ra ob­ter o va­lor acres­ci­do que daí ad­vém.

É ri­dí­cu­lo. E é por is­so que o exem­plo da Noé­lia é tão re­fres­can­te.

Eis uma mu­lher que não apren­deu com nin­guém e apren­deu com to­da a gen­te. Ela não tem ví­ci­os nem ti­ques de es­co­la ne­nhu­ma. In­ven­tou-se a si mes­ma. Quan­do va­mos a Ca­ba­nas co­mer na Noé­lia va­mos de­li­ci­ar­mo-nos com a co­zi­nha de uma pes­soa que é cem por cen­to ela pró­pria. Es­sa pes­soa é uma co­zi­nhei­ra ge­ni­al por­que tem gé­nio: ex­pri­me-se atra­vés do que co­zi­nha e, abra­çan­do a cru­e­za dos ma­ris­cos e dos pei­xes, ca­da vez co­zi­nha me­nos e com­bi­na mais.

Há mais de um ano que não pro­va­va a co­zi­nha da Noé­lia. Co­mo ela é uma cri­a­do­ra cons­tan­te, a úni­ca ma­nei­ra de acom­pa­nhá-la é ir lá to­dos os di­as al­mo­çar e jan­tar, fol­gan­do só à quar­ta-fei­ra. Eu sei por­que já pas­sei as­sim dois me­ses in­tei­ros em dois anos se­gui­dos.

A Noé­lia acor­da to­dos os di­as com uma ideia di­fe­ren­te. Quan­do re­ce­be os in­gre­di­en­tes tem uma se­gun­da ou ter­cei­ra epi­fa­nia. Ela de­sen­vol­ve as idei­as de uma for­ma me­tó­di­ca e len­ta, apro­vei­tan­do sem­pre o que apren­deu an­te­ri­or­men­te. Só os es­pí­ri­tos me­dío­cres se ale­gram em co­me­çar do ze­ro. A Noé­lia par­te do tu­do que já sa­be.

En­tre os mui­tos pra­tos no­vos, tal­vez o mais sen­sa­ci­o­nal se­ja o tár­ta­ro de ca­ra­bi­nei­ro. O sa­bor da car­ne crua do ca­ra­bi­nei­ro é mo­du­la­do atra­vés da fres­cu­ra da sa­la­da com­ple­xa que o ro­deia.

Es­tão lá as re­ve­la­ções dos tár­ta­ros de atum e de os­tra do pas­sa­do, mas a for­ma pre­sen­te é a mais per­fei­ta. A Noé­lia es­tá sem­pre a me­lho­rar-se. Ca­da cri­a­ção é um avan­ço, fa­zen­do com que os pra­tos do pas­sa­do pa­re­çam in­com­ple­tos. É um sa­cri­fí­cio ter­rí­vel mas sem ele não há ge­nuí­na ino­va­ção.

Es­sas ino­va­ções es­ten­dem­se a to­dos os ele­men­tos dum pra­to. Ve­jam-se, por exem­plo, as tor­ra­das, fei­tas a par­tir de um pri­mo­ro­so pão co­zi­do em Cor­te An­tó­nio Mar­tins.

Es­te ano as tor­ra­das são fo­fi­nhas e bar­ra­das com man­tei­ga, na tra­di­ção ga­le­ga de acom­pa­nhar ma­ris­cos. Por exem­plo, com umas amêi­jo­as à Bu­lhão Pa­to ab­so­lu­ta­men­te per­fei­tas (por cau­sa das amêi­jo­as, por cau­sa do mo­lho) as tor­ra­das bri­lham de tão ne­ces­sá­ri­as.

Ou­tro triun­fo deste ano fo­ram as sar­di­nhas al­bar­da­das com xe­rém de to­ma­te. O xe­rém é es­pec­ta­cu­lar­men­te gu­lo­so, tal­vez por­que nos fal­te mi­lho (e can­ja) na ali­men­ta­ção. Pa­re­ce que es­ta­mos a re­gres­sar a uma in­fân­cia per­di­da.

Os fi­le­tes de sar­di­nha do Al­gar­ve são sump­tu­o­sa­men­te fri­tos em al­mo­fa­di­nhas gor­das de fa­zer per­der a ca­be­ça. Por­que é que es­te pra­to não faz par­te obri­ga­tó­ria do dia-a-dia do nos­so Ve­rão?

O ce­vi­che de dou­ra­da faz sa­li­var a bo­ca de tão de­li­ci­o­sa­men­te ads­trin­gen­te. É um ce­vi­che par­ti­cu­lar da Noé­lia, aper­fei­ço­a­do in­fi­ni­ta­men­te, ca­li­bra­do pe­la lima que ela sa­be des­do­brar co­mo nin­guém. Tem fram­bo­e­sas, aba­ca­te e co­en­tros mas is­so na­da nos diz. É a com­bi­na­ção que le­van­ta aqui­lo tu­do e tor­na o ce­vi­che mui­to mais que a so­ma de to­das as par­tes.

Ao aper­fei­ço­ar-se, a Noé­lia es­tá a apro­xi­mar-se do re­cei­tuá­rio tra­di­ci­o­nal do Al­gar­ve, ca­da vez mais ra­ro e aban­do­na­do. Co­mo não tem com­ple­xos nem ini­bi­ções, a Noé­lia usa in­fluên­ci­as ja­po­ne­sas, an­da­lu­zes e es­can­di­na­vas pa­ra fi­xar aqui­lo que lhe tra­zem a me­mó­ria e a ima­gi­na­ção de­la. É uma co­zi­nha fres­ca e cheia de uma­mi, atre­vi­da e in­te­li­gen­te, sen­su­al e le­ve.

É, so­bre­tu­do, úni­ca. É a co­zi­nha de uma só pes­soa, de uma só ca­be­ça, de um só par de mãos. É a co­zi­nha da Noé­lia. Po­de­mos dar gra­ças a Deus por ter nas­ci­do e fi­ca­do em Por­tu­gal. Mas eu pre­fi­ro dar gra­ças à Noé­lia.

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